do corpo e dos corpos

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Começo desde já por dizer-vos e confessar-vos, esperando a vossa absolvição, que tenho uma mistura de sentimentos neste dia. Mas, o que vai prevalecer é a alegria deste dia. 

Nós celebramos, se nos habituarmos a chamar a Deus pai como Jesus nos ensinou, (a verdade é que Ele nos ensinou a chamar papá e nós nunca lhe chamamos papá).

Mas vamos, olhamos para a figura de Deus como Pai, a verdade é que Ele também tem as características todas de uma mãe e não é abuso nenhum dizer que Deus é Mãe.
E talvez no dia de hoje, se temos pudor em dizer que Deus é Mãe, pelo menos no dia de hoje deixemos que isto seja verdade. Saboreemos no dia de hoje a maternidade de Deus. Se calhar é o que celebramos no dia de hoje, a maternidade de Deus.
 
Se nos recordarmos, eu de facto só posso falar da minha experiência e sei que não se pode tornar universal, a minha mãe foi o meu primeiro alimento, se calhar esta verdade vale para muitos de nós, além da vida intra-uterina, no sentido literal a minha mãe foi o meu primeiro alimento. Eu alimentei-me da minha mãe, alimentei-me do corpo da minha mãe e acredito que isto se aplique a muitos de vós. A minha mãe mudou hábitos e fez esforços para ser o meu alimento, paea ser o nosso alimento. E a verdade é que, nós tornamo-nos naquele alimento, eu tornei-me o que a minha mãe era naquela altura, o mesmo é dizer, eu tornei-me um ser capaz de gerar, de criar, de cuidar, e foi o que aconteceu com todos nós. Os que tiveram a sorte desta experiência literal e is tiveram a sorte da metáfora, serem alimentados em gestos de cuidado e de ternura. A verdade é que nós nos tornamos naquela que era o nosso alimento.

Celebramos o Deus que esforça por habitar o nosso quotidiano, escutávamos na primeira leitura um piscar de olho, um aceno ao Deus cuidador do Antigo Testamento e que não cessa de fazer parte e está sempre disposto defender-se do castigo, vamos lembrar que todas estas categorias são nossas e projetadas na imagem de Deus, porventura Deus nunca castigou, embora o povo olhasse para as vicissitudes, para as adversidades, vendo onde é que a gente poderá ter falhado, onde é que a gente poderá ter ignorado a presença de Deus... e víamos um aceno ao Deus cuidador e, o que celebramos à volta desta mesa e se faz nosso alimento na aliança de Jesus. E sim, celebramos o Deus que quer habitar a nossa fome, a nossa carência uns dos outros. O Deus que nos permite a nós, transformarmo-nos naquilo que comemos  que nos permite sermos criadores, que nos permite ser cuidadores à sua maneira, celebramos o Deus que nos diz que aquilo que temos, chega para sermos alimento.
Aqueles insignificantes cinco pães para cinco mil pessoas, parece que chega para nos oferecermos, para aprendermos a partir o pão que somos. Celebremos nesta festa que falamos do Corpo de Deus, celebremos o nosso corpo e os corpos de todos os próximos que são Morada Sagrada de Deus.

No primeiro milénio a igreja era entendida como a presença real de Jesus. Nós uns com os outros, pessoas, comunidade, era Real de Jesus e o Pão repartido na mesa da Eucaristia era o Corpo Místico de Jesus. E por causa de algumas disputas à volta da Eucaristia e da substância daquele pão, lutas que começaram no século XI e que se foram prolongando no tempo da reforma Luterana e foram continuando, barroco fira e século XIX fora. Foram debates, foram querelas, foram disputas, foram lutas, alimentaram braços de ferro entre tribus, entre grupos que desde cedo inverteram aquilo que dissemos à pouco. Que pena, então passou a chamar-se ao Pão da Eucaristia a presença real de Jesus e a nós,  à igreja, aos próximos, Corpo Místico. E que pena o segundo milénio ter decidido isto e por causa disso neste dia gosto tanto de lembrar o primeiro milénio onde os cristãos se olhavam como presença real de Jesus. Perdoem-me não me entusiasmar muito com esta mudança do segundo milénio, com esta mudança para um registo triunfalista, cada vez mais triunfalista e que ainda dura até ao dia de hoje, talvez dum modo mais tímido, mas a verdade é que as procissões que neste dia saiem à rua, a parada que neste dia sai à rua, ainda manifestam o modelo antigo de uma igreja como sociedade perfeita e esse modelo já há muito que acabou.

Nós no século XX, num grande exercício de auscultação e reflexão interna, sublinhámos três categorias para dizermos igreja, somos Povo de Deus, somos Corpo de Cristo, somos Templos do Espírito, e não mais queremos ser sociedade perfeita, não mais... Aliás somos um povo de imperfeitos, imperfeito não significa defeituoso, significa inacabado, em processo. E somos isso, somos uma sociedade de gente em processo e isso diz o registo pascal, nós não estamos feitos, estamos em mudança e virmos aqui também nos muda, ou devia mudar.

