como se liberdade e consolação estivessem entre nós

 
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Deixemos que estes textos nos despertem. Temos lido no evangelho de João, um grande discurso de despedida de Jesus aos seus discípulos. Percebemos que há uma intenção de João de relembrar o essencial o seguimento de Jesus, há uma vontade de reunir frases soltas que estavam na memória viva dos discípulos de Jesus. 
Deixemos que nos alegre a certeza de um Deus obcecado por consolar-nos, o mesmo é dizer, ser companhia da nossa solidão, o mesmo é dizer não nos deixar sós. Um Deus obcecado em não nos deixar sós!

E como e que Jesus fez isto? Garantindo que estaria contigo, garantindo que estaria comigo no rosto mais próximo que tu visses, no rosto mais próximo que tu vês. Foi a garantia dada por Jesus, Ele está nesse templo do Espírito Santo que é esse outro que tu vês. Ele está de forma encarnada nesse próximo que tu vês e sim, obcecado em não nos deixar sós, é o que significa Paráclito, é o que significa Consolo. Deixemos que seja esta a verdade Pascal do nosso dia, a verdade que não nos deixa na mesma e cada um de nós saberá como deixar florir esta verdade.

O capítulo 16 do livro dos Actos acaba por ser uma legenda desta verdade, é  das páginas mais bizarras que a escritura pode conter, é das páginas mais bizarras do livro dos Actos, qualquer leitor fica despistado com o que aqui aconteceu.

Paulo e Silas estão em Filipos, uma cidade muito importante da Macedónia e diz-nos o narrador que eles vão falando com algum sucesso, as pessoas vão ouvindo. Há uma mulher escrava de quem os seus donos vão tirando dividendos porque ela adivinha umas coisas... e põe-se atrás de Paulo e de Silas a dizer que elas extraordinários, e que vinham anunciar Deus e que haviam de salvar toda a gente, vinham anunciar o Deus Salvado. Esta mulher grita atrás de Paulo e de Silas dias seguidos e Paulo irrita-se e liberta-a diz o texto: Em nome de Jesus deixa-a e é uma história de libertação. Diz-nos o narrador: aquela mulher ficou liberta. E os donos não gostaram da brincadeira porque lhes tiraram a fonte de negócio e partir dali a narrativa tem um "volte-face", tudo fica estranho, vemos novamente nós que vimos do julgamento de Jesus e já estamos fartos de injustiça, nós que vimos do julgamento de Estêvão e já estamos fartos de injustiça, Paulo e Silas são praticamente condenados sem haver julgamento, sem terem sido ouvidos... que coisa tão bizarra, que coisa tão estranha.
E para que a bizarria não fique por aqui, continua a dar-nos pistas de como é que o cristianismo ganha forma, Paulo e Silas estão ali porque libertaram, libertaram uma mulher, é essa a causa da condenação de Paulo e Silas, porque libertaram uma mulher estão ali. E O cúmulo da libertação acontece nesta insistência do narrador em dar sentido à vida do carcereiro.

Foi assim que o cristianismo foi ganhando forma. Quem é o consolador de quem nesta história? 

Aquelas vítimas Paulo e Silas são companhia da solidão daquele carcereiro, libertam-no. Ele que queria pôr fim à sua vida.
E a história é tão bizarra e para não ficar por aqui, àquela hora da noite diz-nos o narrador, que exagero, àquela hora da noite o carcereiro leva-os para sua casa, faz deles sua família, já estariam todos a dormir... acordam todos e põem-se a cuidar das feridas de Paulo e Silas e põem-se a fazer ceia, sentaram-se à mesa e foi batizado o carcereiro. 
É tudo muito simbólico, se fosse literal deixava-nos chocados demais... 
Saboreemos a simplicidade com que o cristianismo é renovado na vida destes personagens, vida deste carcereiro e da sua família, até nos parece confuso de tão simples.

Deixemos que isto também evangelize a nossa complicação, a forma como complicamos o cristianismo uns com os outros, a forma como mergulhamos na vida de Jesus uns e outros, deixemos que esta legenda do livro dos Actos, que este hino à liberdade, que este hino ao cuidado que se escreve com exagero, seja inspiração para o nosso cristianismo, para o cristianismo do dia de hoje, para a forma como seguimos Jesus no dia de hoje. Quem foi o consolador daquele guarda? Quem foi o consolador de Paulo e de Silas? Todos têm nome. Apresentemo-nos ao Senhor disponíveis, nós que habitados pelo Paráclito, nós que habitados pelo Espírito Santo, nós que habitados pelo Consolador, apresentemo-nos disponíveis a sermos consolo a dispormo-nos a salvar-nos uns e outros da nossa solidão.

(3ª. feira VI da Páscoa - como se liberdade e consolação estivessem entre nós - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Lisboa, 11 Maio de 2021. Actos 16,22-34 e João 16,5-19)

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