se a estreia for em Deus, este é o tempo dos ensaios


Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos, queridas mini-pessoinhas estão à vontade 

Desculpai os que vêm pela primeira vez de ouvirem esta saudação de amigos e irmãos e irmãs, mas é bem mais aquilo que nos aproxima do que aquilo que nos afasta e mesmo sem dizermos uma palavra ao juntarmo-nos à volta da mesma mesa já dizemos quem somos, já dizemos que precisamos de nos alimentar, logo apresentamo-nos famintos apresentamo-nos sedentos, apresentamo-nos carentes uns dos outros e é isto que forma a igreja, isso que forma o grupo dos discípulos de Jesus o reconhecimento de que temos fome e que temos sede, o reconhecimento que precisamos uns dos outros. 

Novamente queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos

foi-nos servido no dia de hoje, damos um nome a esse domingo, porque temos de pôr palavras em coisas que acreditamos, em coisas que damos como seguras, em inspirações da nossa vida cristã, chamamos a este domingo o Domingo da Ascensão de Jesus, é a palavra que nós temos para nos lembrarmos uns aos outros que Jesus não está entre nós. 

Vamos desapareceu, mas mas a forma sublime que a liturgia e que literatura bíblica nos servem para falar desta ausência de Jesus, Jesus integrou-se em Deus. E se quisermos, somos chamados a uma medida alta. Isto de Ele ter sido elevado, sendo a nossa cabeça, lembramos que somos convocados a uma Vida Alta, a uma medida alta,  o mesmo é dizer somos convocados a sermos maiores do que nós. E como é que isso acontece? Olhamos para Jesus pelo dom de nós próprios.

Quando a nossa vida não fica presa nos nossos preconceitos, nas nossas certezas, nos nossos confortos, nas nossas necessidades, sentimos que a vida se amplia, que a vida se eleva.

E hoje, neste dia em que lembramos essa ausência de Jesus, terminávamos o evangelho de Lucas com esse  parágrafo que acabámos de escutar e na primeira leitura escutávamos a inauguração do segundo livro de Lucas, o livro dos Actos dos apóstolos. Porquê? Hoje queremos saborear esta mudança.

Em certa medida o cristianismo acontece em dois tempos, um tempo em que Jesus andava por cá e o tempo em que na ausência de Jesus o buscamos.

Sim, terminávamos o evangelho de Lucas dizendo uns aos outros, sim aqui terminou o primeiro cristianismo e abrindo o pórtico dos Actos dos apóstolos lembramos uns aos outros esse tempo inaugurado nesse, esse tempo inaugurado pelos nossos primeiros é o tempo de hoje, é o tempo de hoje.

Estamos num quadro de despedidas, cabem neste quadro de despedidas as nossas sensibilidades... 

Há quem precise de uma leitura literal daquilo que acabámos de escutar, há quem se incomode com o sentido literal do que acabámos de escutar e precise de sentidos simbólicos, todos os sentidos são convocados para este dia, todas as sensibilidades são convocadas para este dia, para este registo de despedidas e olhando para os recursos literários de Lucas particularmente, queremos saborear esta ausência de Jesus que pelos vistos não é um desaparecimento.

Paulo aos efésios, escutávamos um pequeno parágrafo que porventura constitui uma espécie de carta circular que Paulo fez chegar a várias igrejas, nesta carta aos efésios Paulo falava de Jesus como Cabeça de nós seu Corpo, e como é que pode desaparecer Jesus? Não pode desaparecer...

As palavras, a linguagem tem os seus limites, precisamos de dizer por palavras aquilo que queremos dizer e não temos outra maneira de as dizer. Mas vamos, um corpo sem cabeça não vive, Jesus não está entre nós, mas não somos mortos, nós somos o seu corpo e por isso não se trata tanto de um desaparecimento, trata-se de uma vida vivida em chave de promessa, em chave de esperança, uma vida em aberto, convocados por Aquele que é a nossa cabeça.

Jesus, e percebemos pelas instruções que Lucas faz compilar naquele discurso, Jesus tem mesmo vontade de fazer do seu corpo, de fazer de nós protagonistas. E isto de facto é um pormenor de um amante, quero que tu vivas! Quero que tu sejas!

E a elegância com que Jesus que deixa o seu Sonho nas mãos ... olhem como aquele Pedro não estava nem aí, e como ele outros, deixa o seu sonho a gente inábil, a gente incapacitada, a gente que vai fazendo o seu caminho, que elegância amorosa esta de Jesus. 

E o detalhe que queremos saborear hoje, Ele que sai de cena e não deixa uma organização montada. 

E não deixa uma regra e não deixa um código, e não deixa um modo de gestão, e não deixa um modo de organização, não deixa nada, não deixa nada!

Não deixou lei, não deixou código, não deixou arquitetura teológica, não deixou arquitetura canónica, não deixou nada... e só um amante pode sair de cena desta forma.

Agora, lembra-nos Lucas, é o tempo do Espírito! E escutávamos a forma como  literariamente Lucas encontra, a forma de dizer, Jesus não está connosco e deixa-nos a certeza de sermos habitados por Deus, e essa certeza de sermos habilitados por Deus chamemos-lhe espírito. Espírito significa inteireza, significa construção de si, podíamos traduzir por pessoa, é o que somos!