Acabou há muito tempo o modelo de igreja sociedade perfeita graças a Deus, inquieta-me a mim, não tenho que partilhar isto convosco mas se me permitis, inquieta-me quem não está nesta parada, quem não está nesta procissão, os invisíveis desta procissão, os que não podem estar, os que não querem estar, os que não têm lugar, os que não suportam o registo triunfalista. Somos um povo de imperfeitos, inacabados, somos pessoas em processo e a pretexto de nos apresentarmos unidos neste grande exercício de sairmos à rua que há-de ser louvável também... e a pretexto de nos apresentarmos unidos a verdade é que fazemos do pão da Eucaristia objeto de divisão entre nós. E talvez por isso a minha confusão de sentimentos neste dia. O pão que Jesus distribuiu chegou para todos e sobrou e o nosso pão não chega agora para todos, não chega agora a todos! Temos privado gente da Ceia do Senhor por razões acordadas entre nós, alheias à vontade de Jesus. Temo-nos dividido e a união da procissão não manifesta a saúde da nossa frágil unidade.

E queremos dizer uns aos outros que não é possível adorar e desprezar o Corpo de Jesus ao mesmo tempo.
Não se consegue adorar e desprezar, não é possível adorar o pão da Eucaristia e desprezar próximos, não dá!

Jesus nunca pediu a uma pessoa nos evangelhos, vejam lá os evangelhos e corrijam-me se eu estiver enganado. Jesus nunca pediu a uma só pessoa que ajoelhasse ou que se inclinasse perante ele, pelo contrário Ele é que se ajoelhou, e bem lembramos quando se ajoelhou para lavar os pés aos seus discípulos, Ele baixou-se para colocar crianças ao seu colo, inclinou-se para tocar e para erguer sobretudo impuros.
Que sentido fará o contraste entre a reverência profunda ao  pão da Eucaristia e a arrogância das certezas com que desprezamos quem precisa de ser erguido? 

Esta festa serve para convocarmos os sentidos, para convocarmos a inteligência, para convocarmos a consciência para descobrir a presença de Jesus em muitos corpos, para descobrirmos o Corpo de Deus em muitos corpos, imperfeitos, famintos, desfigurados, ofendidos, violentados, desprezados.

Como é que se pode celebrar o Corpo de Deus que é invisível, pelo menos Jesus diz-nos: "a Deus nunca ninguém o viu", como é que se pode celebrar o Corpo de Deus que é invisível, não querendo saber dos corpos dos próximos que são imagem visível de Deus. Celebramos a encarnação, e esta é a razão da nossa maior alegria. A encarnação não é um ato pontual na história mas sim um Deus que mas sim um Deus que ainda hoje se manifesta na carne, na tua carne. Na tua carne, na minha carne, na carne desses que se juntam, desses que se veem uns aos outros  desses que procuram quem não se vê, desses capazes de erguer com o pouco que têm e o pouco que são. 

Perguntarmos no dia de hoje, não há já que colocamos a eucaristia de um modo mais simbólico e mais consciente no centro da nossa reflexão e da nossa oração, perguntemos que impacto tem a eucaristia no meu processo e no nosso processo de nos assemelharmos a Jesus. Este encontro de semelhantes, de famintos, de carentes, alimentados da mesma palavra e do mesmo pão... Em que medida é que isto me torna mais misericordioso.

Sentar-me à volta desta mesa, ouvirmos a mesma palavra, partilharmos o mesmo pão,  em que medida é que isto me torna mais misericordioso? Com mais vontade de compreender e de aceitar, com mais paciência, que Deus tem comigo.
Em que medida é que este Encontro, esta Palavra e este Pão me vai descentrando das minhas medidas, dos meus confortos, dos meus preconceitos como referência? Em que medida é que tudo isto me torna mais amoroso? 

Não quero perturbar a vossa alegria, é um dia de alegria este!
Lembremos as razões da nossa alegria, nós não queremos que esta festa, seja a festa da igreja perfeita, da igreja poderosa na sua organização e no brilho dos seus acessórios, nós queremos e temos de converter este dia numa festa do cuidado, do Deus que é obcecado em alimentar-nos  do Deus que se faz alimento, e do Deus que nos convida a nós a sermos alimento, a sermos vida oferecida, pão repartido. Faremos desta festa a festa do cuidado, de nos alimentarmos uns aos outros e de nos transformarmos Naquele que se faz nosso alimento. 

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Solenidade do Corpo de Jesus C | Lisboa, 16 de Junho de 2022. Génesis 14,18-20; 1 Coríntios 11,23-26 e Lucas 9,11-17.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/06/16/do-corpo-e-dos-corpos/
                                                       

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