Geradores de alegria, como deus
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Que bom que nos lembramos que habitamos o que é precário, habitamos o que é incerto e é neste registo que a Palavra nos é dirigida, a sedentos, a carentes, a imperfeitos.
Escutávamos na primeira leitura a bizarria que foi Paulo a juntar-se à seita que ele perseguia, ninguém o levou a sério, ninguém o queria, ele que perseguiu e matou gente desta seita de cristãos que seguiam o Nazareno, um judeu marginal do Norte da Galileia, ele que perseguia e matava agora apresenta-se dependente. O autor dos Actos chega a dizer que ele fica cego. Ele não abre a boca, não vê, fica cem por cento dependente e assim, ele é apresentado à comunidade, como dependente. Muitos hão-de olhar para Paulo como um inútil. E Paulo é apresentado àquele grupo, os que tiveram a sorte de não morreram nas suas mãos, é apresentado como um dependente deles, é apresentado como um carente dos seus cuidados.
Acho que maior ironia Lucas não consegui apresentar. Aquele cheio de si, aquele seguro é apresentado à comunidade como uma criança.
Talvez seja isto que queremos saborear com este texto, talvez seja esta a imagem que Jesus mais goste de usar: EU SOU OUTROS, não se cansava de dizer Jesus, eu sou outros. Se deres um copo de água a um dos meus irmãos ainda que seja dos mais pequeninos, foi a mim, cada vez que mataste a fome foi a mim, cada vez que mataste a sede a um dos meus irmãos foi a mim, cada vez que vestistes foi a mim, Deus é Outros, Jesus é Outros... Por isso a comunidade dos primeiros discípulos acolhe Paulo, porque Paulo é a presença de Jesus, Paulo é um outro, Paulo é um próximo.
E talvez seja esta obsessão de Jesus de te apresentar como OUTRO, de se dizer de si outro, de nos deixar nas mãos como nosso maior tesouro o cuidado de outros, talvez por isso João utilize à saciedade o verbo permanecer, permanecer... talvez seja esse o verbo que nos recorda a importância de não deixarmos outros, de não prescindimos de outros, faça sol ou faça chuva, em dias mais coloridos e em dias mais cinzentos o verbo permanecer apresenta-se como o verbo dos amantes, o verbo dos que se querem e dos que se cuidam apesar de tudo e para lá de tudo.
Jesus conhecia bem a vida da agricultura, conhecia a linguagem da terra, era-lhe bem mais próxima do que o comércio da cidade, a linguagem da cidade, as repartições públicas da cidade, era mais sensível ao primeiro sector e não foi invenção dele. No património de Israel põe sempre a cursar agronomia, Deus é o que cuida do povo e a metáfora para dizer o cuidado de Deus para com o povo de Israel já vem de longe, é o cuidado de um agricultor por uma videira, transplantou-a do Egipto para uma terra melhor e cuida dela... E o que é que a videira faz?
A videira produz fruto, produz uvas e com uvas faz-se vinho. E sim, já na cultura semita e entre nós que também não estamos longe, o vinho é sinal de alegria.
Se quiséssemos este exercício mirabolante de pôr um Deus versado em agronomia, em pôr Jesus obcecado pela linguagem da terra a falar de comunidade como ramos de videira unidos... Talvez tudo isto seja para nos lembrar aquilo que nos junta a Deus é a vontade de produzirmos alegria, de gerarmos alegria, de criarmos alegria, de permanecermos na alegria.
Sintamo-nos por isso habitados, tal como os ramos e a videira se sabem habitados pela seiva. Saibamo-nos nós habitados por um Deus que nos quer bem, que nos quer libertos, que nos quer adultos, que nos que geradores de alegria. Sintamos que esse Jesus que diz de si próprio ser outos, nos deixa como fonte de alegria encontrarmos no cuidado com outros, a Sua presença.
Assim aquela comunidade dos primeiros cristãos foi capaz de dar o salto olhando para Paulo já não como um inimigo, já não como um superior, antes como um semelhante, como um irmão. Saibamos nós, acolhendo estes textos lembrarmos daquilo que nos restitui semelhança uns ais outros. Não é pelos talentos que nos assemelhamos, não é pelos trabalhos mais ou menos ou menos importantes que nos assemelhamos, não é pela forma como nos distinguimos que nos assemelhamos. Pelo contrário é nesta carência uns dos outros que nos assemelhamos, é na nossa sede que nos assemelhamos!
Possa este texto estimular-nos a sintonizarmos com o pedido de Jesus, é a penúltima vez que Jesus diz EU SOU! São sete as vezes que Jesus diz eu sou, sendo que EU SOU é o nome de Deus Javé. Jesus à sétima vez dirá de si: EU SOU O PÃO DA VIDA!
A obsessão de Jesus de facto, é Vida Abundante, possa este "Eu sou Videira, vós Ramos, vós unidos experimentais a minha presença, vós unidos experimentais o fruto da videira, experimentais a alegria, possa este texto estimular-nos no cuidado uns com os outros, possa este texto devolver-nos a certeza de que o nosso Amante habita outros, possa este texto lembrar-nos o que Levinas dizia de outros, possa este texto lembrar que o Outro é Esse que irrompe e me salva da mesmidade.
(V Domingo da Páscoa B - geradores de alegria, como deus - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | transmissão online, Lisboa, 1 de Maio de 2021. Actos 9,26-31; 1 João 3,18-24 e João 15,1-8)

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