o Deus que não sabe disfarçar
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Que bom que não precisamos de pretextos, de razões, de
justificações para nos sabermos em iguais circunstâncias, para nos fazermos
semelhantes, para nos fazermos próximos e a antecipando conclusões, talvez seja
esta a verdadeira razão da nossa alegria.
Mas vamos por partes, nós chamamos a este domingo, a
tradição foi chamando a este domingo, o domingo da alegria, um domingo para mos
alegrarmos, é mais ou menos assim o pedido que a liturgia nos faz. E faz assim
no penúltimo domingo da quaresma e faz assim no penúltimo domingo da quaresma
do advento.
Em tempos que, por serem de arrumos, por ser um tempo
muito prático como temos dito, um tempo de despojamento e de revisão de tralha
acumulada, pode dar-se que seja um tempo trabalhoso, pode dar-se que seja um
tempo, para alguns, mais árido.
Apesar de ser sempre um tempo que coincide com a
primavera, com a chegada da primavera, apesar de ser um tempo que coincide com
a chegada das flores, de seco não tem nada.
Mas enfim, para aqueles que estão mais cansados, a
liturgia resgata no penúltimo domingo desse caminho, quer do advento quer da
quaresma, uma bandeira da meta volante a dizer, já não falta tudo, já não falta
tanto, estamos quase, estamos quase.
Pode ser esse o sentido da Alegria, nos penúltimos
domingos do advento e da quaresma, estamos quase, nós hoje queremos dar um
salto, queremos dar um passo.
Não é bem isso, nós não estamos quase, alegria diz
pouco, a palavra alegria diz pouco, de facto por detrás de alegria o significado
é muito maior do que a palavra que é quase só descritiva. A palavra alegria
(alacrim) só significa sem lágrimas e vamos, até está mal dito, porque talvez
os dias de maior alegria, pensem lá as mães e os pais quando começaram a nascer
as crias, vejam lá se essa alegria até não foi envolta em lágrimas. As alegrias
mais fortes da nossa vida até nos põem a chorar, (alacrim) bom ficamos
assim.
A palavra é pequenina, meio descritiva, mas a verdade
é que quando nos pomos a falar de alegria o significado é bem maior do que a
palavra tão pequena.
Alegria! O que é que nos enxuga as lágrimas, o que é
que nos faz animados, o que é que nos entusiasma, o que é que nos faz saltar da
cama, qual é o propósito, qual é a finalidade? A alegria anda por aí.
A liturgia ao acenar nos penúltimos domingos a esta
coisa do ESTÁ QUASE, vai resgatar, escutávamos no livro de Josué, o povo está
quase a entrar na Terra Prometida, está quase, está quase a possuir a terra, e
por causa desse verbo, ainda hoje não se entendem naquela terra porque a lógica
da posse da terra, à parte isso estão quase a chegar, estamos quase a chegar
à terra onde corre leite e mel e para quem cem do deserto não é pouco, estamos
quase! Vamos por agora deixar a marinar.
E vamos olhar o evangelho, onde no capítulo XV de
Lucas, fica claro quem começam a ser os interlocutores de Jesus.
Os publicanos começam a avolumar-se na multidão dos
ouvintes de Jesus e Lucas faz questão de escrever, há publicanos a
acotovelarem-se para ouvirem Jesus. E donde é que eles veem? Hão-de vir dos
sacerdotes, dos escribas, dos fariseus e dos doutores da lei que na o suportam,
que não podem com ele. Os publicanos, simbolicamente são trabalhadores da
autoridade tributária, esculpem hoje profissão como as outras e muito honrada,
eram gente que ao recolher o tributo para Roma, tinham fama de arredondar para
si, arredondavam uns cêntimos, uns euros, umas coisas a mais, tinham fama de
aldrabões.
Aos olhos dos fariseus, aos olhos dos escribas, dos
doutores da lei, os publicanos era gente desprezível, trabalhava para o
inimigo, trabalhavam para Roma que eram inimigos do próprio Deus ao subjugarem
o povo escolhido pelo próprio Deus, ao conspurcarem a terra que Deus tinha dado
ao seu povo escolhido. Os publicanos, como outras profissões, eram tidos como
atenção, atenção, estes são pecadores. Eram conhecidos como pecadores públicos,
não tinham como disfarçar. Há autores que gostam de sublinhar isto.
