Creio na ressurreição dos vivos


Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos

Com especial ternura para os cromos mais raros da caderneta, Madalena que bom teres vindo pela primeira vez (...)

que bom que não precisamos de desculpas, razões, justificações, para nos juntarmos neste encontro de famintos, neste encontro de carentes. Que bom que não precisamos de mostrar o cartão de cidadão, não...
Precisamos de inscrever é verdade, mas está quase a acabar esse tempo, que bom que nos juntamos!

Ressurreição dos mortos, se alguém souber dizer uma palavra sobre isso, eu cedo já o meu lugar.
Ponham-se lá no lugar dos Coríntios a quem Paulo se dirige, que bom que naquela altura  havia muitas escolas filosóficas, muitas maneiras de viver, muitos entendimentos, muitas escolas de sabedoria, muitos caminhos vamos, como hoje...
E das muitas escolas de filosofia emergia uma verdade, vamos dizer verdade, uma convenção, o corpo é a prisão da alma, tudo o que diz respeito ao corpo é detestável, tudo o que diz respeito à alma é desejável, a música, a matemática nascem porventura na mesma altura, sendo elas expressão da linguagem da alma e isso elevava a vida. E tudo o que diz respeito às necessidades do corpo era detestável por muitas correntes filosóficas. 

Vamos, esse lixo ficou até ao dia de hoje, e desculpem dizer lixo, porque de facto atrapalha-nos muito, atrapalha-nos muito.
 
Não podemos falar de sexo neste encontro, Não podemos falar de afetividade neste encontro, por causa disso, porque há milénios que tudo o que diz respeito ao corpo envergonha-nos e é para nos envergonharmos e é para não falarmos sobre isso.
Falemos das sobrancelhas pars cima, que pena, porque das sobrancelhas para baixo é a maior parte do nosso corpo.
 
E de facto, pondo-nos no lugar dos Coríntios, Paulo ao falar de ressurreição, e Paulo falava da ressurreição da carne, o entendimento torna-se desencontrado, torna-se dejasustado. Então andamos a vida inteira a fugir do que é da carne, do que é do corpo, andamos a vida inteira a castigar os desejos e os apetites, para desprendermos a alma para ficar liberta do corpo e ir não sei para onde e agora tu Paulo, estás a dizer-nos que Jesus dá voz a isso de ressuscitar o corpo? O corpo, a carne, é detestável Paulo, não conseguimos suportar essas palavras.

E sim, há um grande desencontro no entendimento de Paulo sobre a ressurreição e no entendimento de muitos gregos, particularmente desses Coríntios sobre a ressurreição.
E não se riam, porque esse desencontro de Paulo com os gregos é também o nosso!
Aqui há anos fizeram um inquérito à população católica e nesse inquérito os números eram estranhos, a percentagem dos que acreditavam na ressureição era mínima entre católicos.

E vamos, culturalmente também fomos dando passos significativos. Aqui há cinquenta anos, que nem sequer se pensasse em não sepultar o corpo. Aqui há cem anos, que nem alguém quisesse pensar em cremação do corpo, em radução do corpo a cinzas.
E sim, em diversos contextos, em diversas alturas da história, em diversas culturas, era impensável desfazer-se dos restos mortais de alguém. Quem já teve a sorte de ir a Jerusalém, vai lembrar-se do vale Josafát que é o cemitério dos judeus numa encosta e os muçulmanos na outra encosta junto à muralha. Os judeus escolheram esta encosta da colina do vale de Josafát porque na Ressureição são os primeiros a ver Jerusalém. (risos)
A verdade é que não estamos aqui para radicularizar religiões nem entendimentos da ressurreição, da vida e da morte, mas cada um tem o seu entendimento. E esse inquérito dá conta de que a ressurreição nunca foi um assunto arrumado, nunca foi entendida e não é um assunto para se resolver. Que bom seria que continuássemos a falar sobre isto.

