tudo começa com o desejo de Deus de se sentar à tua mesa

 

Queridas irmãs, queridos irmãos

Desde quarta-feira de cinzas aceitámos percorrer um caminho de despojamento e  de metanoia, de revisão e de regresso, de mudança de mentalidade. Das cinzas de quarta-feira nasceram oliveiras com cujos ramos saudamos hoje o Príncipe da Paz. De novo estes ramos serão cinza e da nossa história de recomeços se ergue a Cruz, símbolo da nossa Páscoa, símbolo de Jesus vivo e erguido, promessa de vida inteira nos escombros das nossas perdas. Damos hoje início à celebração do mistério pascal do Senhor.

Recordemos a entrada de Jesus em Jerusalém como o Messias e atravessemos com Ele o silêncio da Ressurreição. 

[Paixão de Jesus Cristo segundo Lucas]

Desejamos silêncio nesta hora, queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos,
Desejamos silêncio e possa durante esta semana, acontecer silêncio.
Somos introduzidos nesta Semana Maior pela mão de Lucas,  acabámos de ler o nosso tesouro, a parte central de todos os evangelhos a narração daqueles dias, os últimos de Jesus. 

É verdade que nós repetimos este gesto todos os anos e vamos lendo, ano após ano, a versão de Marcos, a versão de Mateus, este ano a versão de Lucas. Que bom seria que repousássemos também o coração nos detalhes que uns evangelistas descrevem e outros não.

Repousemos o coração nesta hora na singularidade deste tesouro de Lucas, de muitos detalhes, são únicos na versão de Lucas. 

Escutávamos várias referências às mulheres que não abandonam Jesus, que andam com Ele desde a Galileia, por duas vezes ouvíamos esta frase. Ouvíamos pormenores a respeito da delicadeza com se tratava o corpo de Jesus e nesta singularidade do evangelho de Lucas saboreemos três frases únicas que não aparecem nos outros relatos.
 
Eu desejei tanto comer esta páscoa convosco, antes do meu fim. Eu desejei tanto comer esta páscoa convosco.

Queremos saborear esta frase, única dita por Jesus na versão de Lucas.
Única também é a frase que Lucas coloca na boca de Jesus, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem. 
Não sabem o que estão a fazer.

Única é também a última frase de Jesus, distinta de Mateus e de Marcos, que são uma frase do salmo, "Meu Deus a que me abandonaste", "Meu Deus porque me abandonaste".
Lucas coloca como última frase na boca de Jesus, Pai em tuas mãos entrego o meu Espírito.
 
Poisemos nesta hora o coração nestas três frases, únicas na versão que nos é servida este ano, na versão de Lucas. 

Saboreemos o último desejo de Jesus, Ele sabia como ia morrer, Ele sabia como morreram todos os que fizeram frente à religião dos puros,  Ele sabia como morreram todos os profetas.

O último desejo de Jesus foi uma mesa e foi companhia, uma mesa e companhia. 

Que a vontade de nos juntarmos todos à mesma mesa  que as escolhas que vamos tomando para que todos tenham lugar à mesa, que as palavras que escolhemos para que todos tenham lugar à mesa, para que os gestos que realizamos para que todos tenham lugar à mesa, nos revele a presença de Jesus, nos revele este grande desejo de Jesus de se sentar connosco à mesa.

Não é à toa que Lucas coloca esta frase de perdão na boca de Jesus, "Pai perdoai-lhes porque não sabem o que fazem".

Se resumíssemos o evangelho de Lucas, seria o evangelho do esbanjamento de misericórdia, a desmesura de perdão. E em certa medida essa é a desmesura do amor sem cálculos, sem contabilidade.

E Lucas para ser coerente à sua redação decidiu, no cúmulo do sofrimento de Jesus, voltar a dizer o propósito da vida de Jesus. E mesmo na hora em que podia insultar e em que podia vingar-se, Pai perdoai-lhes porque não sabem bem o que estão a fazer!
Até na cruz exagera em misericórdia, perdoando o imperdoável, perdoando aquilo que cabe em toda a experiência humana, perdoando a injustiça, o preconceito, a vingança, a traição, perdoando o abandono, perdoando a vontade de escapar, perdoando o uso e o abuso da religião, e nesse perdão, nessa hora tão inesperada, Jesus abre um outro caminho, um outro caminho!

E nós discípulos olhamos para Jesus suspenso na Cruz e vemos um OUTRO CAMINHO!
Não é o caminho da vingança, não é o caminho do triunfo. É outro caminho, é outro caminho que começa na liberdade e se inventa no silêncio. 

PAI ENTREGO O MEU ESPÍRITO!

E tinha de ser esta a última frase do evangelho de Lucas, colocada na boca de Jesus. 
É o Espírito o personagem principal de todos os escritos de Lucas. A começar no evangelho e a terminar nos Actos doa Apóstolos.

É o Espírito que está por detrás de todas as personagens, é o Espírito que move tudo, foi o Espírito que habitou Maria, foi o Espírito que fez nascer Jesus, foi o Espírito que conduziu Jesus ao deserto, foi o Espírito que fez Jesus erguer todos, ressuscitar tantos, trazer para o centro quem estava fora, quem estava na margem.
 
Agora Jesus devolve ao Pai esse Espírito, devolve a Deus esse Espírito. Bem sabemos que é esse Espírito que será soprado aos seus discípulos, é esse Sopro que chega até nós, habitados pelo mesmo Espírito.

Devolve o Espírito ao Pai, como devolve os seus talentos que renderam cem por um.
Nós temos nesta hora, com o coração triste, temos o Corpo Morto de Jesus nos braços, temos o Corpo morto de Jesus para perfumar. 

Mas nós que sabemos o fim da história lembremos que temos o Espírito, Aquele que O fez vivo e O fez erguedor na Galileia, e o fez Profeta e Messias a entrar em Jerusalém, lembramos que temos o Espírito para fazer o que Ele fez, para fazermos uns aos outros o que Ele fez. E possa dessa forma celebrarmos a nossa Páscoa. 
 
(tudo começa com o desejo de Deus de se sentar à tua mesa - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo de Ramos C | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 9 de Abril de 2022. - Isaías 50,4-7; Filipenses 2,6-11 e Lucas 22,14 – 23,56.)
 
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/04/10/tudo-comeca-com-o-desejo-de-deus-de-se-sentar-a-tua-mesa/

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