Jesus deu-se muito bem com publicanos porque
publicanos eram pessoas e todas as pessoas vivem na mesma condição, numa
linguagem religiosa todos somos pecadores e os publicanos são os únicos que não
disfarçam. Os publicanos, entre outros pecadores públicos, são os únicos que
não disfarçam. Jesus gostava de pecadores que não disfarçam e irritava-se muito
comos pecadores que disfarçavam.
Ficamos com esta, partilhamos a mesma condição dos
publicanos e não nos envergonhemos disso porque Jesus até tem um carinho
especial por eles. Eles acotovelam-se na multidão, são alvo de censura dos que
disfarçam a sua condição de pecadores e Jesus conta uma história, e conta uma
história onde está lá a palavra alegria, o pai, no final da história, ao falar
com o filho mais velho diz, não há outra alternativa nós temos de alegrar-nos,
o teu irmão voltou, são e salvo, para nós é a maior alegria.
E talvez é escolhido o texto para o dia de hoje por causa
da alegria.
O que é que a história, que já sabemos de cor e salteado,
o que é que a história traz para os dias de hoje para falarmos de alegria e
sobretudo para darmos um passo, para superarmos aquilo que, a alegria é
estarmos quase, o que é que esta história acrescenta a isto?
O que é que faz com que a partir desta história
possamos dizer, a alegria já não é uma questão de quase, mas sim a alegria
porque já?
Que história bizarra que Jesus inventa, bem que podia
ter inventado doutra maneira, foi escolher uma família bizarra, uma família sem
mulher, sem mãe, sem esposa, o que é que ele quer dizer com isto? Não se
preocupem que ele tem a resposta, ficou assim, lembrou-se.
Se ele está a falar de Deus será que ele quer dizer
que Deus é pai e é mãe? Não sei, não está ali mãe nenhum. A verdade é que
aquele pai também se comporta como uma mãe.
Se (vamos por clichês e preconceitos), se ao pai
pertence a autoridade, ser implacável, ser rigoroso e ser justiceiro e a mãe
mais mole, e a mãe que dá trinta oportunidades, aquele pai é uma mãe...
Se
aquele pai é a figura de Deus, quem é Deus? É implacável? Não. É justiceiro?
Não. É rigoroso? Também não!
Então o filho pede-lhe a herança antes? O que é que
significa pedir a herança em vida?
Significa, paizinho eu quero-te morto, se tu morresses
eu tinha já a herança, tu não morres peço-te a herança, quero-te como
morto. Uau, não é pouco, não é pouco.
E é o único personagem na história que experimenta uma
condição de morte. O narrador, que no caso Jesus, põe-no a partilhar o alimento
com porcos, já não bastava cuidar de porcos que é já maldito, mas põe-no com
vontade de partilhar o alimento com porcos. Não havia condição mais desprezível
para nos apresentar. Aquele que experimentou a morte era aquele que queria o pai
morto, foi aquele que pediu a herança antecipada e quem é Deus naquela
história?
Olha, respeita e ama até aqueles que o querem morto.
Que Deus bizarro, que Deus estranho...E a história continua e a vida folgada
ainda durou uns anos, a coisa não correu bem, ele ia ficando para trás, é a
tradução literal, quando ele sentiu fome, ele ia ficando para trás e foi ter
com o pai. E diz-nos a história que ele montou um discurso e nós estamos a
acompanhar o tempo da narrativa, nós estamos como o filho mais novo a chegar a
casa e íamos ver o que é que estava a acontecer em casa. Se calhar o pai até
nem estava, tinha ido à cidade, era preciso ir chamá-lo.
O que nos é dito, e de repente passamos para dentro de
casa, parece que o pai várias vezes por dia se assomava à janela a ver se via o
filho, porque foi em mais um dia como outros, passado tanto tempo, e quem o viu
primeiro foi o pai, e lá viu a silhueta no horizonte e correu e rasgou-lhe o
discurso, interrompeu-lhe a fala e deu-lhe tudo, o anel significa que ele
volta a ser herdeiro, ele vai voltar a ter a mesma quantidade de dinheiro que
já desbaratou, como é possível, como é possível?
Vai voltar a vestir-se como filho, com túnica e
sandália, vai ser daqueles que habitam a casa, que estão lá dentro, não vai ser
escravo.
E sabemos a história e o filho mais velho não gostou nada
daquilo, ele que era proprietário da casa, que vivia como um proprietário e que
ao pai diz, eu sempre vivi como um escravo.
