Da importância de ser último - Maria rainha 22 de agosto

  
Queridas irmãs, queridas amigas 

Celebramos Jesus, é o que acontece sempre que nos juntamos à volta desta mesa, celebramos o nosso Deus pascal, o Deus que precisa da nossa carne, o Deus que precisa da nossa fragilidade, o Deus que não vem cá aliviar-nos da nossa condição, safar-nos da nossa condição.

Não é um Deus que altera as leis da natureza, para que a nossa fragilidade seja mais fácil de suportar.

Nós celebramos o Deus mais encantado com a nossa condição, e que escolheu para sua morada a nossa carne, o Deus que habita a nossa fragilidade. E esse é o Deus Pascal, esse que nós experimentamos a cada hora, a cada dia, o Deus que se manifesta nas nossas escolhas, no nosso cuidado, nas nossas palavras, nos nossos silêncios, nas nossas presenças.

Esse é o nosso amado, esse é a razão de estarmos aqui e é a razão de nos levantarmos da cama.

E por lhe chamarmos todos os nomes, e por termos para com Ele todo o carinho, nós que aproveitamos os títulos que na Antiga Aliança estavam reservados para o Messias, escutávamos hoje na profecia de Isaías, esse que vem dar sentido à história do povo, esse que vem libertar de uma vez por todas, esse que será o Escolhido, o Ungido, o Messias, o Cristo, esse será o Príncipe da Paz.

E sim, é o Princípio da Paz e Ele não vai construir a paz sozinho, e Ele não consegue construir a paz sozinho, esse Príncipe da Paz que habita a nossa carne, que habita a nossa fragilidade precisa das tuas decisões para construir a paz. Precisa da tua paciência, da tua tolerância, da vontade de escutar o outro, da vontade de te pores no lugar do outro, precisa daquilo que nós julgamos ser pouco, para construir a paz no mundo. 

Ao falarmos do Príncipe da Paz e ao lembrarmos a mãe de Jesus, as nossas categorias valem o que valem, nós precisamos de palavras para falar da realidade, para falar daquilo que acreditamos, para falar de conceitos, de ideias, as nossas palavras ficam sempre aquém, não conseguimos dizer tudo por palavras, por isso que importância têm a poesia e os poetas, que importância tem a arte e os artistas?

Parece que conseguem dar um passo além das palavras, parece que conseguem um pouco mais, dizer aquilo que nós não conseguirmos dizer. 

E sim ao falarmos de Maria, a mãe de Jesus, que nome se há-de dar à mãe de um Príncipe?

Nós, entre as nossas categorias, apesar de há mais de cem anos sermos republicanos, mas vá... a mãe do presidente não tem nome, não tem categoria, a mãe do Príncipe é a Rainha. E vamos chamar-lhe a Maria, Rainha.

Como disse eu estou curiosíssimo por saber a reação de Maria quando se aperceber das centenas de nomes que nós temos para ela.

Estamos em 1955, estamos em plena guerra fria e estamos, como humanidade, estamos completamente deprimidos neste sentido, como é possível no mesmo século duas guerras tão grandes e tão estúpidas? (repete)

Quantos milhões de pessoas morreram por duas guerras tão estúpidas? E em 1955 Pio XII achou que podíamos lembrar o Príncipe da Paz e podíamos lembrar a Mãe do Príncipe da Paz como Rainha, Rainha do mundo, Rainha da paz.

Talvez nesta proclamação Pio XII e com certeza o sentir de muitos cristãos que projetavam para esta festa os nossos medos, vamos fazer tudo para que não aconteça uma terceira, 

vamos fazer tudo para que não aconteça outra vez coisa igual, é insuportável viver com guerra, é insuportável.

Acolhamos a intuição de Pio XII, na minha sensibilidade eu acho que Maria não gosta muito das nossas invenções destes nomes para ela, uma adolescente frágil da Galileia de repente convertida em matrona romana, que leva com todo o nosso ouro e leva com todo o nosso poder...

Pobre Maria, ela vale pelo que fez na sua profunda fragilidade!

É isto que nos é servido neste parágrafo do pórtico do Evangelho de Lucas. Escutávamos aquela miúda com os seus sonhos e os seus projetos que nem os conhecemos. Lucas não sabendo como aconteceu transporta para este pórtico o mesmo que é comum aos relatos de vocação dos Profetas, e coloca Maria a ser visitada pelo próprio Deus.

