Amantes guardam palavras


Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Que bom que reconhecemos que precisamos uns dos outros para nos erguermos, para caminharmos, para vivermos. 

Que bom que à volta desta mesa mesmo sem dizermos uma palavra, só pelo facto de nos aproximarmos dela, dizemos uns aos outros que não está tudo feito, não está tudo acabado. Somos imperfeitos e repito, imperfeito não significa defeituoso, imperfeito significa que ainda não está feito, que ainda não está acabado, e somos nós em processo.

Queremos nesta hora reconhecer aquilo que nos junta aqui, a nossa condição de carentes, de sedentos, de famintos...

Escutávamos palavras, escutávamos textos e nós estamos disponíveis a alimentar-nos destes textos, como estamos disponíveis a alimentar-nos do pão que vamos de seguida preparar e distribuir, esse pão que chega sempre para todos e sobra sempre para quem aqui não está. 

De tudo o que escutámos permiti que sublinhe uma expressão que não gostava que passasse entre os pingos da chuva. Nós estamos a terminar o Tempo Pascal, estamos a chegar ao fim. Tudo isto é simbólico, na liturgia não sabemos falar de outra maneira que não seja com símbolos...

A verdade é que Páscoa é a vida inteira, isto de nos sabermos visitados por um Deus que passa através do próximo e a disponibilidade a também nós passarmos, a também darmos um passo, a também nós não ficarmos na mesma, essa é a nossa condição, vivemos em Páscoa! 

Mas vamos, na liturgia o tempo pascal está a chegar ao fim e são-nos servidos discursos de Jesus que pretendem ser uma espécie de síntese de despedida.

João junta muitas frases de Jesus e agrupa-as, organiza-as num longo discurso de Jesus, de despedida aos seus discípulos, naquela que será a última ceia com eles. E nós temos lido, assim em recorte parágrafos estes discursos de Jesus. 

Estamos no domínio da síntese, Jesus quer deixar aos seus discípulos aquilo que ele julga ser mais importante. E João também quer organizar as frases de Jesus que lhe parecem as mais importantes e deixar nas nossas mãos as palavras que parecem ser as mais importantes. E há uma expressão que porventura diz aquilo que nós somos. Quem ama guarda, as minhas palavras, e a verdade é que nós estamos aqui porque somos guardadores de palavras!


E quem é que são os guardadores de palavras? A palavra grega para dizer guardadores, para dizer os que guardam. 

Guardará a minha palavra, aquela fórmula no futuro, a palavra que lá está é "teresei",

um hino às Teresas e porventura é a nossa condição, guardadores de palavras.
Eu diria que a nossa condição de amantes, diz isto de sermos guardadores de palavras. Os amantes guardam palavras! 

E sim, pensem lá, as histórias mais preciosas de que somos feitos, de que sois feitos, pensai nos vossos amores, tudo são palavras e guardamo-las como aquilo que ninguém nos pode tirar.

E porventura Jesus ao dizer aos seus discípulos para serem guardadores de palavras.
Vamos, nós que somos discípulos olhamos para Ele e vemos Nele o guardador das palavras e se as palavras mais preciosas que trazemos connosco são nomes de pessoas, Jesus como o rosto de um Deus que quer todos, que que reunir um só rebanho num só pastor, Jesus é o guardador de todos os nomes, Jesus é o guardador de todas as palavras e guarda-as com especial ternura, reuniu-as a partir das últimas, das mais esquecidas.

Pelos caminhos da Galileia foi guardando palavras, foi guardando rostos, foi guardando nomes, a começar pelos últimos para que fique claro que cabem todos e pediu aos seus discípulos para serem guardadores de palavras. E nós guardamo-las, nós guardamos os nomes mais preciosos, nós guardamos as nossas histórias mais preciosas, nós guardamos os dias em que sorrimos de alegria, nós guardamos as lágrimas dos dias mais pesados, dos dias em que nos saiu o chão dos pés. Guardamo-las todas, guardamo-las todas!