Isto é interessante, nós pensarmos que habitamos
também uma casa, esta coisa de nos sentirmos donos dela e reclamarmos a Deus
que vivemos como escravos, como que vivendo oprimidos pela sua presença. Que
bom vermos nisto o Reino que Jesus quer que demos forma, que bom se virmos
nesta história a construção da Igreja.
Aquele filho mais velho, não consegue ver razões para
alegrar-se, porque sente inveja, e verdade é que inveja significa isso,
significa não ver, aquele filho mais velho não viu razões para se alegrar, não
reconheceu alegria nenhuma por ter regressado aquele irmão a quem ele chama
"esse teu filho".
Qual é a palavra central desta história toda que nós
sabemos de cor?
Qual é a palavra sem a qual esta história não podia
ser assim?
Há uma palavra nesta história que a torna
perfeitamente diferente de uma história previsível. O pai quando visse o filho
devia dizer, ai, ai, ai... eu não disse? Eu não disse? Só ias fazer porcaria,
já sabia! Agora não tenho tempo para te aturar assim tanto, vaus começar a
ajudá-los nas colheitas e depois logo vemos. Era isso que nós esperávamos, que
acertasse contas, que saísse por cima na discussão, eu afinal é que tinha
razão, tu é que não tinhas razão. Estás a ver? Põe os olhos no teu irmão, o meu
preferido. Era isso que nós esperávamos mais ou menos à espera.
Há uma palavra que muda isto tudo, a palavra grega
(...) que nós já falamos aqui há quinze dias, creio eu, volveram-se-lhe as
entranhas, mexeu-se-lhe a barriga, o que nós sentimos quando ouvimos pela
primeira vez "eu amo-te", o que nós sentimos quando vemos injustiça à
nossa frente, aquilo que nos ressalta de vontade de ajudar.
É a mesmíssima palavra que os sinóticos usam para falar
de Jesus, quando viu a viúva a enterre o seu filho, chorou, volveram-se-lhe as
entranhas e pediu-lhe para não chorar.
É a mesma palavra que o homem na estrada de Jericó
sente para ajudar aquele espancado.
É a mesmíssima palavra que aparece para isto, para
falarmos deste impulso que é donde vem a palavra misericórdia.
E de facto esta palavra muda a história toda, aquele
pai volveram-se-lhe as entranhas e não conseguiu disfarçar, beijou o filho,
abraçou o filho e a história ficou toda diferente. Foi um grande twist porque
despejou misericórdia naquele filho.
Haveremos de andar sempre no quase temos,
quase temos a casa que queremos, quase que temos os carros que queremos, os
bens que queremos, quase que temos aquilo que precisamos, quase que temos as
nossas necessidades satisfeitas e andamos de ter em ter.
Curioso que se há palavra que trouxe alegria àquela
história foi aquele volver de entranhas daquele pai. Foi o que trouxe alegria
àquela história.
E, querido leitor diria Lucas, vê lá tu, a
misericórdia daquele pai está no mesmo sítio que a tua.
Está no teu ventre, nesse lugar tão frágil, sem ossos,
sem costelas que o protejam, está no lugar mais frágil do teu corpo, vê lá tu,
Jesus a falar de Deus quer pintá-lo de forma singular como um que esbanja
misericórdia, um que se compadece de tudo, que se compadece a quem é preciso
repor a justiça.
Vê lá tu que tu és igual a ele.
Vê lá tu que tu tens as mesmas entranhas que ele.
Possa esta história ser a razão da nossa alegria, nós
somos mesmo semelhantes a Deus é o que Jesus nos quer dizer, somos mesmo
semelhantes a Deus.
E o que nos assemelha a Deus, não sei se é ser
omnipotente, omnipresente, pelos vistos não é isso. Sermos semelhantes a Deus
significa sermos capazes de nos compadecermos, capazes de nos volvermos as
entranhas, nos comovermos e de improvisarmos cuidados.
Possa esse ser o nosso programa de vida, já que é a
nossa vocação, esta é a razão da nossa alegria, somos como Deus porque também
nós somos capazes de, entre nós, esbanjarmos misericórdia.
(IV Domingo da Quaresma C - o Deus que não sabe disfarçar - breve comentário aos textos bíblicos lidos
em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Março de 2022.
Josué
5,9-12; 2 Coríntios 5,17-21 e Lucas 15,1-3.11-32.)

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