O Deus que para matar a fome precisa do teu pão

 
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos  

Que bom que não precisamos de histórico, que bom que não precisamos de razões para nos sabermos irmãos, para nos sabermos famintos, para nos sabermos com lugar à volta desta mesa e, não foi encomendada, mas esta experiência imerecida de minipessoinhas aos berros, aos gritos, se calhar é mais ou menos assim que acontece no reino dos céus.

A quantidade de filhos que clamam ao pai, é possível que seja assim uma espécie de ruído envolvente a vida diária de Deus nosso Pai. 

Saboreemos nesta hora a nossa condição de filhos que é em tudo igual a estas minipessoinhas que que vão fazendo a nossa música de fundo. 

" Pedi e dar-se-vos-á", "batei à porta e abrir-se-vos-á", "tudo o que pedirdes vos será concedido". Como assim Senhor? Como? Como assim tudo? Não percebo o teu ponto, não percebo onde queres chegar. Quanto mais nos distanciamos desta condição de bebés e de crianças, mais percebemos que esta frase é bizarra. Sim, quando somos crianças, mais ou menos nos é concedido tudo, tudo aquilo que precisamos. A comida mais ou menos à hora certa e o sono às horas certas, e é tudo o que precisamos, tudo envolvido em excesso, tudo envolvido em mimo, em amor. E vamos crescendo e entre os nossos sonhos, os nossos desejos e as nossas ambições, vamos percebendo que isto é mentira Senhor, isto é mentira! Como assim tudo o que pedirdes vos será dado? Não nos é dado tudo aquilo que nós pedimos Senhor!

Deixemos que esta frase desencontrada de Jesus nos incomode e desperte questões.

Então porque é que não te é concedido tudo? O que que andas tu a pedir? O que que andas tu a pedir? 

Porventura pode servir-nos de barómetro o texto que escutávamos do capítulo 18 do Génesis que o já o sabemos de cor, a insistência de Abraão para que não seja destruída Sodoma e Gomorra, nós habituamo-nos a fantasiar sobre os pecados de Sodoma e Gomorra, o pecado de Sodoma e de Gomorra foi não receber o estrangeiro, foi não receber o hóspede, e olhem bem uns para os outros e olhamos para as nossas comunidades, para a nossa comunidade europeia, por exemplo e vamos, também somos protagonistas dos mesmo pecados de Sodoma e de Gomorra, também não sabemos bem receber hóspedes. Sabemos receber hóspedes ricos porque em princípio vão acrescentar ao que é nosso. Não sabemos receber e aceitar hóspedes pobres, temos medo dos hóspedes pobres é essa a melhor forma, é o melhor disfarce de Jesus para vir ao nosso encontro. Possa este lembrar-nos o que é que está a faltar. 

Mas bom, dizia que pode servir de barómetro esta história, possivelmente mítica, de Abraão a pedir, a mendigar a Deus para ter atenção aos justos, no meio de tantos injustos pode bem haver algum justo, vamos terem consideração. E a verdade é que Abraão já está safo e ele está a interceder por outros que não conhece, que pode nem conhecer e porventura aquilo que dizíamos há pouco, é mentira Senhor tudo aquilo que eu peço não me é concedido, possa levantar questões, andas tu a pedir o quê? E possa esta página do Génesis abrir a nossa oração, que na tua oração não peças para ti, não peças para ti.

E a verdade é que a nossa oração enche-se de pedidos por outros, pelos nossos amores, particularmente quando a corda aperta, particularmente quando é uma ameaça a morte dos nossos amores. A verdade é que mesmo que a nossa oração se revista de muitos pedidos generosos para com os nossos amores continua a ser fechada no nosso conforto, continua a ser fechada naquilo que eu quero, aquilo que é bom para mim, eu que não sei viver sem os meus amores, eu que não os quero perder.

Possa tudo isto ajudar a libertar a nossa oração, ajudar a libertar a nossa oração daquilo que nós achamos que está bem e está certo.

