O que amadurece na dúvida e na insegurança é qualquer coisa pascal


Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Nós estamos a despedir-nos de um Ciclo da Liturgia, vamos ter saudades de cantar o glória como cantávamos há bocadinho, vamos reservá-lo para cantar com muita alegria no dia de Páscoa.

Estávamos a ler alguns capítulos do Evangelho de Lucas, que também vai ficar em banho maria, nas nossas leituras pessoais quem sabe ainda vamos buscá-los, ou ainda vamos terminar a leitura deste capítulo que ajuda a iluminar o parágrafo que escutávamos hoje. 

Quem sabe, vamos continuando o percurso que Lucas quer fazer com os seus leitores, fica ao gosto pessoal de cada um.
Nós estamos naquele que muitos apelidam o discurso da planície, Jesus desceu do monte e já foi na planície que disse aquilo que nós conhecemos como bem-aventuranças, foi nesta descida que percebemos que Jesus escolheu, aquilo que Lucas chama apóstolos, que significa enviados, e percebemos que é neste discurso da planície que Jesus se apresenta, vamos dizer assim.  

Lucas coloca nesta biografia a apresentação da diferença de Jesus em relação a outros rabis.
E nós estamos na planície com Jesus...
Eu sei que já nos consideramos discípulos de Jesus, eu sei que porventura até vivemos, ou tentamos viver, como enviados e não como donos disto tudo e que bom tudo isso, mas estas palavras não são para esquecermos. Que bom que as revisitamos, que bom que as lemos em conjunto, porque queremos aprender a ser discípulos, queremos ser como o nosso Mestre, acabámos de escutar, não queremos ser nem mais nem menos do que Jesus.
Queremos ser como Ele, imitar o seu modo de ser, o seu modo de estar e também e sobretudo, o seu modo de falar. 
Ele que é a Palavra, Ele que é a Palavra feita carne, queremos nós também inspirar as nossas palavras, Nele que é a Palavra!
E sim, hoje os textos que nos são servidos pedem-nos que olhemos para a palavra, para isso que sai da nossa boca.
 
Escutávamos na primeira leitura, desse autor uns dos séculos antes de Jesus, também ele se chama Jesus, Jesus  Ben-Sirá, procura, num tempo em que a cultura helénica se impõe, naquela geografia da Palestina na terra de Israel, Jesus  Ben-Sirá procura resgatar da Torá, pérolas de sabedoria que ombreiam perfeitamente com as filosofias que deslumbram muitos dos filhos se Israel, e esse livro de facto é um livro de pérolas, e escutávamos algumas, pérolas de sabedoria porque em certa medida, o que aquele autor quer dizer é que,  querido judeu na Lei encontras pistas para encontrares sabor na vida, talvez seja isto que significa sabedoria, mais do que saber coisas, é talvez tirar e encontrar sabor nas coisas, sabor na vida, nas escolhas, nas palavras, nas  presenças, nos silêncios, no modo como nos erguemos, no modo como nos escutamos, como nos compreendemos... Possa também a página que escutávamos, inspirar sobretudo no dia de hoje, os nossos silêncios e a nossa palavra. 
 
Na semana passada o evangelho de Lucas, o parágrafo que escutávamos deste capítulo VI que estamos a ler, (mais ou menos como fatias de pizza, servida uma em cada domingo)
falávamos de desmesura, falávamos da medida de Jesus, uma medida diferente, Ele que supera a Torá, no capítulo das medidas, falava de amar inimigos, falava de dar a túnica quando te roubam o manto, falava de  dar a outra face quando te batem numa, aquilo que a nossos olhos parecia...parecia e é, domínio do irrazoável, o mesmo é dizer, irracional, percebíamos que é difícil compaginar essa medida com a busca da justiça, por exemplo, com o combate ao abuso, mas também nos lembrávamos que se calhar, Lucas e o próprio Jesus, estão a falar do Deus de Jesus. Quando tu te armas em inimigo do teu próximo, quando tu rotulas o teu próximo, quando tu desprezas o teu próximo, tu estás a ser inimigo de Deus. 
Olha, e o que é que faz Deus? Ama os inimigos, ama-te a ti. Quando tu te armas em dono disto e tiras o manto a Jesus e roubas-lhe o manto, e és senhor do seu manto e pensas que és dono disto tudo, o que é que faz Jesus? Deixa que lhe leves a túnica. Parece estúpido, não parece? Parece irrazoável, pois é assim que Ele se comporta contigo, até tu reconheceres, até tu reconheceres... 
É Ele que te dá a outra face! 

E quando nos cai essa ficha, quando percebemos que a medida que Deus usa comigo é de facto irracional, é desmesurada, é isso que em certa medida me faz usar de desmesura. 
Escutávamos na semana passada essa vontade de libertarmos as medidas de cálculos, de caprichos, em rigor queremos que a nossa medida seja livre, sem ficar presa à vingança, sem ficar presa a caprichos, queremos que a nossa medida se assemelhe à medida de Jesus, queremos uma medida livre, o mesmo é dizer, queremos libertar-nos de medidas.
E hoje é-nos pedido, na continuação do texto da semana passada, (eles leem-se continuadamente e explicam-se continuadamente), nós que recortamos, complicamos na hora de tirarmos sabor, em casa quem sabe, podeis ler o capítulo VI inteiramente e tantos outros capítulos, e tirar sabor de uma leitura continuada do Evangelho, queremos ser como o nosso Mestre! E dizia-se na semana passada e dizemos esta semana, o nosso Mestre é Misericórdia, mais do que ser misericordioso, o nosso Mestre é Misericórdia! E nós não somos discípulos para ser menos do que Ele, nem ser mais do que Ele, para sermos como Ele, para sermos Misericórdia, misericórdia. 

