Amados imperfeitos
Queridas irmãs, queridas amigas,
Saboreemos o detalhe com que abre este parágrafo, que nos
foi servido do evangelho. Jesus está a caminho de Jerusalém. Estamos no XIII
capítulo do evangelho de Lucas, já estamos numa outra geografia e caminho que
Lucas nos oferece, o caminho de Jesus para Jerusalém, mais do que um caminho
geográfico é um caminho catequético, é um caminho pedagógico.
E não sei o que vos parece, mas, os textos que nos são
servidos neste XXI domingo do tempo comum, todos eles nos recordam que estamos
em processo. Se quisermos, imaginemo-nos na cena do evangelho, nós também estamos
com Jesus a caminho de Jerusalém.
Os discípulos, mesmo nessa hora, mesmo na grande
subida a Jerusalém para a derradeira Páscoa, cada um sobe com as suas
motivações, cada um traduziu o que quis e o que Jesus foi dizendo. E nós
também estamos na nossa subida para Jerusalém, com os nossos ouvidos que às
vezes funcionam uns dias melhores do que outros, e também a generosidade e a
disponibilidade do nosso coração conhece melhores dias, cada um no seu ritmo.
Mas nós também estamos a caminho.
Também nos recordava Isaías aos regressados do exílio,
aos que estavam a reconstruir o país, se calhar é essa também a metáfora, nós
que damos de barato que o nosso país está construído. Não, as pedras estão
todas mais ou menos no sítio, mas as instituições são feitas de pessoas e nós
também fazemos parte de instituições, nós também temos uma parte de
responsabilidades do nosso lado. Somos nós que mantemos vivas as instituições,
somos nós as pedras vivas da Igreja e vamos, também estamos em processo.
Estamos como lembrava a carta aos Hebreus, estamos
como filhos em anos de educação.
Apresentemo-nos assim ao Senhor, com vontade de
acolher estes textos, com vontade de fazer caminho. Não sabemos a meta do
caminho, a única certeza que o caminho nos oferece é a de que não ficamos no
mesmo lugar, é a de que não ficamos na mesma. E tão expressivo é o significado
do caminho que Jesus escolhe essa imagem para se definir a si próprio.
EU SOU CAMINHO, se quiséssemos traduzir, EU querido discípulo, querida discípula, EU prometo que não te deixo na mesma.
EU SOU O CAMINHO, TU NÃO FICARÁS NA MESMA.
E queremos acolher esta palavra com poder de Páscoa,
com o poder de não nos deixar na mesma.
Este parágrafo não é para nos meter medo, acho que já
repeti aqui várias vezes e desculpem dar-me ao luxo de repetir a saciedade, o
medo não faz nada connosco, tudo o que nós negarmos por medo fica mal negado, é
postiço. O que nos muda, o que verdadeiramente nos transforma é o que fazemos
por amor, é o amor que nos transforma, é o amor que nos muda, é o amor que nos
converte tudo o resto, se for por medo é postiço. Este parágrafo do evangelho
de Lucas não é para nos meter medo, se algum texto da escritura nos meter medo
numa primeira leitura exige uma segunda e uma terceira, até saborearmos outro sentido.
Nós sobre a morte não sabemos muito. Sabemos, de tão certa que é, sabemos que faz parte da nossa vida. Eu não consigo dizer que o contrário da vida seja a morte, faz parte deste mistério que nós vamos tentando decifrar em cada dia. O contrário da vida é o medo, é o medo que não nos deixa viver.
Não queremos olhar para este texto com medo, e
quisermos digo-vos já, o dono da casa sabe quem vós sois, o dono da casa
conhece-vos pelo nome e não há que ter medo, há que ter medo.
Serve-nos este texto para nos recordar a exigência do
caminho, a exigência daqueles que se dizem discípulos de Jesus.
Jesus não responde à pergunta se são muitos ou se são
poucos os que se salvam e digo-vos, desculpem a franqueza, nós que sabemos o
fim da história, digo-vos que valia a pena reformularmos a pergunta, Senhor são
poucos os que não se salvam? Serão poucos? Nós que sabemos o fim da história...
Jesus é o Salvador de tudo e de todos, dá sentido a tudo e a todos, alguém
ficará de fora?
Talvez este discurso mais exigente seja para nos
recordar que, sim querida discípula, sim querido discípulo, tu já estás salvo,
tu já estás salvo. Mas não te contentes com as tuas medidas, não te contentes
com o que julgas certo. E talvez essa imagem da porta estreita e da porta
larga, e eu com os meus míseros 38, estou sempre a repetir a minha idade, já
tenho tempo suficiente para acumular muita tralha, o que dou como certo, o que
dou como seguro, a forma como eu leio as pessoas, a forma como eu acho do lado certo,
tudo isto é tralha, tudo isto muitas vezes não permite que eu deixe que as
pessoas se apresentem ineditamente como são.
E queremos reconhecer nesta hora que nem sempre a
nossa tralha facilita este processo de encontro e sim, entrar pela porta larga
significa que entro eu e a minha tralha, entrar eu e o meu ego, entro eu e as
minhas certezas e as minhas seguranças, entrar pela porta estreita talvez
seja um convite a uma vida mais enxuta... Entras tu, inseguro como tu és, tu e
as tuas fragilidades e sim, talvez seja uma vida mais sustentável entras
numa vida onde precisas de outros, onde dependemos uns dos outros. E Jesus não
cansa de pedir isto aos seus discípulos, quando os enviou pediu para não
levarem nada para o dia seguinte, para dependermos uns dos outros. Talvez seja
esse a imagem da porta estreita, não é para termos medo, é para nos recordarmos
que aquilo que vamos acumulando nem sempre permite o encontro.
Nós conhecemos o dono da casa e o dono da casa
conhece-nos e há um texto que corresponde a este parágrafo, Senhor afinal quem
és tu? onde é que nós te vemos? Lembramos o capítulo XXV de Mateus, "cada
vez que mataste a sede a um irmão, a uma irmã tua",
"cada vez que vestiste alguém",
"cada vez que visitaste no hospital ou na
cadeia",
"cada vez que cuidaste alguém, foi a mim que o
fizeste".
VINDE BENDITOS DE MEU PAI!
Nós estamos seguramente nesse grupo, apesar de talvez
alguns dias mais cansados nos custe, olhar atento nos custe o cuidado... mas é
aí que nos inscrevemos e queremos que estes textos nos estimulem o Caminho.
Queremos apresentar-nos ao Senhor disponíveis a
percorrer um Caminho, disponíveis a não ficarmos na mesma, queremos
apresentar-nos ao Senhor disponíveis a reconhecê-Lo no rosto de todos os que
vivem, convivem connosco.
Queremos reconhecer que acumulamos muita tralha que na
hora do Encontro não favorece essa visão inédita essa visão original com que
olhamos o próximo e com que vemos Jesus.
Possam estes textos no meio de agosto, lembrar-nos o
sentido da nossa vida pascal, estimular o nosso caminho e possam dissipar o
medo. Não tenhamos medo porque o dono da casa conhece-nos pelo nome.
(Amados imperfeitos - XXI domingo do tempo comum C | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade - Lisboa, 21 de Agosto de 2022. | Isaías 66,18-21; Hebreus 12,5-13 e Lucas 13,22-30.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/08/21/amados-imperfeitos/

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