Espírito Santo, o que queremos dizer, é a construção da pessoa de Deus na nossa pessoa, e esse mistério que nós um dia havemos de saber e, entretanto, vamos tragando em sabores, e perfumes, em momentos da nossa vida, em circunstâncias e em pessoas, lembramos hoje que somos moradas, Moradas de Deus.

Literariamente Lucas monta este quadro com um Jesus que a última coisa que faz é abençoar, abençoar! 

Traduzido abençoar significa dizer bem, Jesus que disse bem de toda a gente a começar pelos últimos, a começar pelos mais impuros, pelos coxos, pelos cegos, por todos aqueles a quem Ele ergueu. Aos puros judeus falou bem dos impuros, bendisse os impuros, bendisse os últimos, bendisse os pequenos, bendisse os pobres, e Lucas quer deixar-nos este detalhe, até ao último segundo connosco, Jesus diz bem, diz bem de nós, abençoa-nos! 

E o que é que acontece nesta despedida de Jesus, esse que não nos deixa nada em concreto, não nos deixa uma orgânica, um organigrama, uma lei, um código, lembra-nos que somos TESTEMUNHAS. E isso é o que Ele nos deixa, essa é a nossa herança, SOMOS TESTEMUNHAS. 

E aqueles primeiros são testemunhas das palavras de Jesus, que disseram bem e dos gestos de Jesus que erguendo, disseram bem. Esses primeiros são testemunhas de um Deus que viveu para abençoar, viveu para erguer, viveu para incluir, viveu para não deixar ninguém para trás, e esses que são as primeiras testemunhas o que foram fazer, foi ensaiar, foram tentar dar forma ao Sonho de Jesus, em cada tempo. E por  causa disso nos reunimos hoje aqui. Porque as primeiras testemunhas, os que presenciaram as palavras e os gestos de Jesus, decidiram imitá-lo... e sem mapa foram dando  passos, foram caminhando. 

Lembramos ao longo do tempo pascal a primeira grande decisão depois da ausência de Jesus, quem é que cabe no Sonho de Jesus? Paulo primeiro e Pedro logo de seguida e a igreja toda na primeira reunião, no primeiro Concílio de Jerusalém concordam que no Sonho de Jesus cabem todos, judeus e todos os outros, todos os gentios. E em cada tempo, cada testemunha do sonho de Jesus, dos gestos de Jesus, das palavras de Jesus, ousadamente e consciente de ser habitada pelo Espírito, foi tentando dar forma. E o que é que nos compete a nós? Somos testemunhas de quem?

Nós não somos testemunhas nem dum Deus medieval, nem dum Jesus do segundo milénio. Nós somos herdeiros de muita coisa, somos herdeiros de muita coisa, mas somos testemunhas de Jesus. É de Jesus que damos testemunho e a bênção que somos chamados a dar uns aos outros, isto de dizermos bem, numa era onde é fácil dizer mal, onde é fácil inventar, e sabemos o que significa fak new, numa era onde a palavra tem poder de destruição, e parece não haver problema em usar esse poder de destruição às vezes com critérios tão duvidosos, nós somos chamados a dizer bem à maneira de Jesus e se nos faltar inspiração é ao evangelho que vamos lembrar Aquele de quem somos testemunhas. Sim, podemos consultar todos os compêndios de todos os séculos, mas a inspiração está no evangelho, somos testemunhas de Jesus habilitados pelo Espírito e desafiados a darmos forma ao Sonho de Jesus com a linguagem do dia de hoje, aos contemporâneos do dia de hoje, aos conterrâneos do dia de hoje, a quem vive no mesmo chão que nós no dia de hoje. 

Somos chamados a inventar é isso somos chamados a inventar, não somos chamados a copiar. O Papa Francisco ainda recentemente, numa espécie de grito à juventude, lembrava que as jornadas da juventude, lembrava que não quer que as jornadas da juventude sejam uma cópia do que sempre se fez, quer originais, quer originais... e que pena esta frase de Francisco soar a uma espécie de chanan, porque é isso que Jesus nos pede desde o primeiro dia, não quer que copiem nada, Jesus chega a dizer que nós vamos fazer obras maiores que as Dele.

É o tempo de inventarmos, é o tempo de inventarmos. E como vimos nos Atos dos Apóstolos a personagem principal é o Espírito Santo. E vamos, inventemos com a consciência de sermos habitados pelo Espírito. 

Somos chamados a dar forma ao Sonho de Jesus no dia de hoje, neste século, com as linguagens e as ferramentas deste século. E como não sabemos porque nunca foram inventadas joga-se a nossa insegurança é verdade, uns sentem-se mais ameaçados que outros, nas todos somos precisos e todos somos convocados, todos na nossa insegurança, os que a disfarçam e os que a assumem. São convocados também os nossos medos, "eu estou convosco, não tenhais medo, eu estou convosco". São convocados os nossos medos e as nossas ousadias. Tudo é convocado e já que estamos em Tempo Sinodal comecemos por nos pormos à escuta.

Possa a escuta ser o princípio criador, possa a disponibilidade do nosso coração a novos gestos, a novas palavras a novas bênçãos, possa a nossa disponibilidade dar forma ao Sonho de Jesus HOJE, no século XXI.

(se a estreia for em Deus, este é o tempo dos ensaios - Domingo da Ascensão C - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 28 de Maio de 2022. Actos 1,1-11; Efésios 1,17-23 e Lucas 24,46-53.)

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