mais cómodo é mudar a lei do que a mentalidade
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Acolhamos estes textos que nos foram servidos, acolhamos a palavra de Paulo aos Filipenses, um convite ao despojamento.
É esse convite que todos os anos, a pretexto da quaresma, reforçamos.
Despojar, despojar... nós que andamos na cidade de um lado para o outro e às vezes temos que carregar a mochila, a mala, percebemos o que é levar tralha a mais. Nos que, aqueles mais aficionados, se propõem fazer caminhadas, peregrinações. Quem já foi a Santiago, eu sei que há gente nesta casa com vontade de organizar qualquer coisa a Santiago, cem gramas a mais na mochila é tralha. É tralha que incomoda, que cansa, que faz com que caminhemos de modo mais desconfortável.
Uma vez por ano, sendo este tempo simbólico, dadoque a quaresma é a vida inteira, e é um tempo pascal, é um tempo de conversão, de revisão, somos convidados a este despojamento, a revermos a tralha com que caminhamos.
Acolhamos estes textos que nos foram servidos, acolhamos a palavra de Paulo aos Filipenses, um convite ao despojamento.
É esse convite que todos os anos, a pretexto da quaresma, reforçamos.
Despojar, despojar... nós que andamos na cidade de um lado para o outro e às vezes temos que carregar a mochila, a mala, percebemos o que é levar tralha a mais. Nos que, aqueles mais aficionados, se propõem fazer caminhadas, peregrinações. Quem já foi a Santiago, eu sei que há gente nesta casa com vontade de organizar qualquer coisa a Santiago, cem gramas a mais na mochila é tralha. É tralha que incomoda, que cansa, que faz com que caminhemos de modo mais desconfortável.
Uma vez por ano, sendo este tempo simbólico, dadoque a quaresma é a vida inteira, e é um tempo pascal, é um tempo de conversão, de revisão, somos convidados a este despojamento, a revermos a tralha com que caminhamos.
A revermos comunitáriamente e pessoalmente, as ferramentas que transportamos.
Pode dar-se que algumas das ferramentas que carregas já não sirvam para nada, estejam desajustadas. Que bom se aproveitássemos este tempo para rever as ferramentas que transportamos, na certeza de que o propósito dessa revisão é a metanoia, é a palavra grega para dizer, a mudança de mentalidade.
Este tempo de quarenta dias é simbólico, a vida toda é um convite à mudança de mentalidade, é um convite à metanoia. Nós traduzimos por conversão e é fácil cair em moralismos com a conversão. Mas vamos, deixemos ecoar o sentido mais radical, mais literal, a quaresma concorre para a mudança de mentalidade, que é a coisa mais demorada e mais difícil na nossa vida, e se calhar quanto mais tempo somamos à nossa idade, mais complexo se torna. E porventura há feitios e feitios, há perfis, há personalidades, uns talvez mais inseguros são capazes de ter vantagem na hora de se interrogar a si próprios se aquilo que estão a dizer, a fazer, a escolher, concorre para o bem de alguém, se ergue alguém e se acrescenta à vida de alguém. Outros há que têm mais dificuldade em interrogar-se a si próprios, se calhar para esconder fragilidades, para reagir a fragilidades. Vamos, a quaresma serve para todos os perfis, para todas as personalidades, serve para ti, serve para mim, cada um no seu ritmo e respeitamo-nos com isso.
Possa este tempo ser um tempo de despojamento e de mudança de mentalidade e se não conseguirmos, possa este tempo ajudar ao despojamento e ajudar à mudança de mentalidade.
Para que possamos brindar com Isaías aos recomeços.
Isaías dirigia-se a um povo exilado prestes a ser liberto e a ver já no
horizonte a possibilidade de se reerguer, de recomeçar.
O texto que nós escutámos hoje no evangelho, mesmo a abrir o capítulo VIII de João (não sou ninguém para discutir a redação, para discutir o que é que aqui se passa porque eu não sou competente para isso), mas deixo-vos a curiosidade, é um texto difícil de arrumar porque foi um acrescento.
Não quero dizer que isso diminua a importância do texto.
É um acrescento, é omisso aos comentários, por exemplo até ao século IV, durante o primeiro milénio passa entre os pingos da chuva e por exemplo no segundo milénio, começa a aparecer com mais frequência nos comentários ao evangelho.
