Merecimento: essa cegueira desejada

Queridas irmãs, queridas amigas 

Recebamos estes para alimentarem a nossa Páscoa, para não nos deixarem na mesma, para nos ajudarem na nossa tarefa de busca e de desejo de seguir Jesus, imitar Jesus.

Possam estes textos contribuir para sermos mais Jesus, mais Jesus uns para os outros.

Eu não quero fugir às minhas responsabilidades, o capítulo 34 deste livro de Ezequiel, dirige-se aos pastores, aos maus pastores e isto também me toca, mas ainda assim com Jesus dado que acabou-se o sacerdócio, por muito que isso nos custe porque nós não suportando isso fomos resgatar essa espécie de tribo a quem a gente delega o poder de mediação, nós sabemos que não faz sentido, a mediação é Jesus.

A carta aos judeus é clara em relação ao sacerdócio, só faz sentido de facto, sacerdócio batismal. Todos somos Jesus em espelho, uns para com os outros.

É verdade que este texto se dirige à classe dos pastores, dos líderes do povo, mas nós que seguimos Jesus e somos chamados a imitá-lo, nós somos todos chamados a imitar o nosso Pastor se quisermos, todos somos chamados a sermos pastores.

Todos somos pastores, todos temos deveres de cuidado uns para com os outros, e este texto de Ezequiel aos discípulos de Jesus tem muito a dizer, tem muito a dizer-nos, aqueles que não só, só pensam em si como consomem os outros, fazem dos outros ovelhas para seu sustento.

Nós sabemos que onde há poder há abuso, onde há poder há sempre abuso, é uma questão de tempo! 

E talvez por isso entre nós, entre os discípulos de Jesus, é um mau sinal quem deseja poder, e nós sabemos disso e temos ferramentas para que isso não aconteça e temos escrutínio suficiente, o mais possível. Onde há poder há abuso, onde há poder mais cedo ou mais tarde a exigência baixa, é mais fácil pensar em mim, é mais cómodo pensar em mim, percebemos que havemos de viver sempre em tensão para que isto não aconteça.

E sim, olhando para a página do capítulo 20 de Mateus que acabámos de escutar, é já depois desta história que Jesus inventa que se percebe que estão a caminho de Jerusalém e a seguir a isto hão-de discutir quem é o mais importante, a seguir a isto continuam o tema do capítulo anterior sobre a riqueza e a pobreza. Os discípulos estão cheios de si, não conseguem perceber outra coisa. A subida para Jerusalém para eles será, "agora Jesus será o Messias e cada um de nós será juiz de uma tribo de Israel".

Onde há poder há abuso e que bom seria que nós juntássemos esta frase a todas as nossas orações de todos os dias, para nos lembrarmos disto, porque a verdade é que nesta página do Evangelho estamos nós. Porventura todos nós nos consideramos trabalhadores de primeira hora e sim já suportamos, eu com os meus míseros 38 e cada um de vós com os seus mais de 40, já suportamos muito, já suportamos o peso do dia e do calor, e é verdade que pode ser uma tentação confundir justiça e merecimento. E quanto mais olhamos para o estado das coisas, quanto mais olhamos para o grupo a que pertencemos, para a nossa tradição, para a nossa igreja, a verdade é que nós conseguimos uma grande coleção de merecedores. De gente que está dentro e diz que assim está bem e que está tudo bem.

Vem um senhor da Argentina e diz-nos não, assim não está nada bem e como está não pide ficar. E nós vamos deixando que essa frase perca o seu poder atómico  mas a verdade é que ele disse-a e disse-a bem.

Nós não podemos contentar-nos por sermos os merecedores, por sermos os da primeira hora e por sermos quase os donos da vinha.

Sim, inquieta-nos muito duas frases comuns por isso talvez tenham escolhido estes dois textos para se lerem os dois e para se interpretarem os dois. Por duas vezes há um desinteresse pelos que estão na praça, pelos que estão apascentados, na primeira leitura, há um desinteresse ninguém se interessou por nós, ninguém contou connosco, ninguém nos deu trabalho, ninguém nos quer dentro da vinha. E esta frase tem de sangrar no nosso peito, tem de continuar viva e é essa que nos converte em pastores, converte em cuidadores.

Possam estes textos iluminar a nossa oração, a começar pela nossa oração, pelo nosso exame de consciência. O que é que andamos nós a fazer, o que é que ando eu a fazer para me bastar a mim próprio, para achar que está tudo bem, para me julgar o mais merecedor, o da primeira hora, o mais bem pago, o preferido do dono da vinha, em que é que isso se materializa?

Do Sonho de Jesus o que é que construímos pensando assim?

Possa essa lógica dos discípulos que nos escandaliza a caminho de Jerusalém, possa essa lógica fazer com que cada um de nós responda ao evangelho de maneira diferente, possa esta sedução de Jesus pelos últimos, possa também ser a nossa vocação e na nossa missão, interessarmo-nos p0r quem a igreja não se interessa, interessarmo-nos por quem ninguém se interessa, nem que seja na disponibilidade do nosso coração e da nossa oração.

Possa o Sonho de Jesus converter-se de verdade na construção de um rebanho de pastores.

(merecimento: essa cegueira desejada – sem XX quarta B tempo comum - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | semana XX do Tempo Comum – Quarta | Lisboa, 17 de Agosto de 2022. | Ezequiel 34,1-11 e Mateus 20,1-16.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/08/17/merecimento-essa-cegueira-desejada/

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fará sentido viveres com medo de quem te conhece?

Amados imperfeitos

E como queremos que seja entre nós?