E como queremos que seja entre nós?
Não sei se haverá maneira de olharmos para esta Palavra com boa disposição sendo ela uma Palavra, aparentemente maldisposta, ou pelo menos dita num contexto de má disposição. Perdoai não conseguir fazer dela um momento de boa disposição, vamos acolhe-la com a energia, com o sangue que nela pulsa, vamos acolhê-la com vontade de que faça viver. Que esta Palavra nos faça viver e que esta Palavra em nós permita que outros vivam.
Há autores que
dizem que o evangelho de Marcos, que é o que temos lido ao longo deste ano mais
vezes, mais ou menos de forma continuada, há autores que dizem que o evangelho
de Marcos é uma grande narrativa dos últimos dias da vida de Jesus, aquela
última semana em Jerusalém, onde Ele sofre, é julgado injustamente, onde Ele
morre, é parece que não morreu, é parece que o convite a recomeçar ecoa no
coração dos discípulos.
Desde o capítulo
XI ao final, o capítulo XVI, a narrativa de Marcos concentra -se nesta semana,
é por isso há autores que dizem que o evangelho de Marcos concentra -se nesta
semana, narrativa da Paixão precedido de uma grande introdução.
Está grande introdução conhece um momento de viragem, no capítulo VIII percebe-se que o evangelho de Marcos chega a uma primeira metade e dá início a uma segunda metade.
A primeira metade há autores que dizem que se conclui na confissão de Pedro, TU ÉS O MESSIAS, ÉS O CRISTO! Em certa medida Marcos anda connosco pela mão para chegarmos a esta conclusão, uma conclusão que se apresenta a meio do seu evangelho, talvez não seja bem uma conclusão, que talvez um ponto de chegada e um ponto de partida.
A verdade é que na segunda parte Marcos faz questão de através dos dutos de Jesus, dizer que Messias é este. Sim querido leitor, a primeira parte andaste com Jesus pela Galileia. Agora a rota de Jesus aponta-se para Jerusalém, Ele vai subir uma única vez na narrativa de Marcos e já de lá não sai. E sim, como Pedro tu concluis que Jesus é o Messias, agora vou dizer-te que Messias é este.
Desde os tempos
do exílio na Babilónia, desde que Israel conheceu a destruição do povo, a
destruição das instituições, a destruição do Templo, a destruição das casas, a
destruição de tudo, emerge na consciência do povo de Israel uma saudade de
Deus, e essa saudade de Deus, e esta saudade pela fidelidade de Deus, saudade
da Aliança, vai gerar no povo uma consciência da chegada de alguém em
nome de Deus, e esse alguém é o Messias, é o Ungido, é o Escolhido e um ...? e
esse alguém vai reconstruir Jerusalém, vai reconstruir Israel, vai dar novo
sentido à história e aqui e ali o povo esperava o Messias, como reconstrutor,
como aquele que vai repor a justiça. Ao tempo de Jesus havia até grupos de tão
zelosos que eram pelo combate contra o povo opressor, os romanos e nesse
combate a espera eminente da chegada do Messias, chamavam-se Zelotas,
precisamente por esse zelo de combater o povo opressor e começar a dar espaço à
chegada desse Messias que vai destronar o povo opressor e vai fazer brilhar
Israel no meio das Nações. Esse Messias é esperado por todos, esse Messias é
esperado por Pedro, é esperado por todos. Um Messias de espada desembainhada
que expulsará os Romanos e que dirá de uma vez por todas que o povo de Israel é
o povo mais importante de todos os povos da terra.
Jesus respira fundo, nunca disse a Pedro tens razão, eu sou o Messias nunca lhe disse, pediu que não dissessem nada a ninguém.
E nesta segunda
parte do evangelho de Marcos... bom, vou explicar-vos o que é isso de Messias,
em primeiro lugar eu não sou o Messias eu sou humano, é uma possibilidade de
traduzir este título que está escrito no livro de Daniel, nós lemos hoje a
tradução do Pastor Dimas de Almeida que nos deixou recentemente. Ele traduz por
filho do homem, como estamos habituados a traduzir. Frederico Lourenço traduz
como filhos da humanidade, há autores que traduzem como o Humano, com letra
maiúscula. Foi o título que Jesus escolheu para si vestiu este título, fazia
parte do património de Israel, estava escondido no livro de Daniel. Isso é
inconfortável e ele começa a dizer o que é isso de Messias, não é o Senhor dos Exércitos
é o Humano. E é o Humano que vocês viram na Galileia, que andou com últimos,
que juntou último, que ergueu últimos, que curou últimos, que se deu aos a
últimos, esse é o Humano, esse é o filho da humanidade, esse é o filho do
homem, esse é o Messias.
Não é o outro, o
das vossas fantasias e de que vos falo é esse, pequeno, será esmagado e será
pedra de tropeço, muitos hão-de escandalizar-se por ele ser esmagado, por
ele carregar tanta injustiça sobre ele e vão perceber que só assim há
lugar para todos. Se esmagasse aqueles que esmagam, deixaria de fora
os que se julgam primeiros. Só cuidando dos últimos fica claro que há
lugar para todos.
