Concordas que diminuir é crescer?
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Acolhamos este
texto com vontade de celebrarmos páscoa já, páscoa é a nossa vida inteira,
páscoa são todos os dias, e quaresma é a vida inteira, e quaresma são todos os
dias e advento também e o Natal também e queremos tornar tudo isso comum.
Na liturgia
celebramos tempo a tempo, símbolo a símbolo, lembramos a experiência cristã
todos os dias.
E o que é que
nos diz a Páscoa? a palavra significa passagem, em certa medida não queremos
deixar que Deus passe ao nosso lado sem darmos por isso e ao mesmo tempo
queremos nós também dispor-nos a passar, o mesmo é dizer a ir mais além, a dar
um passo, a reconhecermos que não vamos ficar na mesma. É esse o sentido do
Êxodo Quaresmal, a quaresma só diz a quantidade de tempo que é simbólico nesta
hora, quarenta dias, para serem quarenta nós temos que excluir os domingos da
quaresma que são sempre dias de Páscoa, o domingo é sempre Páscoa.
Mas sim, nestes
quarenta dias, e quaresma só diz a quantidade de tempo, queremos saborear a
Páscoa que diz a qualidade do tempo.
Queremos
despertar os sentidos para um Deus que passa e não queremos que ele passe ao
nosso lado sem darmos poe Ele e queremo-nos dispor a dar um passo.
Tomás és capaz
de dizer qual é a música do Samuel Úria para ti?
Isso, eu só sei
crescer, é preciso que eu diminua...
diz o refrão
deste tema do Samuel Úria (que o Gui escolheu para sua música preferida dele) o
sermão ficava por aqui, a pregação ficava por aqui, vão tornar a música do
Samuel Úria a vossa preferida e acho que o já temos pregação para a quaresma,
já temos homilia para o primeiro domingo da quaresma.
A verdade é que
nós sabemos crescer, gastamos muitas energias a crescermos gastamos muitas
energias a engordarmos, há sentidos literais e há metafóricos.
Nós vimos da
abundância (e quem tem miúdos consegue mais ou menos perceber o quanto investe
numa criança, num recém-nascido.
O recém-nascido cresce na abundância, e não é só o recém-nascido, escutávamos ainda agora na I leitura, a narração do início do povo e o povo de Israel vem da abundância, vem duma saída do Egito que nem ele sabe como é que aquilo aconteceu, um povo tão pequeno e que lhe correu tão bem a viagem e também a instalação numa terra que não era sua, e ainda hoje andamos às voltas com isso... mas vamos, vem da abundância. Nós nascemos na abundância, nós vimos da abundância.
O capítulo IX
do evangelho de Lucas, a propósito da abundância, encerra aquela multiplicação
de pães que nós nem sabemos explicar, percebemos é que Jesus nos diz a nós seus
discípulos de todos os tempos, os pães que tu tens chegam para alimentar todos,
o que tu tens, o que tu trazes, o que tu és, é o bastante para alimentar a vida
de outros.
Nesse capítulo
IX Jesus decide subir a Jerusalém, foi o texto lido nestes dias, na
quinta-feira depois das cinzas, e se calhar esse é o nosso mapa para o tempo de
quaresma.
O capítulo IX
do evangelho de Lucas diz-nos isto, os discípulos experimentaram a abundância e
vão subir a Jerusalém e o caminho é o do despojamento.
Nós vimos da
abundância e somos chamados ao despojamento.
Em recém-nascidos recebemos todos os mimos, toda a comida e toda a bebida a hora certa, recebemos todo o carinho, recebemos tudo numa desmesura altamente desproporcional, eu quando quando era recém-nascido, recebia tudo e não conseguia retribuir com nada a não ser com o meu sorriso e alguns espasmos nas bochechas que a malta achava que era sorriso, e isso era o retorno emocional que chegava para os meus pais e para quem cuidava de mim e coloquem-se lá vocês, não retribuímos nada nos primeiros anos de vida e só soubemos engordar, só soubemos crescer, e aquilo a que somos chamados confunde-se com adultez, confunde-se com maturidade, é ao despojamento, somos chamados a emagrecer, somos chamados a despojar-nos e é no despojamento, e é no dom de nós próprios que tornamos abundante a vida de outros e esses outros hão-de fazer o seu caminho de despojamento. E este é o sentido da nossa quaresma e este é o sentido da nossa Páscoa.
Nós não
queremos guardar a abundância que recebemos, nós não queremos guardar para nós
a vida, nós não queremos guardar para nós a experiência cristã. A desmesura de
misericórdia que Deus derramou sobre mim, não vai ficar para mim, não vou
tornar-me dono da misericórdia de Deus e dispensá-la a quem eu quero, não! Tu
que recebeste tudo de graça és chamado a dar tudo de graça, é esse o convite
aos discípulos de Jesus de todos os tempos, também a ti nesta hora, também a
mim.
