Onde vais com a tua oração?


Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Deixemos que estas leituras nos alimentem, sintamos o seu sabor, deixemos que elas cheguem ao nosso interior, façamos a sua digestão, até que elas se confundam com a nossa vida.

Se quiséssemos tentar unir os três textos que nos foram servidos com um verbo, com um conceito, com um tema, eu acho que estávamos de acordo, quanto a isso de permanecer, quanto a isso de perseverar. É talvez dos verbos que já se escolheram o verbo permanecer, é talvez o verbo mais importante do cristianismo porque é o verbo dos amantes, porque é o verbo dos que não desistem, dos que não voltam a cara, é o verbo dos que se dispõem a amar, a voltar a amar, aprender a amar. 

Deixemos que seja o verbo permanecer a iluminar os textos deste dia, deste domingo, deixemos que seja este verbo a escolher-nos a nós, mais do que sermos nós a escolhê-lo, deixemos que este verbo nos escolha.

Isto de permanecer, dos mil sentidos que ele pode ter, o verbo, talvez seja importante porque nos reconcilia com o tempo presente. O verbo desistir não nos reconcilia com o tempo presente, o verbo resmungar talvez não nos reconcilie com o tempo presente, nem o desconfiar, e tantos verbos que nós conjugamos que talvez dificultem a tarefa de nos reconciliarmos com o tempo presente. O discurso religioso,  se quiséssemos, o discurso teológico, se nós não fizermos nada por isso, pode cair no ridículo de achar que sabe dizer uma palavra sobre o passado, que sabe dizer palavras sobre inícios, os princípios, e até ousa dizer que sabe coisas sobre o pra lá da vida, os fins, o futuro, e se não fizermos nada por isso, o discurso religioso, o discurso  teológico, de repente parece que é especialista em passado, especialista em futuro, e de repente sobre o presente parece que não tem nada para dizer.

Não é de agora, não se preocupem, porventura envergonha-nos a todos, mas todos sabemos o que é a lentidão do discurso religioso e do discurso teológico perante a novidade.

Todos sabemos quanto se tem gasto, nas energias do Magistério, nas energias de quem tem o lugar de Palavra, porventura nas nossas energias, quanto já se gastou de resistência à modernidade, sendo que vamos, numa tradução literal "modus hodiernos" é o modo do dia de hoje, o modo de vida do dia de hoje,  resistir à modernidade é resistir à realidade, é resistir ao dia de hoje, é não se reconciliar com o tempo presente.

E voltemos ao permanecer, porque queremos que seja esse verbo a reconciliar-nos com o tempo presente, não queremos perder o chão. Não temos que ser especialistas em coisa nenhuma, mas se tivéssemos de ser, que fossemos do tempo presente e não só do passado e do futuro. Que bom seria que fossemos especialistas em reconciliar-nos com o tempo presente. 

Porque é que vais à missa? Olha vou porque quero reconciliar-me com o tempo presente e preciso de todas as ferramentas, também dessa.

Possam as ferramentas que oferecem a religião servir para isto, para abraçarmos o real, para abraçarmos a existência, para abraçarmos isto que é a nossa vida na sua complexidade, e possa isto de amarmos o presente é uma tarefa demorada e porventura muito tardia. Precisa da maturidade do nosso caminho, da nossa idade, de todas as nossas feridas, da nossa história toda, da nossa inteireza.

Possa, isso de amares ou não o presente, estares reconciliado ou não com o real, possa isso ser um barómetro para se quiseres medires a tua vida espiritual, medires a tua vida, a intensidade da tua vida. E se quiseres, este ser o barómetro da tua oração. E sim, a oração é incontornável no texto que nos é servido, particularmente no capítulo XVIII do evangelho de Lucas, se és lento a amar o real, se és lento a aceitar o real, se és lento a acolher o real, se és lento a comprometer-te com o que existe, com o que é real, com o que te é dado, volta-te para a oração, volta-te para a oração!

E possa a oração ser o melhor caminho para abraçarmos o que existe, para amarmos o dia de hoje, para amarmos o presente, para amarmos o real.

E o que é a oração? E o que é a oração?

A etimologia também não sei se ajuda muito. Oração há-de ser a atividade da boca, dos lábios, e se quiséssemos no fim de tudo, se eu quisesse antecipar conclusões, Jesus até pede para esvaziarmos a oração: "não digais muitas palavras como os outros, não digais palavras"... De repente parece que o sentido literal, ou a definição mais etimológica de oração, parece que se vai dissolvendo, e parece que, SIM é atividade dos lábios, mas talvez seja a atividade silenciosa dos lábios, o descanso dos lábios.

A verdade é que cada um tem uma definição de oração. E cada um conhece várias escolas de oração. E também se é verdade que estamos aqui cristãos conservadores, cristãos liberais, cristãos sociais democratas, cristãos socialistas, cristãos comunistas, porque é que também não passa pelas nossas escolhas aderirmos a uma escola de oração, aderirmos a um metre de oração? Nós que aderimos a escolas de pensamento, a escolas políticas, nós que recusamos determinadas lentes, determinados óculos para compreendermos melhor o real, possamos nós também aderir a um método de oração, e há tantos... uns mais palavrosos que outros, uns mais corporais que outros, outros mais racionais que outros.