Curioso que Jesus
diz isto três vezes, por três a caminho de Jerusalém vai dizer isto,
atenção ouçam o que eu tenho para dizer, isto não vai correr bem como vocês
estão à espera, isto vai correr muito mal, todos os profetas que afrontaram o
Templo, foram degolados foram desmembrados, a sua morte foi extremamente
violenta, o que é que acham que me vai acontecer? Pedro tomará Jesus pela
mão e dirá, estás-te a passar... Jesus chamará a Pedro satanás, (satã e
adversário, narrar é a palavra que diz serpente), não sabemos
traduzir isto, mas seria um adversário mesquinho,
Pedro estás a ser
mesquinho, estás a pensar safar-te a ti, safar-me a mim, como tantos se safam,
como os sacerdotes se safam, comi os príncipes dos sacerdotes se safam, como os
fariseus se safam, como os doutores da lei se safam, como os escribas se safam,
é um beco sem saída. Pedro cala-te a partir de agora, diz Jesus a Pedro no
capítulo VIII como diz ao vento na tempestade e como diz aos espíritos
impuros, diz-nos Marcos, a mesma palavra para Pedro CALA-TE!
Jesus vai conhecer a oposição sempre que diz, EU SOU UM MESSSIAS DIFERENTE. Vai conhecer a oposição nos próprios discípulos, pela segunda vez vão perguntar-se uns aos outros quem é o maior e da terceira vez há dois que pendem os dois melhores lugares e os outros ficam cheios de inveja porque também os queriam. Curioso que nestas três vezes em que Jesus diz que isto é diferente, preparem-se que usto não vai lá com armas, este bloco de três anúncios é encaixado na narrativa de Marcos com dois cegos, com dois cegos. O segundo cego tem nome, nos vamos escutá-lo na próxima semana, chama-se Bartimeu, e em certa medida este caminho para Jerusalém é um caminho de luz e de sombra, é um caminho de visão e de cegueira, e por três vezes Jesus diz isto não é para triunfar desta maneira, por três vezes os discípulos não percebem e o que Marcos nos quer dizer é que, querido leitor, não são três vezes, são três mil anos de cegueira, são três mil anos de incompreensão.
Nós vamos em dois
mil e poucos, e teremos mais milénios de incompreensão desta
maneira disruptiva de Jesus de ser Messias. Sou último e quero ser
último. Quem se puser atrás de mim será último, e cada um de nós tem esta
verdade para encaixar.
A Igreja começou
por ser um bando de últimos, começou por ser perseguida, ali no século IV,
conheceu uma paz no Império quando o próprio imperador se converteu ao
cristianismo e a partir dessa altura, isto começou a ficar mais distante no
evangelho e havemos de reconhecer isso, nascem na vida da igreja
formas ascéticas, formas miseráveis de viver por oposição ao estilo pesado
com que a Igreja desde o século IV, começando com os senhores do Império, os
senhores das boas instituições, os grandes do povo... e nós só descolámos disto
no século passado, só se colocou o preto no branco, uma separação entre Estado
e Igreja aí no contexto português em 1891, é muito recente, nós estamos
habituados a ser os maiores, nós estamos habituados a ser a maioria, nós
estamos habituados a saber interpretar o que é que é o povo e o que é que
o povo diz e pensa, nós estamos habituados a achar que somos a instituição principal
aquela que diz o que é que é bom e o que é que é mau, aquela que diz como é que
as pessoas se devem comportar. "Não deve ser assim entre
vós, não deve ser assim entre vós".
Nós vamos
colhendo agora os frutos disso, de nos acharmos os maiores, de nos acharmos
privilegiados em relação a outros, por sermos a maioria, por achar que a
verdade somos nós, e a verdade está connosco, vamos percebendo a
fatura que pagamos com a arrogância da nossa maneira de estar por
sermos a maioria, vamos pagando a fatura por aqueles que se dizem agentes
do Reino agentes do Reino de Jesus, agentes da Igreja, vamos pagando a
fatura da sua arrogância, da sua superioridade, e de arrogarem para si
superioridade moral e um valor a mais em relação aos outros batizados. Não
deve ser assim entre vós! Não deve ser assim entre vós!
Deixemos que esta
frase maldisposta de Jesus continue a ecoar no nosso coração, nós que julgamos
sempre que estamos do lado certo. Possa esta frase de Jesus deixar uma
brecha nas nossas certezas sobre a Igreja, sobre o Reino de Deus, sobre o Sonho
de Jesus. Bem-aventurados os abridores de brechas porque deixarão passar a Luz.
Queremos nós
também agradecer as brechas que vão acontecendo nas nossas certezas, porque em
certa medida nos vão iluminando.
Possa esta
Palavra devolver-nos a urgência de erguermos quem está fora, quem se sente
fora.
Que oportuno este
texto, em contexto de abertura Sinodal, em todas as Dioceses do país,
começa hoje o Sínodo, menos Lisboa que decidiu adiar para daqui a quinze
dias, ainda é outubro. É agora que vamos começar uma etapa muitíssimo
importante onde nos vamos colocar à escuta dos habituais, dos não praticantes e
já agora daqueles que se sentem de fora e estão de fora e têm vergonha de ser
dos nossos, mas que têm alguma cousa a dizer-nos e nós queremos escutá-los.
Possa esta
Palavra ser também ela inaugural de um caminho, de um caminho já sem certezas,
de um caminho com a única certeza, de que queremos ser últimos, de que
queremos ser servos e que só assim como Jesus dizia e mostrava caberão
todos.
(e como queremos que seja entre nós? breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XXIX do Tempo Comum B | transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 16 de Outubro de 2021. - Isaías 53,10-11; Hebreus 4,14-16 e Marcos 10,35-45.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/10/16/e-como-queremos-que-seja-entre-nos/

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