e se Deus não for útil?
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
(com especial ternura, Rita, para ti que vens a primeira vez, que te sintas em casa...)
Sintam-se em casa, que bom que não precisamos de muitas justificações para nos sabermos incompletos, famintos, carentes e a precisar uns dos outros para tudo.
Nós estamos, costumo dizer, em tempo de Páscoa, porque a quaresma (é o que temos dito), ela diz o tempo na sua quantidade, são quarenta dias de preparação de uma festa anual, mas nós estamos verdadeiramente todos os dias em Páscoa, estamos conscientes de que Deus passa, é isto que significa, Deus passa de mil formas, e à dua maneira, em circunstâncias e em pessoas e para isso importa que os nossos sentidos estejam despertos, importa que as nossas certezas não nos ceguem e não nos tornem surdos... e ao mesmo tempo Páscoa significa também a disponibilidade de nós próprios passarmos, de nós darmos um passo, joga-se a nossa conversão o nosso crescimento, a nossa vontade de não ficarmos na mesma.
Estamos, nestes quarenta dias que chamamos quaresma, estamos neste tempo pascal e é um tempo também (como temos visto) um tempo muito prático, tempo de arrumações, no meu Norte coincide com o tempo de limpar anualmente os armários, fazer grandes arrumações para preparar a Páscoa, esta imagem também precisamos dela. É um tempo onde nos dispomos também a rever a nossa tralha, a rever aquilo que acumulamos. Entre certezas, entre a rapidez com que nos medimos com que nos rotulados, queremos rever essa tralha toda.
E hoje em particular, neste terceiro domingo, a liturgia apresenta-nos uns textos muito inspirados para revermos também tralha, para revermos coisas que acumulamos e que andam connosco na mochila e que pesam, e porventura na hora em que precisamos de leveza para o caminho, essa tralha pode não ser a melhor companhia.
Falamos de
Deus, e se alguém souber falar sobre Ele venha para aqui.
Quem é Deus, o que é Deus?
Sabes lá tu, sabes lá tu!
A palavra Deus, nem sei se etimologicamente nós nos entendemos, mas tudo somado com as mil proveniências onde poderá vir a palavra Deus, vamos encontrar uma raiz que tem qualquer coisa a ver com ESPLENDOR, sendo que a primeira tradução mais imediata seria O BELO.
A filosofia para falar de Deus apresenta três sinónimos, três categorias que são Deus, O BOM, O BELO E O VERDADEIRO e andamos por aí.
Quem é Deus? Começa por dizer não sei e depois entre nós, as palavras que fomos encolhendo, o bom, o belo, o verdadeiro é o que brilha, é o esplendor, é a beleza. E consegues agarrá-la? Consegues falar de toda a beleza?
Neste exercício de revisão de tralha, neste exercício de revisão daquilo que vamos colecionando, voltemos hoje o coração, poisemos o olhar, sobre o que é isto de Deus, Ele está também na mochila porventura, para crentes e para não crentes, anda connosco e temos que lidar com isso. E o que é que nós estamos a falar, nós verdadeiramente não conhecemos Deus, é o próprio Jesus que diz que a Deus nunca ninguém o viu, portanto sintam-se todos em iguais circunstâncias.
Nós falamos de facto de imagens de Deus, de aproximações de traduções, de necessidade de muita poesia porque de facto a poesia consegue, com palavras, dizer mais do que as palavras e tudo nesta hora é necessário para falarmos de quem não conhecemos e de quem é impossível conhecer. A verdade é que nesta construção nós construímos uma imagem e passamos à geração seguinte (bem ou mal, a minha avó enquanto me dava a sopa e desesperada com a minha lentidão e molenguice, era capaz de dizer despachar-te, Deus não gosta de ti se não acabares a sopa toda).