Que bom que há tanta diversidade, porque diversos somos nós. Que bom seria que cada um também pudesse identificar-se com uma escola, um método, ou porventura criar o seu método de oração.

Eu não consigo ultrapassar a definição de Simone Weil sobre a oração, ela deixava em todos os seus escritos a frase: "A oração é a atenção, a oração é a atenção". E deixemos que a definição de Simone ecoe na nossa busca sobre o que é isso de oração e possa misturar-se connosco e possa do teu coração sair uma definição inédita sobre o que é isso de oração.

Se quiséssemos ficar com a atenção de Simone Weil é a atenção! Atenção a quê? Atenção para quê?

Talvez no fim de tudo olha, para tu veres o que Deus é, para que vejas como Deus vê, para aproximares o teu olhar do olhar de Deus. Sim, para veres no próximo o que vê Deus, um Filho Amado. Para que vejas em ti o que vê Deus, uma Filha, um Filho Amado. Conhecido pelo nome, conhecido pelas feridas, conhecido pela história, alguém de quem Deus não se envergonha, alguém de quem Deus se ergue, para te erguer, para te abraçar.

Como nas histórias que Jesus inventava, aquela figura paterna está assomada à janela sempre pronto a ver regressos, para correr como fazem as crianças, para correr para os braços dos filhos, para nos encher de beijos.

E não precisa das nossas justificações. Pois, se quiseres ficar com a definição de Simone Weil que a oração possa ser essa atenção para que vejas como Deus vê.  E para isso talvez seja um bom exercício, numa espécie de experiência de laboratório. Experimenta isso durante uma semana, experimenta isso durante uns tempos... esvazia a tua oração, esvazia a tua oração. 

Numa sala cheia não cabe mais ninguém, numa casa cheia não cabe mais ninguém. Precisamos de salas vazias e precisamos da nossa oração vazia. 

Começa por, pega lá naquilo a que tu chamas oração e começa pir retirar, por exemplo, os verbos no imperativo, concede-me, dá-me, faz com que... experimenta durante uns tempos, elimina todos os imperativos da tua oração, por exemplo. Vais ficar com outros tempos verbais, vais ficar com outras frases, experimenta tirares as interrogações, converter as interrogações em exclamações, experimenta...

Experimenta chegar a retirar os verbos, se calhar vais ficar só com nomes. Olha, demora-te numa oração só com nomes, demora-te numa oração cheia de nomes e se quiseres continuar a experiência e o caminho de esvaziamento pedido por Jesus, " quando orardes não digais muitas palavras, olha retira os nomes permite que a tua oração chegue a ser silêncio, permite que a tua oração chegue a ser silêncio.

Mesmo que examines o teu dia, mesmo que passes o filme do teu dia, mesmo que queiras confiar aquilo que te preocupa nesta hora, experimenta o silêncio, experimenta o silêncio. 

E possamos nós descobrir neste caminho de reconciliação com o real, no qual a oração desempenha um papel fundamental, possamos nós descobrir o valor do silêncio e também do silêncio de Deus.

E possamos nós também saborear a ausência e também a ausência de Deus e possamos nós saborear a demora e também a demora de Deus.

E sintamos que esse silêncio, essa ausência e essa demora nos salvam, nos salvam porque não nos esmagam, nos salvam porque nos deixam livres.

O silêncio de Deus permite que tu dês Carne à Palavra, permite que tu dês Forma à Palavra.

A demora de Deus permite reconciliar-nos com as nossas pressas e com o nosso Tempo, a demora de Deus permite-te descobrir outros ritmos e outros tempos   e a ausência de Deus que tu sejas, a ausência de Deus permite a Liberdade.

E nós queremos agradecer o silêncio a demora e a ausência, porque daí emergimos nós inteiros e originais. E daí emerge a nossa oração inteira e original.

Para quê tudo isto, para quê reconciliar-nos com o presente, para quê vermos os outros com o olhar de Deus, para quê tudo isto?

A interrogação misteriosa de Jesus neste parágrafo "e quando o Filho da Humanidade vier encontrará fé?"

E nós não nos cansamos de definir fé no seu sentido literal do verbo Hebraico Aman, os laços que se davam nas plantas às estacas, e quando o Filho do Homem vier encontrará laços? Encontrará relação? Encontrará gente amarrada?

Possa a oração reconciliar-nos com o tempo presente, possa a oração esvaziar-nos para nos amarrarmos ao tempo presente, possa tudo isto estreitar os nossos laços. 

(Onde vais com a tua oração? Dom XXIX do Tempo Comum C | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 15 de Outubro de 2022. | Êxodo 17,8-13; 2 Timóteo 3,14 – 4,2 e Lucas 18,1-8.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/10/16/onde-vais-com-a-tua-oracao/

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