A semana passada lembrávamos o sentido literal do que é a misericórdia, a palavra grega remete para uma tradução difícil em português, o D. António Couto sugere tripô, porque a verdade é que a misericórdia é esse volver de entranhas que acontece numa zona desprotegida do nosso corpo, numa zona frágil, no ventre sem estar protegido por ossos, e é nesse lugar de fragilidade que António Couto sugere, Jesus tripô quando viu o cortejo fúnebre do filho daquela viúva, Jesus comoveu-se até às entranhas, volveram-se-lhe as entranhas e pediu àquela mãe não chores! 

É o mesmo verbo que está naquele homem que desce na estrada de Jericó e encontra um homem espancado tripô, volveram-se-lhe as entranhas e não fez outra coisa senão lançar-se para cima daquele homem espancado e cuidar dele desmesuradamente. Isso é misericórdia! 

E somos chamados a sermos misericórdia, se quisermos, a deixar que no lugar mais frágil do teu corpo saia aquilo que te assemelha a Jesus, essa vontade de te desprenderes de medidas, de te doares e de cuidares sem medidas e sem cálculos, sem fazeres do amor uma subscrição, um investimento, com ganhos e perdas mais ou menos calculados.
 
Queremos, no texto que nos é servido no dia de hoje, queremos olhar para as traves, para os ciscos, não queremos desculpar as nossas traves com os ciscos dos outros, queremos encontrar no texto de hoje uma proposta de caminho para os discípulos de Jesus, e a proposta de caminho para os discípulos porventura para ampliarmos os nossos caminhos e os nossos critérios talvez seja este, antes de corrigires interroga-te, antes de corrigires interroga-te... e queremos que seja esse o exercício que nos amplia, que amplia as nossas medidas, que amplia a nossa palavra, que faz amadurecer a nossa palavra, porventura no silêncio e no confronto pessoal entre ti e a tua consciência.

Como é que acontece isso de calarmos a palavra para a amadurecermos, como é que acontece essa interrogação que retarda a correção, como é que acontece tudo isso? Queridas irmãs, queridos irmãos, eu estou convencido que acontece numa coisa ou em várias coisas que nós apelidamos de defeitos. 
Todos somos inseguros, uns sabem disfarçar muito bem a sua insegurança, uns sabem driblar a sua insegurança, outros vivem com a sua insegurança, outros deixam-se bloquear pela sua insegurança vamos, insegurança não é uma opção, somos inseguros.  Não sei se vale a pena combatermos a insegurança, convém é que vivamos, e vivamos sem medo, e isso aprende-se e isso faz-se caminho e porventura havemos de conseguir caminhar com a insegurança pela mão, integrada, como companhia de caminho e não como bloqueio.

Mas vamos, é na nossa insegurança que nós revemos as nossas certezas, é na nossa insegurança que calamos a sentença, é na nossa insegurança que retardamos a correção do outro. 
O que nos é pedido hoje no evangelho acontece na nossa insegurança, os cheios de si, os que disfarçam permanentemente a insegurança disfarçam-na com sentenças, disfarçam-na com correções do outro, disfarçam-se em ser super-homens.
 
Tu queres ser como Jesus, tu queres ser como Jesus! 
E onde é que vamos treinar tudo isso, onde é que vamos treinar essa interrogação, vamos treiná-la na insegurança também.
É na insegurança que aprendemos a humildade,
É na insegurança que aprendemos a empatia de nos colocarmos no lugar do outro. 
Queremos olhar a insegurança não como defeito, é estrutural, é nosso, somos nós. Não queremos convertê-la em bloqueio, queremos convertê-la em companhia integrada que nos acrescenta, que nos amplia.

Possa nesse lugar acontecer a busca.

Os cheios de si, aqueles que a escritura chama os ricos, por oposição aos pobres, isto no capítulo da escolha, os que escolhem ser ricos e os que escolhem ser pobres, a pobreza imposta e literal é outra coisa, que todos nos devemos comprometer para eliminá-la, mas a pobreza escolhida é esta, de quem se sabe inseguro, de quem não tem a certeza sobre tudo, de quem duvida, de quem busca.

Possa a nossa palavra amadurecer neste silêncio dos inseguros 
Possa a palavra pela qual nos queremos assemelhar a Jesus 

possa amadurecer nos nossos conflitos interiores, no nosso sofrimento e no lugar onde emerge a humildade, no lugar de onde emerge a misericórdia.

Possa esse ser o lugar onde celebramos a nossa páscoa. 

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo VIII do Tempo Comum C | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Fevereiro de 2022.Ben-Sirá 27,5-8 (gr. 4-7); 1 Coríntios 15,54-58 e Lucas 6,39-45.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/02/27/o-que-amadurece-na-duvida-e-na-inseguranca-e-qualquer-coisa-pascal/ 

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