Bem ou mal, estamos a construir uma imagem de Deus. É um Deus que também é um bocado impaciente e vamos, também não gosta assim tanto dos filhos se eles não levarem as tarefas até ao fim, se eles não forem bem acabados, se eles não forem perfeitos e vamos, aquilo também vai com a sopa, também comemos esta imagem de Deus e também fica por cá, também fica por cá!
E vamo-nos felicitando uns aos outros quando a vida corre bem, achando que Deus está por detrás do sucesso e da fortuna e vamo-nos enganando uns aos outros quando sobrevém o azar, a doença e a morte, vamos fazendo malabarismos de três bolas dizendo que Jesus também sofreu e nós vamos ter com Ele e vamos tentando consolar-nos uns aos outros, falando de imagens que nos foram dadas com sopa, que fomos descobrindo, que fomos vendo, que fomos achando interessantes, que fomos colecionando. E sim, há um Deus também no judaísmo que nos foi passado, que é um Deus que dá coisas boas aos bons e dá coisas más aos maus, o Deus da retribuição. E a lei de Moisés previa que se tu fosses castigado, se sobreviesse sobre ti uma doença mortal, uma situação insuportável, a própria morte, era um castigo de Deus e se o culpado não fosses tu, havia de ser alguém duma geração antes de ti, até à quinta geração e era uma maneira excelente de resolver o problema. Como tu nunca vais saber quem é o culpado, porque tu mereces o castigo porque durante cinco gerações o crime ainda está dentro de prazo, portanto tu mereces este castigo aguenta-te, e assim se ia resolvendo a questão do mal, a questão da morte, a questão da perda, da doença, da maldição.
Jesus gozou com isto tudo e vamos, no meu trabalho aqui no hospital, diria que noventa por cento das nossas conversas, entre mim e as pessoas que cá estão internadas, uma a uma, prende-se com isto, com a imagem de Deus que nesta hora não faz sentido nenhum. Então e Deus que dá coisas más aos maus e dá coisas boas aos bons, dá-me uma doença que quase me mata, até não sei se chego ao dia de amanhã e eu não lhe fiz mal nenhum e quero lá eu saber se os meus pais lhe fizeram mal.
Haverá algum Deus que se possa dizer pai e justo que me castigue a mim que não lhe fiz mal nenhum? E enquanto passa o programa da tarde na televisão e se passeia mais um banqueiro... , Aqueles é que deviam ter coisas más e só lhes acontece coisas boas, de facto esse Deus imbecil, esse Deus que se engana parvamente não interessa a ninguém... e Jesus goza disso, tanto goza que conta uma história depois de gozar também com os fariseus, Pilatos mandou matar uns Galileus numa revolta que aconteceu na Galileia e não fez mais nada, os que trataram desse castigo exemplar entraram no templo e mataram as pessoas que estavam em oração a apresentar os seus sacrifícios.
Diz-nos o texto que, aqueles Galileus que seriam inocentes, foi derramado o seu sangue juntamente com o sangue dos sacrifícios, foram mortos por Pilatos como castigo exemplar. E Jesus está a dizer aos seus interlocutores, pensais que eles eram mais culpados que os outros todos? Achais que foi Deus que os castigou? Nada disso, nada disso! E se continuais a pensar assim é essa imagem de Deus que vai esmagar-vos.
Aquela torre que caiu em Jerusalém e matou dezoito pessoas. Aquelas dezoito pessoas eram mais castigáveis que as outras todas? Mas culpáveis que os outros? Tende juízo diria Jesus aos seus interlocutores.
E fala de uma história para acrescentar essa nossa grande tarefa de construirmos uma imagem de Deus. A verdade é que consoante a imagem que construímos, assim nos vamos relacionar uns com os outros.
O DEUS FORTE, porventura vem reforçar a minha arrogância, o DEUS INTERVENTIVO NA HISTÓRIA, porventura vem alimentar a minha sede de vingança, o DEUS CRIADO À MINHA MANEIRA, vem legitimar que eu estou do lado certo da trincheira.
