Quem cabe na tua maior pergunta?

Queridos irmãos, queridas irmãs, queridos amigos 

Nós já sabemos de cor esta parábola, esta história que Jesus inventa para falar do próximo, o mesmo é dizer, a história que Jesus inventa para nós tomarmos consciência de quem fazemos próximos, de quem nos fazemos próximos.

Já sabemos de cor, eu tenho a certeza de que não acrescento nada à vossa reflexão, à vossa oração, às vezes que já mastigastes esta história.

Já sabemos de cor esta história onde uma palavra decisiva é difícil de traduzir, é o verbo esplandenisa mais aquela personagem onde nós vemos Jesus, aquele samaritano que cuida do espancado, volvem-lhe as entranhas, dói-lhe as entranhas. 

É o que nós sentimos quando nos sobrevém uma notícia desagradável, é também quando ouvimos pela primeira vez amo-te, aquilo que os ingleses chamam as borboletas na barriga, isso é o verbo que aqui está. Aparece onze vezes nos evangelhos sinóticos e sempre ligado ou a Jesus, ou a uma personagem que faz as vezes de Jesus e porventura este bom samaritano, todos os discípulos de Jesus veem nele um outro Jesus. Apesar de ser uma história inventada por Jesus, veem naquele excesso de cuidado, veem o próprio Jesus. Ele a quem de ver aquele homem espancado sentiu coisas, sentiu coisas no ventre e volvendo-se-lhe as entranhas nao teve outra alternativa senão cuidar daquele homem. 

Diferente do Sacerdote e do Levita, pessoas muito respeitadas à época de Jesus, que vendo-o não volveram entranhas nenhumas, vendo-o lembraram-se que não podem tocar naquele  homem porque têm de ir para o Templo e têm de ir puros, e a consciência de pureza significava não tocar noutros, não se aproximar de outros impuros. 

Nós já sabemos a história de cor e novamente repito é uma história que Jesus inventa para que tu te perguntes, quem é que tu deixas que se aproxime, quem é que tu deixas ser próximo?

Mas eu gostava que nós detivessémos nos diálogos antes e depois da história que Jesus inventa. Aquele homem letrado veio ter com Jesus, segundo Lucas, para o experimentar e quer possuir a vida eterna, quer possuir a vida eterna. Eu faço o quê para possuir a vida eterna? Eu gostava que repousassemos o coração ao longo da semana, quando nos lembrarmos de voltar a este texto, gostava que repousassemos o coração na postura de Jesus, Jesus bem que podia desbobinar logo ali, Ele que é Rabi, Ele que é Mestre, bem que podia desbobinar ali toda a doutrina. 

Jesus, como sempre, não resolve as coisas com um sim e com um não, como sempre é escorregadio e como quase sempre responde com uma pergunta. E eu gostava que nós ao longo do tempo repousassemos o coração nesta forma de Jesus acolher a sede daquele homem e pergunta-lhe o que diz a escritura e podia passar-se essa pergunta. E aquela que me parece a pergunta essencialmente é como é que tu lês? Como é que tu lês a Lei? 

Se quiséssemos, como é que tu interpretas? E a verdade é que nós somos interpretação, a verdade é que somos uma narrativa interpretada, somos uma narrativa que herdamos e que foi interpretada e nos goi deixada e nós também a interptretamos e a transmitimos, e somos interpretação.

E se é verdade que vivemos porque interpretamos, a verdade é que também nos matamos nas interpretações. É nas interpretações que nos separamos. Porventura todos queremos o mesmo, a nossa condição é de fragmentados, é de frágeis, eu diria abusivamente que todos queremos juntar, todos queremos unir a nossa vida, que todos nos queremos sentir e saber inteiros.

A verdade é que cada um encaixa esta tarefa, este trabalho, encaixa de maneira diferente e tem um entendimento diferente sobre isso de unificar e nos sabermos inteiros. Porventura a forma de Jesus deixar aos seus discípulos a tarefa de se inteirarem é  reunindo aquilo até  de que nos envergonhamos reunindo a nossa vida inteira, as nossas cicatrizes, as nossas feridas, aquilo que nós consideramos um erro, aquilo que outros consideram erros, juntarmos tudo. E porventura outros, e em todas as religiões os há, sensibilidades mais puritanas, acham que a forma de nós nos inteirarmos, é escondendo aquilo que são as nossas vergonhas, escondendo as nossas feridas,  escondendo a nossa condição de frágeis.

Fica claro que para os discípulos de Jesus, esse segundo não é o caminho! 

O caminho porventura é do acolhimento da nossa condição, e é uma tarefa árdua e é uma tarefa morosa que dura a vida inteira.

Talvez seja decisiva, neste parágrafo do evangelho, a questão da interpretação, já que Jesus se interessa pela interpretação daquele homem, o que diz a escritura e como é que lês tu, queremos olhar a interpretação como lugar de misericórdia. 

