Salvos na ausência (reposição)

  

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Há muitos séculos que na igreja encenamos nestes dias os últimos dias da vida de Jesus. 

E quase que cada dia desta semana, da Semana Maior, da Semana Santa, quase que cada dia se reveste de um caráter. 

Lembramos o domingo de Ramos, naquele virar de registo, começa com uma aclamação e de repente lembramos tudo o que acontece a Jesus naquela subida a Jerusalém. Começamos com um êxtase e terminamos com um profundo vazio, uma profunda ausência, um profundo silêncio.

Lembramos a traição na quarta-feira, lembramos a Ceia na quinta-feira, hoje lembramos a tortura de Jesus e a sua morte, amanhã ouve-se o silêncio do túmulo, e no primeiro dia da semana o silêncio da Ressurreição, o silêncio do recomeço, o silêncio onde nos sentimos incluídos e protagonistas.  

Porém, apesar de nos habituarmos a encenar ao longo de séculos, a encenarmos a vida de Jesus nesta semana, a vida de Jesus é o nosso tesouro por ser inteira, a vida de Jesus e o que temos de mais precioso no coração por ser inteira, em cada dia da nossa vida, lembramos Jesus inteiro, amamos Jesus inteiro, seguimos Jesus inteiro, queremos imitar Jesus inteiro, Morto e Ressuscitado, Incompreendido e Triunfal, Sacerdote e Cordeiro, Poderoso e Frágil! Em cada dia da nossa vida a relação com o nosso Amado Jesus é uma relação de Vida inteira a Vida inteira.

E porventura a tarefa que Ele nos deixa na mão, talvez seja essa a nossa verdadeira Páscoa, é a tarefa de inteirarmos a nossa vida, e a forma como inteiramos os nossos fragmentos,  a nossa fragilidade é contribuindo para a inteireza de outros, para a inteireza dos fragmentados de outros, da fragilidade de outros é fazendo a outros o que Ele fez connosco, amando como Ele nos ama, tolerando e compreendendo como Ele nos tolera e nos  compreende e dessa forma a nossa Páscoa que nos cumpre celebrar, é essa ampliação onde cabe a vida inteira e onde ninguém fica para trás. 

Ao longo de séculos que este dia nem conhece o sorriso, durante muito tempo neste dia não se cantava, não se assobiava, não se gracejava, por ser um dia muito sério e um dia muito triste.

E verdadeiramente este dia foi um absurdo, foi um absurdo para os discípulos de Jesus. Que tudo estivesse muito estranho, que tudo estivesse a adensar-se, que as coisas fossem correr mal, Jesus sabia o que tinha dito e o que tinha feito e sabia que as coisas não correriam bem.

Os discípulos foram intuindo aqui e ali que as coisas estavam apertadas, agora um processo tão parvo, um processo tão injusto, uma morte tão rápida, tão entranha, um falhanço daquele tamanho, tudo foi um absurdo aos olhos dos discípulos 

e deixemos que esse dado também nos visite pela primeira vez, admitamos o absurdo que foi a morte de Jesus, apresenta-se como um absurdo em todos os tempos  um absurdo por aparentemente ter sido uma coisa escusada e por vermos que Jesus não se mexe para se safar, nós que somos feitos da mesma massa, é tão instintivo safarmo-nos, e cada um já tem história suficiente para se lembrar da forma como se foi safando quando a corda apertava.

Medimos porventura a nobreza de carácter quando somos capazes de na hora do aperto nos lembrarmos não só do nosso aperto, talvez porque o exemplo de Jesus tenha sido para todos os séculos um exemplo de descentramento, na hora da maior aflição, Ele parece preocupar-se com todos menos consigo.

Deixemos que a morte de Jesus nos deixe mudos, deixemos que ela continue a apresentar-se como um absurdo, os discípulos não imaginavam aquilo, não imaginavam que isto ia ser assim, e nenhum dos excessos anteriores preparou os discípulos, nenhum dos excessos anteriores os preparou, apanhou-os desprevenidos, foram surpreendidos pelo julgamento estranho de Jesus e pela sua morte.

E bem que podíamos dizer que Jesus ainda que decidido se confessa impreparado. É fácil comovermo-nos com as frases que os evangelistas colocam na boca de Jesus, 

"a carne não está pronta, a carne não está pronta"

Jesus poderá ter o coração decidido e assumir aquilo que disse e aquilo que fez, mas a carne não está pronta.