Nós iniciámos o capítulo XI do evangelho de Lucas e na semana passada concluíamos o capítulo anterior, o capítulo X, portanto nós vimos do capítulo anterior e, se recordam, o capítulo anterior tinha duas mulheres em personagens de destaque, em personagens principais, estávamos naquela casa de irmãos que é porventura isso que somos chamados a construir enquanto igreja.  Estávamos numa casa de irmãos, a figura masculina foi ao café, não estava, e os discípulos que iam com Jesus não estavam, foram à praia não estavam. Era só Jesus e duas mulheres e aquela Marta e aquela Maria porventura recordavam-nos a necessidade de sim, servirmos porque o maior é aquele que serve, sem descurarmos a razão do nosso serviço, a escuta, a quem escutamos? E se a obediência significa pôr-se à escuta audire, porventura aquele quadro lembrava-nos a importância do serviço sem esquecermos de que, a quem escutamos? A quem escutas tu discípulo de Jesus? A quem escutas, a quem obedeces? Não se dê o caso do teu serviço ser um serviço surdo onde simplesmente sai em grande o teu ego. 

Nós vimos do exercício de escuta e de obediência da semana passada. E é depois deste elogio àqueles ensina-nos a ser como tu, duas mulheres, particularmente àquela Maria que ocupa o lugar dos homens, o lugar dos discípulos, depois deste elogio de Jesus vemos os discípulos a pedirem a Jesus "ensina-nos a ser como tu". Eles que se iam fascinando com a forma como Jesus se retirava nos momentos mais stressados, Jesus retirava-se, parecia que era indiferente às necessidades urgentes do momento. 

"Todos te procuram Jesus, onde é que te meteste?" Esta frase não é estranha na narrativa dos evangelhos. Jesus pirava-se e isso fascinava os discípulos, o modo como Jesus gostava de estar sozinho e acordava mais cedo e retirava-se para o monte em oração, porque é que isso havia de fascinar os seus discípulos, porquê? A verdade é que fascinava. E aqueles discípulos pediram a Jesus, nós queremos também isso, nós queremos ser como tu, e não estamos a pedir nada de extraordinário, todos os Mestres ensinam os seus discípulos dele, não é nada de extraordinário, ensina-nos a orar.

 E diferente da versão de Mateus, quereis aprender, dizei Pai!

Depois disto, diríamos, tudo já ganha um outro nível. O primeiro escândalo e a palavra mais importante de toda esta oração é PAI que, parece escrito nos originais Abbá é menos que pai, é papá, é paizinho, é o diminutivo que podeis usar lá por casa. E dito isto já muita coisa muda, já muita coisa muda. Já não é, vou ensinar-vos a dirigir-vos ao Deus dos exércitos, vou ensinar-vos a dirigir-vos ao Senhor dos Senhores, vou ensinar-vos como é que se fala com o Rei dos Reis... Quando quiserdes orar dizei Papá, Papá, Papá. 

E o que é que isso muda? A verdade é que nos recorda a nossa condição de filhos. 

E como é que podemos falar da condição de filhos, omitindo a implicação de irmãos? 

A nossa oração só acontece na nossa condição de irmãos, na nossa condição de irmãos. Talvez a forma de santificarmos o nome do Pai, não seja outra que não lembrar a condição de filhos que nos obriga a cuidar dos irmãos.

Eu sei que toda esta metáfora, todas estas categorias, só funcionam para a maioria de nós que temos uma boa experiência de paternidade e de filiação porventura, de facto não cabe em toda a gente, infelizmente há pais que não sabem ser pais, infelizmente há filhos que não podem ouvir a palavra pai, e para estas pessoas naturalmente que esta história ainda tem de ser traduzida. Tem de ser traduzida pela figura de um pai que só poderia ser amor incondicional, que só poderia ser cuidado e se faltou essa experiência temos de lhe pedir desculpa pelos limites desta história, pelos limites das palavras que Jesus escolhe para se dirigir a Deus.

Mas vamos, a forma de santificarmos o nome do Pai não é indo ao templo, não é oferecendo sacrifícios, não é repetindo palavras...

É cuidando da nossa condição de filhos, cuidando da nossa condição de irmãos e de irmãs. Isso é santificar o nome de Deus que é Abbá.

VENHA O TEU REINO! Pois, esse Reino de irmãos, que ele venha por tua causa, por nossa causa, que ele venha, que ele aconteça, eu disponho-me a isso, disponho-me na minha condição de filho a olhar o meu próximo como meu irmão.