Apresentam a Jesus, Jesus está no templo a fazer o que ele costumava fazer. Nós herdando uma espécie de pensamento romântico do século XIX, achamos que ele se dedicou a fazer cadeiras e a aplainar tábuas para fazer mesas. A verdade é que ele aprendeu a Torá e só havia duas escolas para aprender a Torá, no templo e numa estrutura marginal de uma comunidade marginal, como por exemplo os essénios, percebemos que ele com o templo não tem nada a ver, nem sequer é conhecido, portanto ele há ter-se dedicado a aprender a escritura numa comunidade marginal, possivelmente essénios, fica também a vontade de irmos ler coisas ou procurar coisas.
O texto que nós escutámos hoje no evangelho, mesmo a abrir o capítulo VIII de João (não sou ninguém para discutir a redação, para discutir o que é que aqui se passa porque eu não sou competente para isso), mas deixo-vos a curiosidade, é um texto difícil de arrumar porque foi um acrescento.
Não quero dizer que isso diminua a importância do texto.
É um acrescento, é omisso aos comentários, por exemplo até ao século IV, durante o primeiro milénio passa entre os pingos da chuva e por exemplo no segundo milénio, começa a aparecer com mais frequência nos comentários ao evangelho.
Apresentam a Jesus, Jesus está no templo a fazer o que ele costumava fazer. Nós herdando uma espécie de pensamento romântico do século XIX, achamos que ele se dedicou a fazer cadeiras e a aplainar tábuas para fazer mesas. A verdade é que ele aprendeu a Torá e só havia duas escolas para aprender a Torá, no templo e numa estrutura marginal de uma comunidade marginal, como por exemplo os essénios, percebemos que ele com o templo não tem nada a ver, nem sequer é conhecido, portanto ele há ter-se dedicado a aprender a escritura numa comunidade marginal, possivelmente essénios, fica também a vontade de irmos ler coisas ou procurar coisas.
Jesus está no templo a fazer aquilo para que se preparou, para ser um Rabi, para falar da escritura, para falar da lei, e mais que isso, para se apresentar Ele próprio a nova Lei.
E para isto João recorre a detalhes, a lei de Moisés foi esculpida em pedra pelo dedo de Deus, e simbolicamente o autor coloca Jesus aninhado aos pés daquela mulher que todos consideravam pecadora,
põe-no aninhado a escrever com o dedo, não já em pedra, que fica para sempre, mas no chão, na terra.
Há comentários de autores que dizem que Jesus começou a escrever os pecados daqueles que acusavam aquela mulher, é do domínio da fantasia, cabe o que a gente quiser, desde que ajude a entrar nesta cena, neste texto.
Olhemos é para este detalhe que João não quer que nos passe ao lado, este de quem te falo querido leitor é Deus, é Deus que te quer falar, é o Deus de Jesus, quero colocá-lo a escrever com o dedo uma nova lei, já não é a lei implacável que esmaga, é uma lei que por ser escrita na terra é à tua medida, possivelmente amanhã é apagada, é refeita, porque a obsessão de Jesus é a não condenação.
E qual é a obsessão daquela gente, diz-nos o texto, daqueles escribas e fariseus, chegam junto de Jesus com uma mulher e dizem, na lei está escrito que é para apedrejar estas mulheres.
(e Jesus se visse televisão era capaz de dizer, então vamos ao polígrafo... vamos fazer um polígrafo fariseu - chico esperto, ele diz que na lei é para apedrejar estas mulheres, então vamos lá à lei, por exemplo, Deuteronómio 22, 23 e 24, eu percebo que isto soe muito estranho aos nossos critério e à nossa mundividência, vou pedir-vos que aceiteis o que aqui está escrito com muita bondade
"Se
um homem for apanhado em flagrante deitado com uma mulher casada, ambos
serão mortos, o homem que se deitou com a mulher e a mulher, deste modo extirparás
o mal de Israel, tenho ideia que aqui só apresentaram a mulher, a lei
diz é para apresentar o homem e a mulher.
