Salvos no improvável (reposição)

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos

Nesta semana onde nos propomos revisitar o drama dos últimos dias   de Jesus, nesta semana queremos revisitar o núcleo dia evangelhos, a parte mais importante e mais central de todos os evangelhos, reservamos para este dia aqueles versículos do capítulo XXVI de Mateus, que precipitam no fundo todos os acontecimentos. 

É no fundo o início do drama do qual já sabemos o fim, até sabemos todos os pormenores de cor, mas ainda assim insistimos todos os anos em revisitar este drama, em revisitar os últimos dias da vida de Jesus. 

E no fundo o convite de Jesus é o que vamos escutar no domingo da ressurreição, o convite de Jesus aos seus discípulos a recomeçarem, recomeçarem o que Ele fez. 

A recomeçaram este exercício perpétuo de nos erguermos uns aos outros, de trabalharmos para que todos se sentem na mesma ceia, todos se sentem à mesma mesa, que nos cuidemos todos na mesma casa.

Muitos conhecem este dia ao longo da tradição, como a quarta-feira da traição.

Neste dia é reservado o episódio de Judas que vende o próprio mestre. É desconcertante o drama precisar deste gatilho.

Já não faltavam inimigos de Jesus, já não faltavam adversários de Jesus, e foi preciso um íntimo de Jesus, foi preciso um íntimo fazer algo que é disruptivo.

Nenhum de nós estava à espera se lêssemos este texto pela primeira vez, não estaríamos nada à espera que fosse um dos discípulos a fazer  isto, um dos apóstolos. 

Judas aparece nos evangelhos inúmeras vezes, não é o menos importante, pelo contrário. É um murro no estômago, este parágrafo estre dois gestos belíssimos, entre dois gestos de extrema generosidade, de extrema gratuidade... Este capítulo XXVI de Mateus, começa com uma mulher em casa de Simão o leproso, uma mulher sem nome derrama um frasco de perfume na cabeça de Jesus e nesta versão de Mateus, todos se escandalizam, todos os discípulos acham aquilo, que de facto significa um gesto de carinho, de amor, de unção, de eleição, acham aquilo um despropósito, um desperdício e Jesus deixa-lhes um ralhete, não, não! No fundo é uma recomendação aos leitores, à igreja "Ao lembrarem o Evangelho, isto hão-de lembrar isto hão-de lembrar para sempre! Ela preparou o meu corpo para a sepultura".

No fundo o autor liga este gesto à sepultura de Jesus. 

E imediatamente depois do evangelho que nos é servido hoje, aquele a que nós chamamos o parágrafo da traição, Jesus inicia a narração daquilo a que chamamos  que é a Eucaristia naquele gesto simbólico de um pão, que Ele diz que é o Seu Corpo e um Cálice  será o quarto Cálice da ceia, e que Ele diz que o Seu Sangue é o sangue de uma nova Aliança.

No fundo Jesus está a dizer o que foi a sua vida até àquele dia e o que será...

Uma vida rasgada e servida e que alimenta e te faz viver.

Os discípulos estão numa casa de um proprietário sem nome, no fundo convidando a que tu, querido leitor, te sintas o dono da casa, é em tua casa que Jesus quer celebrar a Páscoa com os seus discípulos. 

E a tradição que a  Páscoa se celebra em Jerusalém, e se a cidade teria uns trinta mil habitantes ao longo do ano, na altura da Páscoa  para que todos os judeus celebrassem a Páscoa dentro dos muros de Jerusalém, chegavam a ser cento e trinta mil, segundo alguns autores, era preciso dar guarida, dar acolhimento a mais de cem mil pessoas que chegavam para celebrar aquela festa.

E de facto devia ser celebrada abrigadamente, debaixo de um teto, e por isso há também neste gesto, um gesto de gratuidade. Essa hospitalidade não era paga  como tradição estava dito que num gesto de cortesia se deixava a pele do cordeiro para os donos da casa 

Terá sido isso que Jesus e os seus discípulos também fizeram, vindo essa prática de uma espécie de recompensa simbólica já que estavam naquela casa durante aquela noite, durante a Páscoa, a título gratuito. E o evangelista faz questão de colocar uma venda, um gesto que não é gratuito, uma venda, um negócio, entre as duas balizas de extrema gratuidade. 

Aquela unção desmesurada, aquele desperdício em casa de Simão o leproso, na versão de Mateus, e uma hospitalidade de um grupo numa sala nobre, uma casa a título gratuito, para celebrarem a Páscoa, que no fundo é também uma refeição simbólica onde é recordada a vida de Jesus como um dom gratuito até ao fim. 

Esta narração da traição de Jesus,  resgata uma simbologia de trinta moedas de prata, que nos remetem para o livro do Êxodo e para o livro do Profeta Zacarias, onde ambas as referências a estas trinta moedas de prata têm que ver com o escravo.

É muito explícito no livro do Êxodo, quando um escravo é morto, outras interpretações à lei, dizem que quando um escravo fica incapacitado por causa de um acidente, no versículo 22 deste capítulo XXI do Êxodo, diz quando um boi acidentalmente mata um escravo, além desse boi ter que ser morto, o dono do escravo tem que ser recompensado com 30 moedas de prata.