E guardar à maneira de Jesus, ele que disse que quem guardar a sua vida há-de perdê-la, mas quem a oferecer há-de ganhá-la, guardar à maneira de Jesus, em certa medida, é esse trabalho de conservar no coração e de partilhar. Guardar palavras à maneira de Jesus é vivê-las, guardar gestos à maneira de Jesus é fazê-los.
Nós vimos aqui à volta desta mesa repetir uma data de palavras e uma data de gestos, porque não queremos perdê-los, porque não queremos esquecê-los, mas queremos também inspirar outros gestos e outras palavras a partir destas, e é assim que guardamos palavras, conservamo-las no coração e partilhamo-las para que outros vivam. 
Escutávamos na primeira leitura a vontade dos nossos primeiros irmãos, naquilo que foi o primeiro Concílio da Igreja, a primeira reunião de tomada de decisões da Igreja. Reuniram-se em Jerusalém e decidiram, afinal o Sonho de Jesus é para quem? Só para os que sabem a Lei de Moisés? É só para os iguais a nós? Há tanta gente que se entusiasma com isto e não pratica a lei de Moisés!
E depois de grande discussão decidiram que no Sonho de Jesus cabem todos, no Sonho de Jesus cabem todos.  

E dispuseram-se a dar forma a uma Igreja, a igreja significa assembleia, a um grupo de pessoas dispostas a guardar nomes, a guardar palavras. 

E sim, não quiseram deixar nada de fora, não quiseram deixar ninguém de fora, até os mais impuros aos olhos dos judeus quiseram guardá-los, quiseram cuidá-los. E por causa dessa decisão estamos nós aqui, estou eu aqui, pelo menos estou eu aqui. Eu não estaria aqui se não tivessem tomado essa decisão, eu não sou puro, eu não sou puro, eu não conheço a Lei de Moisés, eu não pratico a Lei de Moisés. Eu, e porventura falo por muitos, fomos acolhidos numa assembleia, fomos acolhidos num grupo que nos guarda, que nos cuida, que guarda o nosso nome, que não esquece o nosso nome.

E porventura é assim que revelamos Deus uns aos outros, porque assim é Deus esse que guarda o nosso nome.

Se calhar foi por isso que Jesus disse, se guardássemos palavras, se nos guardássemos uns aos outros, se nos cuidássemos seríamos Morada de Deus. Foi o que Jesus disse nestas palavras que João quis oferecer-nos nesta tarde de sábado. Somos Morada de Deus porque nos cuidamos, revelamos uns aos outros, esse Deus amante guardador de nomes, guardador de todos os nomes.

Que feliz esta intuição dos nossos primeiros que decidiram não deixar ninguém para trás, felizes seremos se continuar a ser o nosso sonho, de não deixar ninguém para trás, de guardarmos nomes, de nos cuidarmos, de nos erguermos, pelo perdão, pela compreensão uns dos outros, pela paciência, pela disponibilidade a escutarmos e a percebermos as nossas razões e as nossas diferenças, felizes seremos. Talvez até consigamos aquilo que Jesus dizia, "vós fareis obras maiores do que as minhas". Tal como diz o Salmo 82 "Vós sois Deus". E Jesus repetiu isto aos judeus "Na lei está escrito vós sois Deus". 

E esses são os que recebem palavras, recebem a Palavra. E sim, nós somos Deuses, somos Morada de Deus, somos revelação de Deus uns para os outros. Que bom seria que nos lembrássemos disto. 

Eu sei que se levássemos isto a sério quase que nos tirava o sono, mas vamos não nos esqueçamos e lembremos que esta tarefa de renovarmos, de fazermos novas todas as coisas como Jesus, aquilo que estava mais ou menos descrito na segunda leitura, neste livro simbólico do Apocalipse, o novo céu e a nova terra acontecem e são descritas com as palavras que nós conhecemos, dizia-nos o autor, já não há templo naquela cidade, porquê? Porque o templo já não são pedras! Adília Lopes continua a ecoar naquela frase tão sublime "O tempo é Templo"! 

Sim, depois de Jesus nós olhamos o tempo como templo e nós somos tempo, e nós somos tempo.

Os novos céus e a nova terra, a nova Jerusalém que se falava no Apocalipse é feita com palavras que tu já conheces, o mesmo é dizer, é feito com a tua história, com a nossa história, com as nossas feridas, com as nossas perdas, com as nossas derrotas, com as nossas experiências de sermos erguidos, com as nossas experiências de superação, com os nomes de quem amamos, com os nomes de quem passamos a amar depois de perdoarmos e pedirmos perdão.

Lembremos a nossa condição de guardadores de palavras, lembremos a nossa condição de moradas de Deus.

E possa isso deixar que a nossa Páscoa nunca acabe.

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo VI da Páscoa C | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 21 de Maio de 2022. Actos 15,1-29; Apocalipse 21,10-23 e João 14,23-29)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/05/22/amantes-guardam-palavras/

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fará sentido viveres com medo de quem te conhece?

Amados imperfeitos

E como queremos que seja entre nós?