E vemos Jesus livre, a tomar decisões e a aceitar decisões que tomam sobre si e vemos o drama a avançar, decisão a decisão, silêncio após silêncio, mal entendidos sobre mal entendidos, falso testemunho sobre falso testemunho, até chegar ao momento mais chocante, ao momento mais absurdo para todos os discípulos, Jesus morre abandonado e nós não conseguimos suportar isso. Jesus morre abandonado, todos o abandonam.

João é o único que inventa uma cena, uma cena ímpar, não vem noutros  evangelhos, coloca uma espécie de claque aos pés de Jesus, coloca aqueles que nós  não conseguíamos suportar a sua ausência. 

Coloca umas mulheres Maria, entre elas a mãe de Jesus, e o mais que tudo, o discípulo mais querido, o discípulo mais amado. 

Talvez João ao escrever o evangelho não suportaria a ausência dos discípulos. Jesus morre abandonado e para Ele ter escolhido a salmo que escolheu, "meu Deus até tu me abandonaste - porque me abandonaste? - a que me abandonaste?"

A Cruz é o cúmulo do abandono!

O condenado não morre na terra, morre suspenso, como que erguido da terra, está dito que a terra não te quer e ficando suspenso no madeiro, é dito que os céus não te querem. 

A terra não te quer e o céu não te recebe e não há ninguém que não se deixe escandalizar com este símbolo, não há ninguém que não ache uma loucura, não há ninguém que não ache uma loucura, não há ninguém que não ache um absurdo. 

E apesar de esse ser o emblema do nosso clube, apesar de esse ser o símbolo que usamos desde a nossa infância até à hora da morte como cristãos, deixemos que este símbolo nos surpreenda hoje, deixemos que nos inquiete, nos desperte, nos escandalize. 

Paulo insiste no escândalo da Cruz, para judeus é um verdadeiro escândalo, a Cruz é o símbolo máximo desse Jesus que não se safa. Jesus não se safou.

E porventura esse é o gatilho que faz disparar a vida dos discípulos. Cumpre-se a finalidade da vida de Jesus, a vida inteira foi cuidando e a vida inteira foi não se safando.

E isso apresenta-se como um caminho inaugural querido discípulo, é um caminho a inaugurar. Já não presos na vingança de um julgamento injusto, já não presos no instinto de safar-nos, somos desafiados a construir um caminho, a construir um outro Caminho. 

Um caminho livre, onde caiba a minha fragilidade e a vida de outros, os meus fragmentos e as feridas dos outros.

Talvez por isso, muitos dos que chamamos os padres da Igreja, os pais da Igreja, aqueles verdadeiros Rabis, verdadeiros Mestres que sucederam aos Apóstolos e criaram também eles "escolas de discípulos", para descobrirem Jesus ou imitarem Jesus, esses padres da Igreja, esses pais da Igreja, sempre destacaram a solidariedade da morte de Jesus.

De facto é possível vermos neste grito de sofrimento e nesta vida dada até ao fim, é possível mergulharmos a nossa vida, é possível sentirmos a nossa vida a caber, é possível simpatizarmos com Jesus a ponto de as suas dores serem as nossas, a ponto de as nossas dores caberem nas suas.

Jesus não se safou, a Cruz é símbolo dessa recusa a safar-se, a cruz é símbolo de vida amorosa, de inclusão até ao fim e por isso é o símbolo do nosso clube, e por isso é  o símbolo que temos mais precioso. E para que tudo caiba, para que caiba a tua vida, meu querido Discípulo, meu querido Teófilo, meu querido Amigo de Deus, para que caiba a tua vida, as tuas riquezas, as tuas feridas, a tua experiência, a tua história, para que caiba tudo, Jesus retira-se para que tu caibas, Jesus ausenta-se. 

E hoje, a Igreja lida com a ausência de Jesus, hoje saboreamos a verdade de sermos salvos na ausência, só dando espaço é possível caber!

Sim, ao devolver o Seu Espírito, como diz literalmente o evangelista João, nestes dois capítulos que hoje líamos, o capítulo 18 e 19, ao devolver o Espírito, na tradução portuguesa da liturgia aparece expirou, entregou o seu Espírito, entregou o hálito. Aquele que no livro princípio, no livro do Génesis fez viver o feito de terra, o tirado de Adama, o Adam, o terreno, insuflou-lhe um sopro de vida e vemos Jesus devolver esse sopro de vida.

