sabes falar de páscoa sem despojamento?

 

Queridas irmãs, queridas amigas

Uma santa páscoa para a vossa comunidade e para cada uma de vós, é isso que nós dizemos em cada dia de quaresma.

Aliás, quaresma fala-nos de uma quantidade fala-nos de quarenta dias e páscoa fala-nos de uma qualidade, da forma como queremos viver estes quarenta dias sem nos esquecermos que começamos a uma quarta-feira para que o número bata certo, com o sábado santo são quarenta dias se excluirmos os domingos... para nos lembrarmos que nós já sabemos o fim da história.

Nós estamos aqui para nos lembrarmos que nada é mais forte do que o dom, nem a morte é mais forte do que o dom, do que a vida dada e por isso recordamos cada domingo como a nossa páscoa, como o sentido da nossa vida e por isso queremos fazer do caminho quaresmal, um caminho verdadeiramente pascal.

Podemos não saber bem qual vai ser o nosso estado no final do caminho, sabemos desde já no coração que não queremos ficar na mesma. 

Sim, a primeira leitura falava-nos de escolhas, o livro do Deuteronómio falava de escolhas, coloco diante de ti a possibilidade de escolher, é verdade que isto do ponto de vista literário resulta melhor do que na vida de cada dia, nós não escolhemos entre duas coisas, nem escolhemos entre uma coisa horrível e uma coisa ótima, não havia uma pessoa que fosse tão totó capaz de escolher a coisa horrível, nós escolhemos coisas boas e aparências de bem e escolhemos coisas boas onde cabemos nós e as nossas seguranças e coisas boas onde cabemos mais, cabemos nós.

E talvez seja isto que esteja escrito no parágrafo que escutámos do capítulo IX do evangelho de Lucas e talvez o próprio capítulo IX ajude a interpretar estas palavras, ajude a mergulhar nestas palavras, ajude a saborear até o sentido da nossa quaresma.
Neste capítulo IX é-nos servida uma abundância, uma refeição abundante, Jesus pede aos seus discípulos para dar de comer a uma multidão sendo que esses discípulos, de facto, se compadecem dessa multidão. 

(Jesus já são horinhas, deixa-os ir para se alimentarem) e Jesus pede, dai-lhes vós de comer! 

Eles não sabem como é que isso se faz, não dá, o que temos não dá... 
E Jesus demonstra-lhes que o que têm chega. E é porventura nessa experiência de abundância que nasce a frase de Pedro quando Jesus curioso pergunta aos discípulos, o que que vocês estão a apanhar? O que que vocês perceberam até agora? O que é que dizem que eu sou e para vós eu sou quem?

E talvez a resposta de Pedro se leia neste registo da abundância: Tu és o Messias e nós havemos de ir contigo para todo o lado e Jesus pede-lhe, Ouve agora, ouve agora o que eu tenho para dizer... E a forma que Jesus tem para dizer essa diferença de um outro Messias,  até nem é só com discursos que isso acontece. No capítulo IX percebemos que Jesus abandona o registo da Galileia e, diz-nos o narrador, a partir daqui Ele quer ir a Jerusalém. E se no evangelho de João ele sobe várias vezes a Jerusalém, nos sinóticos Ele sobe apenas uma vez a Jerusalém, e sabemos mais ou menos os episódios.   

Em certa medida Jesus responde a Pedro e responde a cada um de nós, sim eu sou isso tudo para ti, eu sou o teu mais que tudo, mas vamos falar sobre isso... quais são as tuas expetativas Pedro? 
Pedro ao dizer que Jesus é o Messias, em certa medida projeta em Jesus a segurança de todas as suas seguranças, o depósito de todas as suas seguranças, o depósito de todas as suas esperanças... Sim, acertei, escolhi-Te a ti como Rabi e acertei, tenho o futuro garantido. E Jesus pede a Pedro que abandone o registo da abundância e escolha o registo do despojamento.

E é porventura esse percurso que o próprio evangelista faz connosco seus leitores, havemos de querer escolher abandonar o registo da abundância e escolher o registo do despojamento. E qual é o propósito de tudo isso? Porventura a abundância que maravilha Pedro e os seus companheiros, é a abundância da vida guardada, guardamos, acumulamos para termos a vida, para termos vida em abundância, e Jesus por palavras e por gestos demonstra que a vida doada, a vida partilhada, torna-se abundante e é SER ABUNDANTE. O Dom é SER abundante e a vida guardada é TER abundante.

Façamos esse caminho que Lucas pede aos seus leitores e que Jesus pede aos seus discípulos, queremos encontrar no dom de nós próprios a abundância de ser e isso experimentamos nas nossas relações. A relação é verdadeiramente o espaço onde sentimos a abundância do ser, a abundância da vida, porque não fica guardada comigo, não fica guardada nos meus confortos, nas minhas necessidades, na minha vontade de te ter a ti igual a mim e na vontade de fazer uma coleção de eus... é porventura outra coisa, o reconhecimento de que a tua diferença me enriquece, que é contigo que eu também sei quem sou e eu sou porque tu és.

Queremos olhar a relação e as nossas relações e os nossos laços, as nossas amizades, a nossa fraternidade, como verdadeiro espaço pascal onde se joga a escolha e o despojamento do dom de si, a escolha de não acumular a vida, não guardá-la onde só caibo eu e as minhas coisas. E é por isso que jejuamos e é por isso que damos esmola e é por isso que oramos. 

Não é para chegarmos ao fim da quaresma com mais dinheiro no bolso porque mais poupadinhos nos nossos vícios, não é para chegarmos ao fim da quaresma mais magrinhos e mais contentes de nos olharmos ao espelho, é para chegarmos ao fim da quaresma com LAÇOS MAIS APERTADOS, é para chegarmos ao fim da quaresma com a experiência de vida abundante pelo dom de nós próprios, pelo cuidado dos nossos laços, pela escuta, pelo silêncio, cada um saberá, cada uma saberá como dar forma à forma pascal como queremos olhar as nossas relações.

Possa o texto de hoje estimular a nossa Páscoa 

Possa a nossa disponibilidade olhar para as nossas relações como espaço onde, do despojamento, saboreamos a vida em abundância.

(sabes falar de páscoa sem despojamento? breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Quaresma – Quinta-feira depois das Cinzas C | Lisboa, 3 de Março de 2022. Deuteronómio 30,15-20 e Lucas 9,22-25.)


http://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/03/03/sabes-falar-de-pascoa-sem-despojamento/ 

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