O poder pascal do símbolo
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Um exercício muito rápido, mas bastante tarde, numa
primeira leitura, mas vocês comigo já se foram habituando a moderar as expetativas.
Se eu perguntasse, quem é que é dragão aqui? Quem é que é dragão? Quem é que é
leão? Quem é que águia?
Eu suspeitava que vocês fossem inteligentes, mas não
tanto, é verdade! Porque a verdade é que eu disse três animais ao calhas e
vocês com raciocínio espantoso relacionaram com clubes de futebol e não só
relacionaram com clubes de futebol, porque isso até mexeu convosco, até deram a
cara, até levantaram o braço.
Que bom que deste exercício parvo podermos tirar
alguma chave de leitura para mergulharmos neste capítulo V que iniciámos hoje, do Evangelho de Lucas, porque talvez seja
importante lembrarmos o símbolo.
O símbolo pode bem ser um animal, pode bem ser uma
letra, pode bem ser um sinal, o simbólico de facto é essa coisa pequena, essa
coisa que pode nem ser assim tão importante, mas que nos remete para uma
história, remete para uma narrativa, remete para uma pessoa, que nos remete
para um conjunto de pessoas a ponto de isso passar a ser importante e sendo
importante é possível até mexer comigo, e até mexeu com os vossos braços. Mexe
com a nossa identidade, mexe com aquilo que somos.
Símbolo porventura é isso, a palavra do grego símbolos,
é a palavra que é o contrário de diabolos.
O símbolo é aquilo que é capaz de unir e o diabo é
aquilo que é capaz de dividir, de afastar. Que bom que aqui chegados, pelo
menos os que aqui estamos, já podemos dizer que acreditamos que isso de diabo,
seja uma coisa figurada à maneira de homem com um apêndice na testa e no fundo
das costas.
Que bom que estamos a falar de nós e da nossa
capacidade de juntarmos e da nossa capacidade de separarmos.
Os nossos irmãos há muitos séculos, os primeiros
cristãos, resistiam e animavam-se uns aos outros para permanecerem e para
resistirem, desenhando um símbolo, desenhando o símbolo do clube e o símbolo
dessa altura, antes de sermos conhecidos por uma cruz era um peixe, onde havia
peixes, eu sei que muitos de vós já foram a Roma, já andaram em catacumbas, já
andaram nos percursos paleocristãos e lembram-se disto com certeza, é muito
mais frequente vermos peixes numa determinada altura da história do que cruzes.
E era assim que os cristãos se reconheciam, e era assim que se animavam e era
assim que resistiam se quisermos, era assim que permaneciam fiéis.
E sim, a palavra grega para dizer peixes, Ichthus,
convertia-se numa sigla que queria dizer, Jesus Cristo, Filho de Deus, o
Salvador. E sim, esse desenho na parede lembrava uma história, lembrava uma
pessoa, e movia corações.
Caramba, a malta que desenhava peixes na parede acabava morta, acabava
nas feras, acabava queimada, torturada.
Sim, era uma insignificância que lhes fazia lembrar uma história, que lhes
fazia lembrar uma pessoa, e isso dava sentido à vida e dava sentido à
própria morte.
O peixe não caiu do céu aos trambolhões também, e nas narrativas dos
evangelhos escritas umas boas dezenas de anos depois da morte de Jesus, há
peixes em todo o lado. A começar pelos que são mais próximos de Jesus que eram pescadores. E a metáfora do peixe anda nos evangelhos porque também
é a peixes que os evangelistas se estão a dirigir. É àqueles que a partir de um
peixe se recordam de Jesus.
O que aconteceu nesta praia, não vamos ficar só no sentido literal porque
Lucas não nos descreveu apenas uma tarde de Jesus, Lucas está a dirigir-se a
uma igreja, e porventura a uma igreja que já experimenta ser
ridicularizada ser perseguida, o que acontece aqui é de facto um
contraste.
Dizia-nos o texto, nós lemos a tradução de Frederico Lourenço, as
pessoas comprimiam-se à volta de Jesus, e Lucas insiste em dizer que,
querido leitor espera lá, isto não é a Sinagoga, isto não é o Templo, estão na
praia... claro que a praia para eles não é bem a nossa praia, a nossa
praia associamos ao tempo livre que é um luxo que nos vem do direito do trabalho
e é uma coisa muito contemporânea e se calhar o ir banhar-se em tempo de lazer
é uma coisa que está mais associada à piscina interior dos palácios do
que propriamente à praia mas enfim...