Ausentou-se para que caibas tu, para que entre tu em cena. E de facto a partir da morte de Jesus entramos nós em cena, entramos nós em cena. Voltamos nós à Galileia, encontramos sentido na vida de Jesus, encontramos sentido na Sua Palavra, nos Seus Gestos, 

para que tu sejas protagonista querido discípulo, ausento-me eu. 

Este dia de sexta-feira Santa ao longo de muito tempo até ao dia de hoje, é o dia em que lidamos com esta ausência. Choramos esta ausência, mas queremos também dizer uns aos outros, ATÉ NESTE DETALHE JESUS É UM FAZEDOR DE VIDA. ATÉ NESTE DETALHE É UM GERADOR DE VIDA. Ausenta-se para que tu entres, diminui para que tu cresças.

Muitos autores ao longo dos séculos tentando digerir esta verdade tão difícil de um Deus que se ausenta, de Jesus que se ausenta,  muitos autores falam da descida de Jesus ao mundo dos mortos  ao adus da mitologia grega, ao cherol na cosmovisão judaica, aos infernos, ao mundo inferior, na cosmovisão da mitologia latina, e há leituras de vários autores que vem resgatar o homem velho, o Adam, e nos deixa a possibilidade de em Jesus a nossa vida renovar-se e de construirmos o Homem Novo.

Hoje é o dia em que saboreamos a ausência de Jesus e essa viagem misteriosa até à nossa morte. Jesus visita a nossa morte, Jesus vai até às nossas mortes, às nossas perdas, até às nossas vergonhas, como se entranhasse até à medula, como que dizendo que nada da nossa vida fica de fora, como que dizendo que nada da nossa vida se torna estranho a Jesus. 

Nada é vergonhoso, nada é morto, nesta ausência de Jesus pelo adus, nesta ausência de Jesus pelos mundos inferiores, nesta ausência de Jesus pelo reino dos mortos, como muitos autores foram dissertando e fantasiando, saborearmos Jesus que vem ao nosso encontro de todas as maneiras.

que assume a nossa história de todas as maneiras, que ama a nossa história de todas as maneiras. Com todas as suas feridas, com todas as suas perdas, com todas as suas vergonhas... e só assim é possível erguer-se, só verdadeiramente amados é possível erguermo-nos. E erguemo-nos porque amados inteiramente.

Que neste dia seja possível sentirmos este abraço existencial de Deus, este abraço de Deus a tudo o que nos diz respeito, essa escolha de Jesus de toda a nossa fragilidade.

Reconciliemo-nos com a ausência genial de Deus, o que seríamos nós sem a ausência de Deus? 

É a ausência de Deus que nos faz adultos, é a ausência de Deus que diz que Ele nos leva a sério, e não decide por nós e não faz por nós.

Amemos a ausência de Deus, reconciliemo-nos com esta ausência de Deus que permite, como recorda o Salmo, que possamos dizer que somos Deus, e se isto nos choca podemos traduzir, nesta ausência podemos dizer verdadeiramente que SOMOS IMAGEM DE DEUS, A IMAGEM MAIS PARECIDA COM JESUS. 

Saboreemos a Cruz como nosso símbolo amado  e como símbolo do nosso amado, saboreemos a Cruz como vida até ao fim, saboreemos a Cruz vazia que nos recorda a viagem de Jesus até cada um de nós, com toda a nossa história, saboreemos o silêncio que desde esta noite, até ao nascer do Sol do Primeiro Dia da Semana nos deixa em questão e em aberto, unamo-nos à morte de Jesus, unamo-nos a todas as mortes, unamo-nos à morte dos nossos próximos, dos nossos amados, dos frágeis e feitos de barro como nós, unamo-nos ao sofrimento do mundo nesta noite. Sintamos que muito nos é pedido nesta ausência de Deus, muito nos é pedido, o nosso afeto, as nossas mãos, os nossos trabalhos, o nosso cuidado, tudo isso é preciso para cuidarmos do sofrimento do mundo nesta ausência do nosso amado, e preparemo-nos para em cada gesto de cuidado vermos a VIDA A REERGER-SE, VERMOS A VIDA A RESSUSCITAR.

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Semana Santa – Sexta-feira | Lisboa, 15 de Abril de 2022. | Isaías 52,13 – 53,12; Hebreus 4,14-16 – 5,7-9 e João 18,1 – 19,42.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/04/15/salvos-na-ausencia-reposicao-2/

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/04/02/salvos-na-ausencia-reposicao/

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2020/04/10/salvos-na-ausencia/

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