Somo chamados a
não encerrarmos em nós próprios a experiência cristã. Nós que nascemos e
crescemos e vimos da abundância, queremos nós ser abundância como Jesus, pelo
dom de nós próprios. Nós viemos do alimento e queremos converter-nos em
alimento, queremos nós ser pão.
Nós viemos de
ser servidos e queremos nós servir.
Nós vimos de
muitos cuidados e queremos nós cuidar.
Vimos do centro
e queremos habitar a margem.
Vimos da
abundância e como nosso despojamento queremos gerar abundância para que outros
nasçam e porventura é isso que nos diz o jejum, se alguém se sentir obrigado a
jejuar dispense, o jejum não faz sentido nenhum se for obrigatório.
O jejum faz
todo o sentido e é luminoso, quer o jejum literal, quer os jejuns metafóricos
se for escolhido, se for escolhido.
E for inserido nesta lógica de que nós amadurecemos e crescemos no despojamento, no despojamento. E sim, o jejum é escolher não consumir, não crescer, não engordar, não guardar tudo o que eu vejo para mim, não devorar tudo o que eu vejo para mim, no fundo não transformar tudo em pão.
Querer os
outros à minha imagem e semelhança, em certa medida, é torná-los alimento para
mim, é devorá-los, e não deixar que nasçam na sua singularidade e
irrepetibilidade.
Jejum é
escolher não consumir, cada uma de vós, cada um de vós saberá o que fazer com
isso, com o jejum literal é uma grande disciplina e com os jejuns metafóricos
que são fontes de grandes virtudes e são vida que se amplia.
O jejum literal
de não comer enquanto exercício, recorda-nos que a satisfação imediata de todas
as nossas necessidades gera insatisfação permanente.
O jejum de alguma maneira diz-te a ti próprio aguenta, aguenta, e vamos precisar disto para tudo na nossa vida, sobretudo nas nossas relações. Não tens as coisas no imediato aguenta, e isso distingue-nos entre crianças e adultos.
A criança
custa-lhe muito aceitar aguentar, custa-lhe muito e vai sendo treinada a dominar-se,
a controlar, a adiar as suas necessidades ou satisfação das suas necessidades e
a compreender que a satisfação imediata de todas as minhas necessidades inclui
tanto consumo que chego a consumir outros, chego a consumir outros.
Ao consumo
imediato Jesus, nesta página que Lucas nos serve, apresenta-se disponível ao
jejum, a possuir tudo Jesus escolhe dar, escolhe a esmola.
A um Deus ao meu serviço, Jesus abre-nos o que isso da oração, abre-nos talvez àquilo que Simone Weil diz a respeito da oração, "a oração é a atenção" e atenção é isso de viver com os sentidos despertos, de viver em sobressalto, de viver atento, de viver em aberto.
Escutávamos
neste quadro, altamente simbólico, que Lucas nos pinta, diabolos é o contrário
do símbolos, diabolos é o que separa, símbolo é o que une, algo pequeno, algo
muito maior. Diabolos, e o que está pintado nestes parágrafos que escutávamos é
porventura a condição humana e Jesus sentiu-se profundamente dividido entre
safar-se, guardar, engordar, guardar a vida para si, guardar o amor de Deus
para si, instalar-se num chalé em Cafarnaum com vista para o lago ou fazer-se
ele próprio alimento. Ele que experimentou a abundância escolheu o
despojamento, escolheu subir a Jerusalém.
A Cruz para nós
é o símbolo do despojamento, é o símbolo do nosso programa de vida.
Jesus em
profunda divisão, e talvez aqueles quarenta dias que Lucas nos pinta, foram
quarenta anos, porventura em todos os dias experimentou isto de escolher não
guardar a vida para si, de escolher não engordar.
Possa o jejum escolhido, possa a esmola, o dom de si, o dom do que temos, e possa a oração enquanto treino de sentidos, enquanto abertura de coração e atenção ao próximo, possam estas três ferramentas ajudar-nos no tempo de quaresma, que queremos que seja um tempo pascal, queremos que sejam exercícios de despojamento, queremos com Samuel Úria cantar, queremos também aprender a diminuir, nós que só sabemos crescer. E queremos diminuir para que caiba o Espírito Santo, o mesmo espírito que guiou Jesus no deserto, no deserto da inteira, queremos tornar, deste modo pascal, a quaresma, queremos deixar que o Espírito nos conduza no deserto.
(I domingo quaresma C - concordas que diminuir é crescer? breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade
| Hospital de Santa Marta, Lisboa, 5 de
Março de 2022. Deuteronómio 26,4-10; Romanos 10,8-13 e Lucas 4,1-13.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/03/06/concordas-que-diminuir-e-crescer/

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