Em certa medida o que aqui nos é servido, pelo menos na interpretação de Mateus, Judas vende Jesus ao preço de um escravo. 

Jesus que se fartou de libertar do jugo da lei, tanta gente. Jesus que se fartou de incluir é separado, é vendido com o preço de um escravo. 

É para nos escandalizar, é para nos chocar este pormenor e ainda por cima isso foi feito por um íntimo de Jesus... É para nos chocar, é para ficarmos despistados.

E apresentados que estão os personagens, os principais dos sacerdotes que no fundo são os sumo-sacerdotes eméritos dos outros anos, são dentro da classe, uma espécie de senado dos Saduceus. Noutras versões vão aparecer também os guardas do templo. 

Apresentados que estão os personagens como que se pode dizer que o drama comece.

E o drama começa neste episódio tão improvável que não era preciso, Jesus já tem inimigos e já lhe querem a morte e não faltariam ocasiões de o apanharem. E de repente os evangelistas deixam-nos este episódio tão improvável, tão disruptivo, um íntimo de Jesus que o vende ao preço de um escravo.

Há um comentário de Santo António que o questiona, Judas tu nem sequer levavas um preço, aceitaste de Jesus, tu aceitaste o preço que te propuseram.

Precisamos deste parágrafo,  desta cena tão improvável, tão improvável!  

Nós que já nos habituamos a ela, parece que faz parte da história e de facto sem ela a história não avança 

Mas era tão prescindível tudo isto, ainda por cima, inserido em dois gestos de tamanha generosidade, somos salvos no improvável, SOMOS SALVOS NO IMPROVÁVEL! 

O evangelho apócrifo de Judas vem juntar-se a um coro de autores que pretendem olhar para Judas doutra forma, que pretendem resgatar Judas. 

De facto os evangelistas chamam a Judas o traidor, por várias vezes e Jesus diz que vai ser traído, mas certo é que Jesus em João refere-se a Judas com um nome e em Mateus, jesus dirige-se a Judas como, amigo a que vieste? Amigo.

Em lado algum Jesus chama a Judas traidor. 

Esse coro de autores a que se junta esse achado fantástico do evangelho de Judas, uma cópia do século III dum evangelho gnóstico que seria do século II, dão conta que Judas,  até o próprio nome Iscariotes pode ligar-se aos Sicários, aquela sensibilidade mais radical e armada. Eram portadores da savage, dessa faca, esses mais radicalizados que querem o fim da ocupação Romana, esses que despoletarão confrontos com o império Romano,  possivelmente este Judas estaria próximo dessa sensibilidade e no fundo esses autores o que dão conta, bem como esse evangelho gnóstico de Judas, dão conta de uma espécie de boa vontade de Judas. Até nesse evangelho é o próprio Jesus que pede para precipitar tudo isto. Uns veem a impaciência de Judas outros veem oportunidade de começar essa libertação, oportunidade de começar esse tempo messiânico. Certo é que de facto este é o gatilho de todo o drama.

Fosse qual fosse a motivação, a causa, certo é que é a partir daqui que começa a nossa História da Salvação, é a partir daqui  que começa tudo  podíamos assim dizer.

E somos  salvos neste gesto improvável de um discípulo que vende o Mestre e nesta cena improvável de um Rabi, de um amado, daquele que já foi confessado como o Messias, como o  Filho de Deus Vivo, vendido como escravo. 

É um dia despoleta em cada de nós um sentimento de tristeza. Foi um dos nossos que entregou Jesus, foi um dos íntimos que traiu Jesus, que vendeu Jesus e em todos os tempos este texto é um confronto a cada discípulo: "Serei eu Senhor? Serei eu? 

Queremos responder a este texto dizendo: Eu não te quero vender Senhor, eu não te quero perder por nada...

Sintamos que este texto nos deixa o coração apertado, nos deixa lágrimas nos olhos mas que pede de nós uma consequência e queremos ser consequentes com o que sentimos, com a tristeza deste texto, Senhor, eu não te quero perder, Senhor eu não te quero vender por nada...

Sintamos que este texto é um estímulo a cumprirmos a Páscoa, o mesmo é dizer, este texto é um estímulo a começarmos desde já  a pôr em prática a forma de amar à maneira de Jesus: "Amai-vos como Eu vos Amei". Uma forma de amar desmesuradamente cuidadosa, uma forma de amar tão criativa que inclui todos e não deixa de fora ninguém. Admitamos que este texto na vida de cada um, não está feito, não está cumprido, está em aberto, é um convite.

Senhor eu não te quero perder, quero amar como tu me amas.

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Semana Santa – Quarta-feira | Lisboa, 13 de Abril de 2022 Isaías 50,4-9 e Mateus 26,14-25.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/04/13/salvos-no-improvavel-2/

 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Fará sentido viveres com medo de quem te conhece?

Amados imperfeitos

E como queremos que seja entre nós?