DÁ-NOS PÃO E AFASTA-NOS A TENTAÇÃO!  Isto de pedir pão a Deus e de confiar a nossa subsistência Àquele que nós não vemos, recorda-nos a nossa condição de dependentes uns dos outros, de famintos e porventura é aí que estreitam os nossos laços de irmãos, de fraternidade.  Não é no confronto e na abundância, não é quando te sair o Euromilhões que tu vais ser mais irmão, não é, tu sabes bem que não é.

O conforto só na cega, é porventura a maior das tentações. Possa a tua condição de carente ser o registo onde treinas a tua condição de irmão, a tua condição de cuidador de próximos. 

Dá-nos pão e dá-nos a mão nas tentações, porventura isto recorda-nos a nossa condição de frágeis. Sim não podemos tudo, sim não está tudo nas nossas mãos...

Queremos saborear a forma como Jesus ensina os seus discípulos a orar. Em certa medida parece que Ele nos abre, parece que Ele abre o nosso tempo, abre os nossos gestos, abre as nossas intenções a que não caiba só as minhas aflições, os meus pedidos, as minhas necessidades, os meus confortos, aquilo que me dá mais jeito.                            

Sim, na versão de Lucas é acrescentada esta história da insistência e porventura somos nós a insistir junto de Deus e Jesus pede-nos que insistamos, mas vamos, nós também sabemos o que é deixar que Deus ore em nós, deixar que Deus reze em nós. E se sabemos, e se queremos, e se desejamos que Deus reze em nós porventura esta história do amigo que vai a casa do amigo porque chegou um amigo. Quem é quem nesta história? Quem é quem? Não será que Deus também é esse amigo que para socorrer outro amigo precisa de ti?  

Não será que, já que Deus não vem aqui interferir nas leis da natureza, já que Deus não vem aqui salvar os meus mais queridos, os meus mais amados, já que Deus não vem aqui resolver os meus problemas, se calhar Ele precisa de ti para socorreres um amigo dele, e se calhar é o próprio Deus que vem bater à tua porta insistentemente para converter essa tua apatia, aquela preguiça que víamos naquela história inadmissível,  como é que tu te levantas da cama e não consegues dar mais dois passos e trazeres nem que fosse um pedaço de pão, como é  possível?  

Sim, nós indignamo-nos com esta história que Jesus conta e porventura estamo-nos a indignar de nós próprios. E que bom se nos indignarmos com esta história porque ficamos com alguma coisa para fazer.

Porventura aquele personagem lento, aquele amigo lento és tu querido leitor. Ao pedirmos para que Deus reze em nós, para que Deus ore em nós, estamos a pedir para que não sejamos lentos a abrir-lhe a porta e a dar-lhe pão e se Ele está a pedir para um amigo, porventura não sejamos nem lentos, nem recusemos a abertura da porta e a dádiva de pão aos amigos Dele, aos nossos próximos.

Possa tudo isto fazer alguma coisa com a nossa oração.

Alguns de nós dirão, a minha vida de oração não está má.

Alguns de nós têm uma disciplina que merecia uma estátua.

Alguns de nós são muito disciplinados e têm muitos exercícios e muitas horas do dia despendem em exercícios de oração, e bravo, merecem todo o meu e todo o nosso louvor.

Alguns de nós carregam a culpa de não terem pachorra, de não terem organização, de não conseguirem aqueles tempos de diálogos interiores, de exames de consciência. 

Alguns de nós não terão disciplina para isso, não terão tempo para isso, não terão jeito para isso.

Vamos, esta página do Evangelho não é só para alguns, esta página do Evangelho é para todos os que se querem assemelhar a Jesus.

E possa a forma como Jesus nos deixa em aberto, possa isso assemelhar-nos a Jesus.

Lembremos a pergunta da semana passada, 

a quem te pões tu à escuta? 

A quem obedeces tu? 

A nossa oração só será eficaz, a nossa oração só será consequente quando dissermos Pai, com a nossa vida, com os nossos gestos, quando verdadeiramente nos cuidarmos como irmãos sem deixar ninguém para trás.

 (o Deus que para matar a fome precisa do teu pão - dom XVII com C | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 23 de Julho de 2022. Génesis 18,20-32; Colossenses 2,12-14 e Lucas 11,1-13.)

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