a quem pediram autorização os profetas?
Queridas irmãs,
queridos irmãos, queridos amigos
Que bom que não precisamos de razões, de justificações para nos
sabermos próximos, para sabermos que habitamos o mesmo sonho, que bom que o
desejo atrai desejo, que bom que sedentos atraem sedentos.
É isso também que queremos celebrar neste dia.
Sempre que nos juntamos aqui, lembramos a Páscoa de Jesus, nós queremos ser e somos e dizemos que somos discípulos de Jesus.
Sempre que nos juntamos aqui, lembramos a Páscoa de Jesus, nós queremos ser e somos e dizemos que somos discípulos de Jesus.
E hoje os textos que nos são servidos veem lembrar-nos esta condição, nós seguimos Jesus e seguir implica caminho. E caminho e sofá não são sinónimos. Jesus bem que podia ter dito: eu sou o sofá, sentai-vos! Eu sou o caminho, eu sou o caminho e nós estamos a caminho. E se isto é uma verdade meio la palaciana, queremos recordar também hoje, HOJE A PÁSCOA QUE CELEBRAMOS, o champanhe com que brindamos, é isto de seguirmos, de estarmos em caminho.
Nos textos que hoje nos são servidos, seguimos Jesus na liberdade, seguimos Jesus livremente, seguimos Jesus na liberdade e na radicalidade. Talvez este reforço do texto de Lucas, seja para não pensarmos que a liberdade é um sofá.
É difícil dizer numa afirmação o que é a liberdade, numa entrevista rápida de rua, o senso comum dirá que a liberdade é talvez essa capacidade de escolher entre o bem e o mal, não sei quem é que se lembra dessa definição e eu pergunto quem é a pessoa que escolhe o mal?
Vamos, se for por alguma patologia mental, vamos dizer que não estão reunidas as condições para ver tudo e para poder decidir livremente. Mas vamos, quem é o totó que escolhe o mal? Ninguém escolhe o mal. Se a liberdade fosse escolher entre o bem e o mal toda a gente escolhia o bem, quem é que escolhe o mal?
Liberdade é uma capacidade de escolha entre bens, entre graus de bem, entre aparências de bem, entre bens, não é entre mal.
Talvez concluamos que nalgumas escolhas só coube eu e o meu conforto, eu e os meus iguais, eu e as minhas comodidades, e noutras escolhas pode caber a justiça e eu até saí prejudicado.
Mas vamos, liberdade se quiséssemos é a capacidade de escolher bem, de escolher o bem, de escolher bem. E não entre o bem e o mal, a capacidade e lucidez que treinamos diariamente para fazermos escolhas onde não caiba só eu, onde não caiba só o meu conforto, onde não caibam só as minhas necessidades, os iguais a mim. Seguimos Jesus na liberdade e na radicalidade e talvez essa radicalidade de todos os dias nos treinarmos a escolher, todos os dias nos treinarmos a escolher fazer como Jesus. Ele que se perdeu, Ele que se perdeu... Aos olhos dos judeus mais puros Jesus perdeu-se. Perdeu-se e perdeu. E é esse que nós seguimos porque sabemos que nessa aparente derrota cabem todos.
A0 desistir de construir uma religião de puros e de iguais cabem
todos! E Jesus começa pelos últimos para ficar claro que cabem todos.
Seguimos Jesus na liberdade e na radicalidade de construirmos o Seu Sonho, de darmos forma ao seu sonho onde todos têm lugar. E vale nesta hora saborearmos a metáfora do caminho, e o caminho recorda-nos a nossa condição de nómadas, bem sei que não é no sentido literal, mas o sentido metafórico há-de fazer alguma coisa com a nossa vida. Somos nómadas... Jesus não deixou a igreja montada, quem somos nós para dizermos que ela está montada e está fechada? Jesus deixou-nos uma inquietação, um desejo, um sopro, um vento, um espírito e em cada tempo havemos de decidir, em cada tempo havemos de fazer escolhas em liberdade e em radicalidade.