Aquele grupo comprimia-se à volta de Jesus na praia, para O ouvir, para
ouvir a Palavra, e eram tantos!
E o que é que está a acontecer um par de metros ali ao lado?
Dois barcos, mais ou menos atracados, mais ou menos a
flutuar e um grupinho de gente amuada, Pedro e os companheiros cansados de
uma noite, cansados de trabalhar, frustrados dos seus esforços...
E vemos este contraste de um Jesus cheio de gente à volta e de um grupinho
de cansados mais ou menos sozinhos.
Pois querido leitor, percebes o que e que eu estou a dizer? Estamos a falar
de Jesus e do poder da Palavra e estamos a falar do Papa e da igreja, está ali
Pedro e os amigos, e vês como eles estão monos? Cansados e frustrados, mas
repara, à volta de Jesus a malta comprime-se.
O problema não é da Palavra, pelo contrário, a Palavra pelos vistos atrai
muita gente, repara que há muito cansaço, muita frustração, muito esforço
inútil...
E o que é que vamos fazer com isto? que é que vamos fazer com
isto?
Não vamos também contribuir para dissociar entre o que é a Igreja e o que é
Jesus, temos que admitir que nós não somos igreja, nós não somos cristãos
para vir à missa, ir à missa não é a finalidade do cristianismo, nem conhecer a
Bíblia é finalidade do cristianismo, não é, nós não somos cristãos para
saber a Bíblia de cor, nós não somos cristãos para sabermos tudo sobre os
Evangelhos, que bom seria se os lêssemos, mas vamos, a finalidade de sermos
cristãos não é essa, a finalidade de sermos cristãos não é
constituirmos um grupinho, a finalidade de sermos cristãos não é termos um
código moral e uma obediência, e o que é que podemos fazer e não podemos fazer,
somos cristãos porque queremos descobrir Jesus, contaram-nos umas coisas
disseram-nos umas coisas e nós queremos descobri-Lo, e nós queremos saber se é
verdade ou não e queremos saber porque é que isso nos moveu, porque é que isso
tem tanta força em nós? Porque é que que aqueles que nos falarem e
contaram coisas sobre Jesus foram mais importantes para nós, não tanto
pelas palavras que nos disseram, mas porque olhámos para eles e os vimos a
cuidar de nós, sem ganharem nada em troca, pensem nos vossos pais, pensem nos
vossos mestres, pensem nos vossos amores.
Vamos tentar cozer isso tudo. Nós queremos hoje, com este Evangelho, com o
sentimento de todos os profetas, co. O sentimento de nos sabermos pequenos,
queremos reconhecer que a nossa vocação é sermos símbolo, a nossa vocação é
sermos símbolo.
Em certa medida olhando para nós, que vejam Jesus, isso vai ajudá-los a um
encontro, e acredita que esse encontro transforma, muda a vida, esse Encontro
não deixa na mesma!
E nesse trânsito de símbolos, nesse trânsito de gente que
reconhece em gente a presença de Jesus, a Igreja acontece, não te preocupes com os esforços, não te
preocupes com o trabalho inútil.
As nossas pastorais desdobram-se em iniciativas e atividades e eventos...
Vamos, se não for para descobrir Jesus, teremos de avaliar tudo isso. Como
é que descobrimos Jesus, como é que damos a conhecer Jesus, como é que outros
em nós veem um símbolo, como é que outros em nós se lembram da vida de
Jesus... há-de ser pela forma como somos, pelo que fazemos, o modo como
fazemos, à maneira de Jesus. Talvez seja importante lermos de vez em quando os
Evangelhos, para percebermos o que é que Ele andou a fazer, nas mais
importante é fazermos desta letra carne, e encarnarmos nós os gestos
as escolhas e as Palavras de Jesus, os silêncios os cuidados, a ausência de
juízo, o toque em gente impura... Possa ser esta a encarnação da Palavra,
Possa essa ser a tarefa da Igreja, a tarefa Pascal da Igreja,
Possa essa ser a nossa vocação,
Sermos símbolo para que outros vendo como nos amamos e nos cuidamos se
interroguem sobre Jesus e possam buscá-Lo e possam descobri-Lo.
(V
Dom T. Comum C - o poder pascal do símbolo | Breve comentário aos textos
bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 5 de Fevereiro
de 2022. Isaías 6,1-8; 1 Coríntios 15,1-11 e Lucas 5,1-11.)

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