libertos de previsões


Queridas irmãs, queridos irmãos  

Maria Madalena foi de manhã cedo ao sepulcro de Jesus com mirra, bálsamos e outros perfumes, para cuidar pela última vez do corpo do seu amado.

Saiu com uma surpresa no peito e foi a correr ter com os discípulos que lhe perguntaram,

Diz-nos o que vistes, Maria:
Que viste no caminho?

Vi o sepulcro de Cristo vivo
e a glória do Ressuscitado.
Vi Anjos suas testemunhas,
vi o sudário e as vestes.

Ressuscitou Cristo, minha esperança!
Pediu aos seus irmãos para voltarem à Galileia.

Estamos aqui hoje porque o túmulo estava vazio, estamos aqui porque Maria Madalena foi a correr dizer aos discípulos o que viu, estamos aqui porque todos os irmãos de Jesus aceitaram recomeçar voltando à Galileia.  
Esta noite é inaugural e nela cabem todos os nossos regressos e recomeços, esta noite inédita ergue-nos feridos e inteiros, esta noite abriga o nosso desejo e a promessa.

A celebração desta noite abre-se em quatro pórticos: a luz, palavra, água e pão. 

Começamos agora na sombra, e as feridas que nos trouxeram até esta noite, são as frechas por onde a luz nos visita.

Do silêncio do túmulo vazio erguer-se-á a Palavra em Carne Viva.
A água em que mergulhamos na vida de Jesus refresca e lava a nossa sede.
A fome que apressa os nossos passos converter-se-á em pão partido.
Celebremos Cristo Páscoa de Páscoas.

(evangelho: No primeiro dia da semana...)

"Esta é a madrugada que eu esperava, o dia inicial inteiro e livre, onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância do tempo". 

Queridas irmãs, queridos irmãos queridos amigos 
Acolhamos estas palavras de Sofia, na certeza de que se Madalena tivesse lido estas palavras as gritaria na manhã da Ressurreição. 
O que tem de diferente a manhã da Ressurreição?

Para vos ser sincero sou pouco sensível à Vitória, à leitura da Ressurreição como Vitória.
E a verdade é que a leitura da Ressurreição como Vitória, esconde a nossa vingança, esconde aquela arrogância de quem tem a última palavra, esconde a intolerância à perda, esconde intolerância à diminuição, à alternativa...

O que é que aconteceu naquela noite? O que é que aconteceu nesta noite?
Aconteceu silêncio, depois de um estrondo, acrescentou silêncio, aconteceu ausência, aconteceu termo. E não temos outra palavra para dizer silêncio, ausência e termo, não temos outra palavra para descrever o que aconteceu, sem ser derrota e falhanço.  

Ponham-se lá nos pés daquelas mulheres, as mais fiéis são mulheres, ponham-se lá nos pés daquelas mulheres fiéis a Jesus, ponham-se lá nos pés daqueles discípulos completamente despistados e a pensar bom, a seguir somos nós. 

Derrota e falhanço, não temos outra palavra para dizer o que aconteceu naquela noite.
A Páscoa acontece sim, na leitura e na interpretação deste sim, na leitura e na interpretação daquela noite e daquela madrugada. Da vida de Jesus até ao fim! 

Ele não se safou, Ele não se salvou! E esse é o princípio da Páscoa. 
Ele que curou, que ergueu, que salvou, que safou tantos e nunca se curou, nunca se ergueu, nunca se salvou e nunca se safou.
Diz-nos o texto grego, literalmente o verbo que usa para dizer ressuscitou, nós traduzimos por ressuscitou, literalmente o verbo que lá está FOI ERGUIDO, não está aqui, foi erguido. 

Porque procurais o Vivo entre os mortos? Foi erguido!

Se quiséssemos a Páscoa, é um OUTRO que te Salva, é um outro que te salva da tua mesmidade.
Na noite de hoje cabe a nossa vida toda.

Neste túmulo cabem as nossas perdas e também as nossas conquistas. 
No túmulo de hoje cabe o silêncio da perda e o silêncio das flores. 
Por isso escutámos leituras que querem falar de tudo desde o princípio do mundo. Porque nesta noite cabe tudo desde o princípio do mundo.

E víamos nestes textos a nossa memória, a memória do nosso povo, da nossa comunidade humana e nesta narração cabe tudo.

Lembremos as narrações destes dias, a narração da Paixão, neste túmulo, nesta noite cabe isto tudo. Cabe paixão, cabe traição, cabem feridas...

Qual é a grande derrota desta noite? Qual é a grande derrota?
As nossas previsões. É derrotada a previsão nesta noite, são derrotadas as nossas previsões esta noite.

Se quiséssemos, a vida calculada, a vida emprestada, a vida medida, talvez seja a grande derrotada desta noite!
O excesso de amor de Jesus, o excesso de amor a que se refere Clarisse Lispector falando do bobo, o excesso de amor de Jesus mata para sempre as previsões, mata para sempre os nossos cálculos.

Eu como os discípulos, e estou seguro que falo por vós, eles que também viram na vida de Jesus até ao fim a morte dos cálculos, da vida medida. Eu também estou com os apóstolos, com os discípulos, com a apostola dos apóstolos e com aquelas mulheres, eu também só posso acreditar num Deus que pode morrer. E esta possibilidade abre todos os caminhos, e faz ver novas todas as coisas. Devolve-nos o trabalho da Páscoa e o trabalho da Páscoa diz-se num verbo: Erguer, erguer.
E quem é que percebeu isto tudo, quem é que percebeu a Páscoa?

Nós vamos pegando nos evangelhos e agora que chegamos ao fim da história, agora que conhecemos o fim da história, parece que lemos tudo o que está para trás com outros olhos, com outro olhar. Quem é que percebeu isto tudo?

Olha, quem ouve é surdo, é uma espécie de surdo. Se quisermos, naquele evangelho simbólico que são os dois primeiros capítulos de Lucas, quem ouve Jesus é João Batista intrauterino, é João dentro de Isabel, Lucas coloca João a ser o primeiro a ouvir, ele que não deve estar a ouvir coisa nenhuma. 
Quem ouve o Messias pela primeira vez é uma espécie de surdo, quem vê é um cego Jesus filho de David compadece-te de mim"! 
Quem vê Jesus foi um cego, quem provou com os lábios, quem provou a pele de Jesus com os lábios, foi aquela mulher pecadora que não tinha lugar para estar à mesa, e foi para debaixo da mesa lavar os pés com lágrimas e enxuga-los com cabelos e dar aos pés de Jesus o ósculo que o anfitrião não deu. Quem toca em Jesus?

Lembram-se daquela mulher que foi entre a multidão? Era uma mulher intocável, era uma mulher com um fluxo de sangue, uma mulher impura, é ela que toca em Jesus. E quem o cheira, talvez aquela Maria que em Betânia derrama uma libra de perfume e faz de Jesus perfume.

São estes paradoxos que nos preparam para a Páscoa, que nos prepararam também para a Páscoa.
São os mais treinados à surpresa que vêm no túmulo vazio tudo, são os mais treinados à surpresa tudo e compreendem que é para recomeçar, e é para fazer de novo, é para voltar à Galileia, é para erguer todos sem pensar safar-se.
Fomos libertos das previsões, fomos salvos na surpresa!

(libertos de previsões - Madrugada de Páscoa C- breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Noite de Páscoa C | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 16 de Abril de 2022. Génesis 1,1 – 2,2; Êxodo 14,15 – 15,1; Romanos 6,3-11 e Lucas 24,1-12.)

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