E quando é que tu vais deixar que Deus seja quem Ele é?
Na primeira leitura do livro do Êxodo havia uma primeira apresentação de nomes, a tradução portuguesa "Eu sou aquele que sou", não está mal é muito difícil traduzir a frase, traduzir o que lá está. "Eu sou...
(Havia uma marca telemóveis SENDO)
"Eu Sou o Sendo, Eu Sou o ser a acontecer" há outras traduções que dizem "Eu Sou o vidente".
Sim, Sou o que Sou!
Quando é que vais deixar que Deus seja quem Ele é?
Quando é que vais deixar que Deus seja, esse que está diante de ti?
Levinas, o filósofo Emanuel Levinas fala da alteridade do outro, como esse, sobre o qual tu és incapaz de conhecer, o outro é sempre indecifrável, tu não consegues saber toda a sua história, tu não consegues mergulhar a fundo na sua vida, no seu passado, nos seus dramas, nas suas feridas, no seu desejo, é impossível! E esta alteridade que Levinas fala e gasta toda a sua filosofia, aplica-se perfeitamente a Deus como alteridade.
É Esse Outro insondável!
Quando é que vais deixar que DEUS seja quem Ele é?
É muito importante a nossa revolta com Deus, seja ela em que idade for, aqui no hospital acontece muito, porque é um Deus que se engana e me deu um cancro sem eu lhe ter feito mal nenhum. É importante talvez legitimar esta revolta e deixar que tudo acabe em escombros, para que desses escombros possa erguer-se Deus como Outro e como Aquele que é.
Nesta história que Jesus conta para falar disso, de quem é Deus, quem é que vocês acham que é o proprietário da vinha?
Diríamos nós é Deus, é um Deus implacável, apetece-lhe figos, anda há três anos a salivar por figos, não tem figos corta-se a figueira. Que raio de Deus que também não preciso dele para nada, eu que demoro tanto a dar figos, que demoro tanto a dar frutos.
Quem será o proprietário daquele terreno? Será Deus?
Que bom que Jesus não põe nomes. Olha, para que tu andes às voltas com isso.
E quem será o trabalhador da vinha? Pachorrento que pede ao Senhor, vamos o trabalho vai ser meu, eu ainda vou cavar, eu ainda vou adubar melhor, posso ter sido eu a não fazer bem, vai-me dar trabalho, mas deixa, pode ser que a árvore encontre saída, dê fruto, depois vemos.
O proprietário daquele terreno és tu, o proprietário daquele terreno és tu e a tua arrogância de pensares que sabes quem é que é Deus, são os interlocutores de Jesus como aqueles fariseus que sabem quem é Deus, e que sabem o que Ele pensa, e que sabem o que Ele gosta. Esses são os proprietários daquele terreno onde podes bem-estar tu, onde posso bem-estar eu com a minha arrogância e com a forma como olho os outros na minha impaciência e na forma como quero os outros como eu.
E quem é o Deus de Jesus?
É o pachorrento trabalhador, é assim que Ele lida contigo, eh pá menos, dá lá mais um ano, olha bem para ti, quanto tempo precisaste tu?
Possa esta forma como vamos querer rever a nossa imagem de Deus, possa também alterar a forma como nos olhamos uns aos outros.
Jesus diz-nos que é OUTROS, diz-nos que, o que fizerdes ao mais pequenino foi a mim que o fizeste, um cuidado que prestaste a quem mais precisava de cuidados, foi a mim que o fizeste, o NOSSO DEUS É OUTROS e segundo Levinas, os outros são insondáveis
O nosso Deus é insondável e visita-nos de forma subtil na fragilidade dos outros.
E tu vais querer mesmo deixar passar sem vê-los?
(III Domingo da Quaresma C - e se Deus não for útil? | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo III da Quaresma C | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 19 de Março de 2022. Êxodo 3,1-15; 1 Coríntios 10,1-12 e Lucas 13, 1-9)

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