crente é Deus que acredita que andamos a formar uma família


Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos, não me canso desta saudação 

Àqueles que já estão à espera de a ouvir aos mais habituais, e a quem vem de mais longe e a quem vem com muita surpresa e sim chega a vir dos Açores, Joãozinho

Queremos sentir nesta hora tudo aquilo que nos aproxima, tudo aquilo que nos faz sentir a verdade de sermos irmãos, de nos sabermos amigos, de nos sabermos cuidados e cuidadores uns dos outros, particularmente neste dia em que dizemos que celebramos o domingo da Trindade, em que falamos de Trindade e Santíssima Trindade e vamos, não se preocupem porque eu que nenhum de nós sabe dizer coisas sobre isto. 

Não sabemos muito, nem a teologia se entende quanto mais nós que não estudamos teologia. 
Porventura, já que esta festa não é da ordem do que sabemos, não é da ordem de saber, é porventura da ordem do sabor. Celebramos aquilo que conseguimos saborear desta festa.
E porventura o que saboreamos desde já, é essa verdade incontornável de um Deus que é LAÇOS,  de um Deus que é RELAÇÃO e da única obsessão que Ele tem de constituir uma família, de não deixar ninguém de fora da sua família. 
E é daqui que partimos, e porventura é aí que queremos chegar. 

Eu acabei de dizer palavra de salvação e vocês aclamaram, e se eu dissesse palavra de confusão vocês também diriam que sim, grande palavra de confusão. Não se percebe nada do que João quer dizer, neste discurso que ele articula e coloca na boca de Jesus, um discurso aos seus discípulos já em tempo de despedida, mas importa-nos essa confusão, importa-nos essa confusão.

Percebemos que Jesus está a falar do que é dele e que já não é dele, o que é dele é nosso e pertence-nos, e aquilo que foi visto face a face Ele é testemunha, e deixa-nos essa verdade nas mãos, fala-nos de um Deus que é Pai, mais que isso, Ele ousa chamar-lhe papá e vamos, mete-nos nessa história, e aqui para nós, não adianta chamarmos a Deus pai, se não formos capazes de nos olharmos como irmãos. Aliás a única maneira que temos de dizer com a nossa vida que acreditamos em Deus que é Pai, é também com a nossa vida, olharmo-nos como semelhantes, cuidarmo-nos como semelhantes... não há outra forma.

Interessa muito pouco a Deus saber se nós somos crentes ou não crentes, interessa muito pouco a Deus saber qual é a religião, Ele não tem religião interessa-lhe muito pouco saber qual é a religião a que nós pertencemos. Se quiséssemos, a única forma que temos de dizer que somos de Jesus, a única forma de dizer que somos crentes, mede-se na forma como nos tratamos como irmãos e deixem-me dizer assim, com mais ou menos credo na boca, com mais ou menos credo de cor. Interessa-nos a forma eloquente como nos amamos, a forma disruptiva como nos amamos, a forma originalíssima como nos amamos e nos cuidamos. E essa é a forma de dizermos que Deus existe, essa é a forma de dizermos que Deus é Trindade, essa é a forma de dizer que somos crentes no Deus de Jesus, no Deus obcecado em reunir um só rebanho sob um só pastor.