Na escritura sempre que aparece a voz, sempre que aparece o anjo, o mensageiro, sempre que aparece a luz... Sim é a forma como nós dizemos pir palavras isso que é a voz de Deus no teu interior, na tua consciência, esse cair de ficha existencial, espiritual, sim está aqui tudo! Está aqui essa voz, está aqui o espanto, o medo. Está aqui interrogação, está aqui a promessa, está aqui a confiança e está aqui o SIM... dito timidamente, fragilmente, em profunda liberdade.

E queremos lembrar este texto de Lucas que para nós é também um programa de vida. 

O relato de vocação de Maria é também a nossa história vocacional. Acolhemos os detalhes deste texto, um texto tão breve carregado de tantos nomes; a terra tem nome, o anjo tem nome, o namorado da virgem tem nome, a jovem a virgem tem nome, todos têm nome. Lucas parece que está a dizer-nos, querido leitor eu queria tanto pôr aqui o teu, mas o espaço é tão breve, sente-te aqui incluído... o Deus que precisa de todos os nomes, o Deus que habita todos os nomes.

Nós brindamos a este Deus estranho, a este Deus que prescinde de ser omnipotente, para precisar de ti e para ser omnipotente contigo, para ser poderoso contigo, aquilo que tu puderes será o que Deus pode. E isso é tremendo, nós preferimos não pensar muito nisso até quase nos tira o sono... um Deus que prefere não intervir na história que não seja com as tuas palavras e as tuas escolhas, o Deus que espera por ti, o Deus que te habita, nós brindamos a este Deus estranho que precisou de Maria, essa frágil como tu, essa cheia de dúvidas como tu, essa disponível como tu.

Nós brindamos a Maria não porque ela foi a primeira. A verdade é que a tradição católica e tradição ortodoxa enaltece Maria de toda as formas, com toda a fantasia também, com todo o carinho.

Mas vamos, o dado que nos vem do evangelho não nos diz que, estava Jesus e Maria a passear na praia e viu um pescador e chamou-o, estava Jesus e Maria a passear e viu Mateus e chamou-o, não consta, não consta.

Maria, nós dizemos que foi a primeira porque, sim é ela que dá a Jesus o património genético, é ela que dá a Jesus o sotaque, é ela que ensina a Jesus as boas maneiras à mesa, é ela que educa Jesus, é ela que lhe deu colo, que lhe deu amor e sabemos que é o amor que nos faz crescer, que é o amor que nos transforma. Sim ela é o mais que tudo. 

Mas vamos, ela não é grande por ser a primeira, diz-nos os evangelhos que quando a multidão apertava Jesus por todos os lados numa casa onde o escutavam como coração aberto Maria não estava, estava lá fora e veio com os parentes tentar por mão em Jesus, custa-nos que ela não seja a primeira.

Maria é grande porque é a última, porque ficou até ao fim, porque na sua profunda fragilidade e por não perceber bem tudo aquilo permanece e permanecer é o verbo dos amantes.

Maria, tendo o privilégio de ser Mãe e Jesus diz: Não, não digas feliz aquela que te trouxe no ventre, feliz aquela que te amamentou, feliz de ti que ouves esta palavra e a podes pôr em prática.

Maria não é grande pelo privilégio de ser mãe, é grande porque escolhe ser discípula e discípula até ao fim, e por isso é o nosso modelo, por isso é um dos nossos modelos.

Brindemos à vida de Maria, ao sim de Maria dito em profunda liberdade e profunda fragilidade, esse é o nosso sim de cada dia, 

dito em profunda liberdade dito em profunda fragilidade, capaz de tornar Jesus presente na nossa carne. Brindemos à nossa fragilidade, é essa que Jesus escolhe para sua morada e lembremos que nós não celebramos estes dias, não celebramos este dia de Maria Rainha e não lemos estes textos, para que ela venha cá resolver os nossos problemas, nós não celebramos estas solenidades, estas memórias, estas festas, para que Deus venha cá fazer por nós. Nós recordamos Maria para nos lembrarmos do poder que tem a nossa fragilidade. Ela que disse SIM nas suas interrogações, na sua insegurança, no meio dos seus sonhos e desejos disse SIM e quanto mudou a história, quanto mudou a nossa história, a minha história, a tua história.

Possa este dia reconciliar-nos com a nossa condição, essa que Deus escolhe para Morada, para Templo.

Possa este dia reconciliar-nos com a nossa condição, e possa este dia fazer com que olhemos para Maria como possibilidade, ela que na sua fragilidade deu à luz o Príncipe da Paz.

Possam as nossas escolhas, as nossas palavras, os nossos gestos, a nossa carne, dar à luz em cada hora a presença do Príncipe da Paz. 

 (Da importância de ser último - Maria rainha 22 de agosto | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade |    Lisboa, 22 de Agosto de 2022. Isaías 9,1-6 e Lucas 1,26-38.)

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