O desejo de morrer de vida
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Quem é Jesus?
Quem és tu Jesus? Quem és tu Jesus? Quem sou eu para ti?
Deixemos ecoar a pergunta no dia de hoje, e porventura deixemos que nos acompanhe. Quem sou eu par ti?
E deixemos ensaiar respostas. E porventura a primeira resposta é, não sei bem Senhor, não sei bem!
Pedro respondeu por nós e traiu-te e disse precisamente o contrário. Eu não sei bem!
E deixemos sem vergonhas testar esta resposta e que continue a pergunta no verso, quem sou eu para ti? E arrisquemos a dizer qualquer coisa: Tu és o meu dono Senhor, Tu és o meu amado, por tua causa fiz escolhas, pó r tua causa a minha vida levou este rumo...
E num terceiro momento, primeiro não sei, depois cada um dá uma resposta original e num terceiro momento deixemos ecoar também... Mas também não é só isso Sim, Senhor tu és o meu amado, e não é só isso, Tu és o meu Dono, e não é só isso, deixemos que a pergunta fique eternamente em aberto... Quem sou eu para ti?
Quem és tu Jesus?
Mário de Sá Carneiro diz: não sou eu, nem o outro, sou qualquer coisa de intermédio. Do lá de lá do Atlântico, Adriana Calcanhoto gostou tanto disto que musicou: Eu não sou eu e não sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio.
E sim, nesta pergunta de Jesus também se joga a pergunta QUEM SOU, e é a pergunta que nos acompanha a vida inteira.
Vamos disfarçando as respostas com o que faço, com o que sei fazer, com o percurso, com o que já fiz, mas a pergunta quem sou, bem sabemos quão difícil é responder.
E sim, entre medos e vergonhas, EU NÃO SOU EU, EU NÃO SOU INTEIRO, e também não sou O OUTRO, sou qualquer coisa de intermédio.
E vamos apresentar-nos sem vergonhas ao Deus que nos pergunta, QUEM SOU PARA TI?
Olhando para a resposta de Pedro, que vá lá nos safou, todos tentavam definir Jesus com vocabulário já conhecido, todos tentavam aproximar Jesus a uma figura já conhecida, o narrador, com uns versículos antes, tentava nas multidões também a mesma dúvida, quem será este? Possivelmente é um dos antigos profetas... E não é pouco dizer isto.
Mas bom, procuravam seguir Jesus com as categorias que já conheciam e Pedro ousa por nós arriscar uma definição original: TU ÉS O INÉDITO, TU ÉS O QUE ESPERÁVAMOS, TU ÉS O MESSIAS, O ESCOLHIDO, O DOAN?
Mas vamos, o que é que é esse Messias que Pedro esperava, e que Pedro disse para salvar a situação? Era um Messias que vinha libertar da ocupação romana, que vinha libertar da opressão. E o que é que ia acontecer a Pedro? Pedro ía ser o número dois do Messias e os que estão por bom ali perto também iam ser os números dois e três do Messias e a resposta de Pedro que também é a nossa, de vingança, não pode ser a minha oportunidade de ficar do lado dos vencedores.
Que Messias é este? E de quem é que Ele me salva?
Nós não somos como aqueles palestinianos que viviam sob a opressão romana, nós não somos ucranianos que temos o exército de um país invasor a destruir-nos a vida e as casas e tudo. Este Messias liberta-nos de quê e de quem?
Este Jesus que aliviou a carga e que ergueu tantos, e Ele que disse para ir a Ele e descansar Nele porque Ele alivia a carga, porque o jugo da lei, ou se quiséssemos da interpretação da lei dele é suave... E de repente com esta frase dele de TOMAR A CRUZ, de negar-se a si mesmo parece que nos esmaga...
Que Messias é este? De quem nos liberta Ele? Jesus é, e nós não vamos esquecer isto, Jesus é um apaixonado pela vida, "vim para que tenham vida e a tenham em abundância", e a todos os que ergueu, o que Jesus nos disse é que a vida faz sentido gerando vida, aliviando cargas, dando condições de relação, de voltar ao Centro, de voltar a entrar no Templo, de voltar a olhar-se como se é e não como impuro. Jesus é um apaixonado pelo Reino onde todos têm vida, como Paulo dizia aos Gálatas: de facto isto já não há nem escravos nem homens livres, nem judeus, nem gregos, isto já começa a ser uma coisa de semelhantes, uma coisa de irmãos, de erguidos, de gente que se sabe erguida e de gente que se sabe capaz de erguer.
Jesus é um apaixonado pela vida, é um apaixonado pela nossa vida.
CRUZ, que no grego de escreve Táuron, Kairós, pode traduzir-se também por estar preparado, estar de pé, estar decidido, estar mobilizado, fiel até ao fim.
E se quiséssemos, a Cruz já não é o sinal de sofrimento escolhido, é antes uma consequência de um AMOR DE PÉ, DE UM AMOR FIEL, DE UM AMOR ATÉ AO FIM, DE UM AMOR PELO REINO, onde todos têm vida abundante.
Jesus morre de vida, Jesus morre de excesso de vida, Jesus morre de vida abundante. E isso aprende-se porventura descentrando-se, descentrando-me das minhas certezas que tenho como referência para ler tudo e todos. Descentrando-me dos meus confortos e das minhas necessidades, descentrando-me da vida presa aos meus preconceitos e a tudo o que me dá jeito.
Descentrada dos meus que são aquilo que eu quero, aprendemos porventura o sentido da vida e da morte em Jesus como excesso de vida onde todos cabem, onde todos se sabem erguidos, onde todos saboreiam vida abundante. E se quiséssemos ensaiar uma resposta à pergunta, de quem é que esse Messias nos libertos, quem sabe nós próprios, quem sabe nos liberte da mesmidade. Quem sabe? Este Messias pode bem ser a tua Páscoa.
(o desejo de morrer de vida - Domingo XII tempo comum C breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XII do Tempo Comum C | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 18 de Junho de 2022. Zacarias 12,10-11; 13,1; Gálatas 3,26-29 e Lucas 9,18-24.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/06/19/o-desejo-de-morrer-de-vida/

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