O perigo que nos apresentam as leituras é esta tentação de juntarmos gente igual, e juntarmos iguais é de facto um aburguesamento, é apoderarmo-nos do sonho de Jesus e dizermos, agora, isto é, nosso.
E Paulo é severo com os Gálatas, sobretudo com aqueles que querem fazer com que a pequena comunidade que Paulo vai juntando de diferentes, de diversos, há um pequeno grupo de judeus que quer que todos sejam circuncidados e cumpram as 613 prescrições da lei e saibam a Torá de cor e façam como eu fiz para chegar aqui, passem o que eu passei para chegar aqui, e Paulo é duríssimo com eles.
Falámos nestes binómios de espírito e carne, talvez numa entrevista rápida de rua, para leitores desatentos, falar de carne em relação ao espírito, tudo vai terminar em sexo e não é bem verdade. Paulo ao falar de carne e da vida da carne está a referir-se quase literalmente à circuncisão, viver segundo a lei de Moisés e qual é o perigo de viver segundo a lei de Moisés? É converterem-se as 613 prescrições num campeonato de cumprimentos e merecimentos. Eu faço, cumpro, e Deus não tem outra coisa senão estar do meu lado, não tem outra alternativa... essa é a melhor forma de domarmos Deus, domesticarmos Deus, apoderar-nos da religião e fazermos com isso aquilo que nos apetece.
Seguimos Jesus na liberdade e na radicalidade de construirmos o Seu Sonho, de darmos forma ao seu sonho onde todos têm lugar. E vale nesta hora saborearmos a metáfora do caminho, e o caminho recorda-nos a nossa condição de nómadas, bem sei que não é no sentido literal, mas o sentido metafórico há-de fazer alguma coisa com a nossa vida. Somos nómadas... Jesus não deixou a igreja montada, quem somos nós para dizermos que ela está montada e está fechada? Jesus deixou-nos uma inquietação, um desejo, um sopro, um vento, um espírito e em cada tempo havemos de decidir, em cada tempo havemos de fazer escolhas em liberdade e em radicalidade.
O perigo que nos apresentam as leituras é esta tentação de juntarmos gente igual, e juntarmos iguais é de facto um aburguesamento, é apoderarmo-nos do sonho de Jesus e dizermos, agora, isto é, nosso.
E Paulo é severo com os Gálatas, sobretudo com aqueles que querem fazer com que a pequena comunidade que Paulo vai juntando de diferentes, de diversos, há um pequeno grupo de judeus que quer que todos sejam circuncidados e cumpram as 613 prescrições da lei e saibam a Torá de cor e façam como eu fiz para chegar aqui, passem o que eu passei para chegar aqui, e Paulo é duríssimo com eles.
Falámos nestes binómios de espírito e carne, talvez numa entrevista rápida de rua, para leitores desatentos, falar de carne em relação ao espírito, tudo vai terminar em sexo e não é bem verdade. Paulo ao falar de carne e da vida da carne está a referir-se quase literalmente à circuncisão, viver segundo a lei de Moisés e qual é o perigo de viver segundo a lei de Moisés? É converterem-se as 613 prescrições num campeonato de cumprimentos e merecimentos. Eu faço, cumpro, e Deus não tem outra coisa senão estar do meu lado, não tem outra alternativa... essa é a melhor forma de domarmos Deus, domesticarmos Deus, apoderar-nos da religião e fazermos com isso aquilo que nos apetece.
E entre cristãos também é uma tentação, também é uma tentação. Convertermos isto num campeonato de cumprimentos e de merecimentos, distinguirmos os que valem mais e os que valem menos, os que podem consumir o produto religioso e os que não podem, os que podem apoderam-se disto como se fossem donos e vivem num sofá.
E a palavra de hoje tem de fazer alguma coisa connosco.