Se houver uma jovem prometida a um homem e o homem a encontrar na cidade e se deitar com ela, trareis ambos à porta daquela cidade e os apedrejareis até que morram, a jovem por não ter gritado por socorro na cidade e o homem por ter abusado da mulher do seu próximo. Deste modo extirparás o mal (...) contudo se o homem encontrou a jovem prometida no campo, violentou-a e deitou-se com ela, morrerá somente o homem que se deitou com ela, nada farás à jovem, porque ela não tem um pecado que mereça a morte,
Se houver uma jovem prometida a um homem e o homem a encontrar na cidade e se deitar com ela, trareis ambos à porta daquela cidade e os apedrejareis até que morram, a jovem por não ter gritado por socorro na cidade e o homem por ter abusado da mulher do seu próximo. Deste modo extirparás o mal (...) contudo se o homem encontrou a jovem prometida no campo, violentou-a e deitou-se com ela, morrerá somente o homem que se deitou com ela, nada farás à jovem, porque ela não tem um pecado que mereça a morte,
polígrafo
fariseu - chico esperto, pimenta na língua, está mais ou menos certo.
Sim, está esta mulher que trazes e o homem? Será um destes, será um destes acusadores? Onde está?
João coloca em evidência duas obsessões, a obsessão de Jesus por não condenar e a obsessão destes puros por condenar.
O que é que fizeram da lei? A lei foi criada e nós entendemo-la também assim, mesmo que às vezes precisemos de engolir em seco ou tomar um copo de água, a lei foi feita para que vivamos bem, as leis são feitas para que vivamos bem para que não nos agridamos, para que possamos viver em paz, e se estão mal feitas havemos de revê-las, havemos de fazer novas, revogar as anteriores, é para isso que serve a lei.
Para que serve a lei daquele puros? Serve como ocasião de eliminação, serve como ocasião de agressão, serve como deteção de escândalo, enquanto olham para aquele escândalo não olham para mim.
O escândalo é a fragilidade exposta e enquanto todos nos espantamos com o escândalo não olham para mim, não olham para mim. Já que, a verdade é que somos todos frágeis.
Arnaldo Pangrasi um autor que deu um grande contributo a isto da assistência espiritual nos hospitais, por exemplo, repete a cada passo a expressão: debaixo da roupa estamos todos nus.
E é assim que Jesus olha para todos, incluindo para aquela mulher, com a bondade de reconhecê-la igual, a bondade de reconhecê-la semelhante.
E aqueles homens o que fazem com a lei, com estes malabarismos, em certa medida é disfarçar a sua condição de frágeis.
E se é verdade que a sabedoria popular diz que a melhor defesa é o ataque, a verdade é que quem muito ataca muito tem a defender, e isto é evidente, este cenário é evidente.
Com aquela sede de ataque para esconder aquilo que são, para disfarçar, percebemos pela frase de Jesus, que eles próprios se revelam frágeis.
E isto para nós, nós somos administradores do sonho de Jesus, fomos herdeiros de um tesouro e queremos passá-lo à geração seguinte e queremos experimentar vida em abundância e queremos que a intuição de Jesus, "vim para que todos tenham vida e a tenham abundantemente", queremos que se concretize hoje nas nossas escolhas, nos nossos gestos, nas nossas palavras.
Possa a lei ser uma ocasião de revisão pessoal, possa a lei ser uma ocasião de revisão pessoal e não de arma de arremesso.
Possa este tempo ajudar a reconhecer que quando a lei é para medires o outro e para usar como arma de arremesso, é tralha, é tralha.
É ferramenta a mais na mochila e que pesa e é carregada desnecessariamente.
De cada vez que usas a lei para medir outros ou como arma de arremesso a mentalidade é pequenina, safas-te tu, queres tu safar-te e mais ninguém.
Este é o tempo da mudança de mentalidade, deixemos que estes textos façam Páscoa connosco, que estes textos concorram para a metanoia, para a mudança de mentalidade.
Queremos aceitar a lei na sua bondade e nas suas limitações como ocasião de revisão pessoal para que, confrontados com a nossa fragilidade, despojemos tralha, mudemos mentalidade e possamos imitar Jesus erguendo-nos uns aos outros.
(V domingo da quaresma C - mais cómodo é mudar a lei do que a mentalidade breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 2 de Abril de 2022. | Isaías 43,16-21; Filipenses 3,8-14 e João 8,1-11.)

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