Se esta é a parábola da misericórdia, é precedida de uma introdução e porventura na introdução onde nos é servida a importância da interpretação, queremos olhar a interpretação como lugar de misericórdia, como lugar de salvação, como lugar de vida eterna, já que é isso que move aquele homem letrado a pedir a Jesus uma dica, ele que é mestre.

À pergunta, o que é que eu devo fazer para me safar? É o que aquele homem está a perguntar a Jesus de uma forma mais elaborada e mais erudita, o que é que eu devo fazer para me safar? O que é que eu devo fazer para eu ter a vida eterna?

Não há plural nenhum naquela pergunta podia ser, o que é que nós devemos fazer todis juntos para termos a vida eterna? 

E é uma inquietação legítima. O que é que é para eu fazer, que é que eu faço para ter a vida eterna?

E Jesus vai desmontando a pergunta, a ponto de na história podermos perceber que a pergunta se abre.

Talvez a resposta de Jesus seja, pois que não caibas só tu na pergunta,  não caibas só tu!

E aquela história que é abusiva, falando mal de gente muito considerada, como os Levitas, por exemplo, e falando bem de gente desprezível, como os Samaritanos, a palavra que os judeus usam para falar dos samaritanos rafeiros, consideram de sangue conspurcado porque foram mais ou menos invadidos e fazendo alianças com povos estrangeiros e, aos olhos dos judeus o sangue dos samaritanos já não é puro,  consideram uma raça inferior, são infiéis e rafeiros, pois Jesus elogia os rafeiros e despreza os puros, os mais considerados, os Levitas. Para dizer, se é para abrirmos a pergunta  não caibas só tu, quetemos lembrar as preferências de Jesus. Jesus quer que caiba nessa pergunta aqueles que tu detestas. E cada um tire lá três segundos para pensar em quem detesta, e esses terão a vida eterna. 

Jesus diz aos fariseus que aquelas pecadoras publicas, podíamos traduzir talvez por prostitutas, aquelas vão à vossa frente, disse Jesus aos mais puros. É uma frase muito chocante para eles, não disse que eles não iriam, disse que elas vão à frente para o Reino. E nós queremos que isso nos toque a nós, queremos também nós abrir a pergunta, a vida eterna não é para ti,u a vida eterna não é para mim,  a vida eterna é para nós,  

E todos, nós todos e vamos todos.

Porventura vai quem tu detestas, e se quiseres à maneira de Jesus à tua frente vai quem tu detestas. 

E porventura esta história é para nos perguntar quem é que tu detestas e quem é que tu consideras próximo e olha, que bom seria que no meio dessa interrogação Pudesses descobrir pessoas, descobrir quw se calhar não tens razões para detestar dessa forma e se calhar também não tens razão para tratares como próximos só aqueles que são iguais a ti.

E possa este texto converter 

possa este texto comlexificar, e digo complexificar porque tudo o que diz respeito à vida humana é complexo, não é complicado, é complexo.

Complicado é talvez o que nós fazemos ao polarizarmos as coisas, ao simplificarmos as coisas, ao pegarmos na lei e esfregá-la na cara de quem nos dá jeito. Jesus, antes deste gesto de esfregar a lei na cara uns dos outros, pergunta-nos, como é que tu a lês? 

Antes da lei gostava de saber da tua inteligência e da tua consciência, e isto também tem algo a dizer-nos à Igreja no dia  de hoje, nos que esgrimimos argumentos para nos matarmos uns aos outros, para nos separarmos uns aos outros, para nos dividirmos. O ÚNICO MANDAMENTO QUE NOS FOI DEIXADO: AMAI-VOS! 

E nós conseguimos complicar e digo complicar, não digo complexificar porque amar já é complexo. Complicamos porque "amai-vos" e nós não nos conseguimos amar. Começamos a interpretar isto e de repente chegamos a formulações bizarras como, eu amo aquela pessoa mas não amo a forma como ela ama, aceito aquela pessoa mas não  aceito a forma como ela ama. São estupidezes e digo estupidezes porque deixa estupefacto o próprio Deus que nos pede, como dizia no Génesis, que nos pede uma tarefa exequível, uma tarefa que está ao nosso alcance, amar-mos.

Possa cada um usar a sua inteligência e a sua consciência, para também implicar-se neste processo de conversão, conversão das suas certezas, conversão das suas seguranças.

Possa esta história onde sai em primeiro plano uma pessoa desprezível e sai envergonhada uma pessoa de muito prestígio entre o povo, possa esta história fazer algo connosco, possa também inverter as nossas certezas, inverter os nossos juízos, inverter a forma como interpretamos a lei onde só cabemos nós, possa também abrir a pergunta preocupada em salvar a minha alma, possa este texto ampliar, este texto abrir para que na minha busca, na minha questão não caiba só eu e na interpretação da lei não me safe só eu.

Possa a dúvida, a interpretação, a inteligência e a consciência serem espaço de misericórdia onde nos salvamos todos juntos.

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 9 de Julho de 2022.| Domingo XV do Tempo Comum C| Deuteronómio 30,10-14; Colossenses 1,15-20 e Lucas 10,25-37.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/07/10/quem-cabe-na-tua-maior-pergunta/

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