Eu não sou um sofá, diria Jesus, sou caminho, sou caminho!
E possa a palavra de Jesus continuar viva, a incomodar-nos no dia de hoje. Seguir Jesus implica aceitar que estamos em caminho. Implica aceitar que não está tudo feito.
Implica aceitarmos que as soluções encontradas no passado não servem para o dia de hoje.
No passado houve outros como nós que ousaram inspirar-se no Sonho de Jesus e tomar decisões arriscadamente para o hoje daquele dia. É muito cobarde olharmos para o trabalho que outros tiveram e copiá-lo simplesmente. Não! Seguir Jesus implica a lucidez de olhar o dia de hoje, com as linguagens de hoje, com as modas de hoje, e perguntarmos o que faria Jesus para caberem todos. Que vamos fazer nós para não trairmos o Sonho de Jesus?
Talvez destes textos possa emergir a vontade de buscarmos menos legitimação e mais ensaio.
Eu contra mim falo, não pensem que eu estou a falar de outros.
É também muita cobardia esperarmos que seja o papa diga que sim, que o papa autorize, é uma grande cobardia, é desligarmos o cérebro, desligarmos a inteligência e a consciência, alguém que pense por mim e eu assim não tenho consequências nas decisões, alguém que diga como é para fazer e depois fazemos. E enquanto isso continua gente de fora, continua o Sonho de Jesus por cumprir.
Talvez estes textos nos estimulem a buscarmos menos legitimação e mais ousadia. Qual foi o Profeta que foi autorizado a fazer o quê? Não houve um profeta que fosse autorizado, que fosse legitimado, todos viveram uma espécie de desobediência, ou melhor, uma obediência à consciência e porque é que havemos nós de não sermos profetas, nós que desde o batismo nos assumirmos como profetas?
Possam estes textos inquietar o nosso coração a não buscar legitimação, antes ensaio, tentativa... E se correr mal havemos de pedir perdão uns aos outros. Mas pelo menos tentamos incluir mais, pelo menos tentamos incluir todos.
Se com Elizeu ainda é possível ires despedir-te dos teus, Lucas apresenta-nos o Reino como urgente, não é para juntarmos iguais e não deixes que os iguais te sejam uma tentação a juntares iguais, o Reino urge, urge não deixar ninguém de fora e não se trata, não de juntar iguais, e também não se trata de destruir diferentes.
Quando os judeus iam de peregrinação a Jerusalém, muitos parabéns escolhiam outros caminhos mais longos para não ter de passar pela Samaria, porque de facto na Samaria não gostavam da peregrinação a Jerusalém, porque eles próprios também tinham um santuário em tempos quando havia dois reinos, e sim, não se davam bem.
E aquele Tiago e aquele João estão com vontade de destruir aquilo tudo, de destruir os diferentes, os que não pensam como nós, talvez assim se perceba porque é que Jesus chamou àqueles dois os "filhos do trovão".
Nós também não queremos ser assim, não vamos nem juntar iguais, como aqueles que não são capazes de se desapegar, nesta urgência do reino, de se desapegar de iguais, mas também não queremos destruir diferentes.
A inteligência e a consciência poderá ensaiar, poderá antever tentativas, poderá ajudar-nos a ensaiar em conjunto.
O convite do dia de hoje e seguirmos Jesus e talvez queiramos escolher o caminho do despojamento.
Despojamento de quê? DESPOJAMENTO DE TI, das tuas certezas. Por um
momento despoja-te das tuas certezas, daquilo que tens como adquirido, das tuas
seguranças, das soluções antigas para problemas novos.
POSSA O CAMINHO DO DESPOJAMENTO, SER O CAMINHO DA NOSSA PÁSCOA!
(a quem pediram autorização os profetas? XIII dom comum C - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 25 de Junho de 2022. 1 Reis 19,16-21; Gálatas 5,1.13-18 e Lucas 9,51-62.)

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