Celebramos no dia de hoje a obsessão de um Deus em ser família e a obsessão de Jesus em insistir na imagem de um Deus papá.
Se calhar os que aqui estamos podemos ter sorte em sabermos o que é um Deus papá, sabermos o que é um papá, e porventura não, infelizmente eu não sei a vossa história toda, a história de cada um. E não quero que este dia seja um peso para ninguém, sabemos bem que há irmãs e irmãos nossos que não sabem o que é ter um pai, que não sabem o que é a felicidade de ter um pai bom e também não sabem o que é a felicidade de ter uma mãe boa, felizmente muitos destes nossos irmãos que não sabem o que é ter bons pais, conheceram gente que os amou, que os ama, e vamos fazem as vezes do pai ou da mãe, são verdadeiramente pais. Porque a verdade é que depois de Jesus também não nos importa muito os laços de sangue, importa-nos muito pouco os laços de sangue. 
Jesus e a obsessão dele em construir uma família de facto, vai para lá dos laços de sangue. "Quem é a minha mãe, quem são os meus irmãos?" São os que ouvem isto e não ficam na mesma! E nós, tendo ou não o mesmo sangue, ouvimos isto e não ficamos na mesma. E também não precisamos de disfarçar, nenhum de nós tem uma família irrepreensível, todos nós passamos um tempo, ou porventura ainda não passou, em que nos enchemos de vergonha e de remorsos porque não nos damos bem na nossa família com toda a gente, quantos não tiveram relações mais ou menos em suspenso, quantos de nós não gastam tantas energias em chatices, em aborrecimentos uns com os outros, a começar pela família, talvez porque sendo do mesmo sangue as expetativas são  outras em relação uns a outros, talvez porque tendo o mesmo sangue, julgamos que não nos perdemos e que estamos todos conquistados, e que está tudo resolvido e esquecemo-nos que as relações são seres vivos que precisam de rega, que precisam de adubos, que precisam de vitaminas, que precisam de investimento, precisão de cuidado.
Não queremos disfarçar, a nossa família é a nossa família e abracemo-la sem vergonhas e sem disfarces e queremos dizer a nós próprios que o facto de sermos do mesmo sangue não resolve coisa nenhuma, que o facto de sermos do mesmo sangue é uma possibilidade de nos amarmos e nos cuidarmos.
E em Jesus, queremos lembrar que a comunidade que Ele quer juntar, o Reino de que Ele falava, é onde cabemos todos  independentemente dos nossos laços de sangue. É onde nos queremos olhar como irmãos, como irmãos.

Celebramos a obsessão de um Deus que nos quer uma família, do Deus que nos quer como irmãos e um Deus que quer revelar isso, de ser um Pai um nos revemos todos, um Deus um Deus onde nos revemos todos!

Um Deus amado, o mesmo é dizer, um Deus ao alcance de ser amado, um Deus amante, um Deus que te ama como tu és, e não como tu gostavas de ser, ou não como tu gostavas de impressioná-lo, um Deus que te ama como tu és, e celebramos o Deus amor, o Deus presente nos nossos laços, nos nossos regressos, na nossa persistência.

Saboreemos tudo isto no dia da Santíssima Trindade, com vontade, não de resolver o mistério, mas de lembrarmos esse grande poder!

Associamos o poder ao nosso conforto, à partida quem é que tem mais poder tem uma vida mais confortável porque põe e dispõe.
Associamos o poder também à destruição, porque quem tem poder, a primeira grande tentação é esgotar o seu poder no seu conforto e naqueles que são os seus, os iguais a si, e muitas vezes o sangue é a maior das tentações, para nos sentirmos iguais e cuidarmos apenas os iguais, o mesmo é dizer, cuidar de mim, safar-me.
Mas o que celebramos hoje é o Poder de construirmos uma família, o Poder de construirmos  o conforto de outros, o  Poder de não destruir, o Poder de juntar, o poder de cuidar. 

E verdadeiramente esse é o nosso maior poder, porquê? Porque é esse a vontade de Deus e Ele não pode mais do que nós! "O que perdoardes ficará perdoado, o que não fizerdes ficará por fazer". 
A verdade é que, no dia de hoje, saboreamos o poder de formar uma família, o poder de formar uma comunidade, o poder de nos cuidarmos, o poder de aceitarmos e compreendermos as diferenças, o poder de caminharmos juntos, o poder de nos escutarmos... 

Esse poder dá forma ao Sonho de Jesus, concretiza o plano de Deus, esse é o maior poder e nem Deus pode mais do que nós!

Possa isto perturbar-nos, possa isto tirar-nos o sono, e possa isto ser a energia dos nossos passos, dos nossos recomeços, dos nossos gestos, que queremos que sejam de proximidade e de aproximação, e das nossas palavras que queremos que sejam de compreensão, de perdão, de unidade.

Celebramos a festa da Trindade, a festa de um Deus que é comunidade, um Deus que é família, e o que queremos dizer nesta festa é que estamos disponíveis desde já, a olharmo-nos como Irmãos, a olharmo-nos como Santos e se assim não for, nunca a Trindade será Santíssima.
Deus será Pai e a Trindade será Santa se nos olharmos como irmãos e nos cuidarmos como originais e nos aceitarmos e nos cuidarmos como Santos.

(crente é Deus que acredita que andamos a formar uma família - Trindade C - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 11 de Junho de 2022. Provérbios 8,22-31; Romanos 5,1-5 e João 16,12-15.)

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