A verdade é que a palavra que está lá no grego e que os evangelistas escolheram para falar sobre ressurreição, ainda lembramos algumas frases de cor, "quem é que procuras? Jesus o Nazareno? Não está aqui, ressuscitou."
Da mesma forma Paulo, "se pregamos a ressurreição de Jesus, temos que acreditar que Jesus ressuscitou, senão é vã a nossa fé."
A palavra que escolheram, o verbo que escolheram para dizer ressuscitar, (seria bom que buscássemos a tradução será sempre limitada) a palavra que lá esta é erguetser, é erguer.
Buscais Jesus? Não está aqui, foi erguido! E se nós não acreditamos que Jesus foi erguido é vã a nossa fé.
 
O evangelho de hoje, aquele discurso que para nós, é quase a nossa constituição, é a carta magna do cristianismo, o discurso sobre a felicidade, é colocado neste evangelho, depois daquela cena na sinagoga de Nazaré, na terra onde cresceu eventualmente, e a partir daí percebemos a missão de Jesus.
A missão de Jesus é erguer, foi enviado a libertar cativos, foi enviado a aliviar pesos a impuros, foi envido a erguer...

E percebemos que a multidão que está à volta de Jesus são esses a quem Jesus foi enviado.
E sim, Aquele que passou a vida a erguer foi erguido, foi erguido!
Quando é que começa o cristianismo?
Não foi na gruta de Belém, não sabemos se há gruta nem sabemos se há Belém. Quando é que nasce o cristianismo? O que é que Jesus fundou?
Jesus falava de um reino, Jesus morre Judeu, é judeu e morre Judeu, quando é que nasce o cristianismo? Quando é que nasce o cristianismo distinto do judaísmo?
Não há respostas erradas.
 
Há autores que sustentam a tese que o cristianismo nasce quando nasce a necessidade de escrever, quando se começam a escrever estes textos. E pir isso talvez Paulo seja o grande fundador do cristianismo. Quando foi preciso lembrar a vida de Jesus, umas dezenas de anos depois da morte de Jesus, a necessidade de escrever, de construir uma comunidade de leitores e essa comunidade de leitores são os primeiros cristãos.  E tudo o resto é um exercício de retrospetiva.
Porque é que estamos aqui a ler este texto? Por causa de Jesus.
E quem foi Jesus?

Foi esse que nós não sabemos onde está, ficou num túmulo vazio.
É este o primeiro dado da comunidade cristã, um túmulo vazio.  E tudo o resto é um exercício de retrospetiva.

Mas porque é que estamos aqui se não O temos? Não sabemos onde Ele está? Porque é que é um túmulo vazio a juntar-nos? O que é que Ele andou a fazer?
E houve a necessidade de colecionar os gestos de Jesus e firam transmitidos de geração em geração até ao dia de hoje.
E nós estamos aqui por causa de um túmulo vazio e estamos aqui porque houve necessidade de narrar a vida de Jesus para não esquecermos que Ele viveu para erguer, morreu porque ergueu e foi erguido.
Estamos aqui porque a vida é mais forte do que a morte, porque o amor é mais forte que a morte, e o amor é porventura esse exercício de erguer e de ser erguido, de cuidar e de ser cuidado.

Continuamos a não saber uma palavra sobre a ressurreição dos mortos, não sabemos! E cada um tem uma fantasia (desculpem dizer assim), cada um tem uma elaboração, uma construção, uma imagem, não há imagens erradas.
Talvez nos apercebamos nesta altura da vida ou naquela, que as imagens que construímos são limitadas, ficam aquém, não servem, são desajustadas e nessa altura todos somos precisos para falarmos disto, para construirmos imagens, mas sobre a ressurreição dos mortos não sabemos dizer uma palavra.

Deixemos que as mães, que nesta casa e noutras casas como esta, perdem os seus filhos em idades tão pequenas, em tão breve tempo, deixemos que sejam elas a falar-nos sobre ressurreição, elas que não conseguem acreditar que o seu filho não esteja bem.
Não sabemos falar da ressurreição dos mortos, pois não? Então falemos da ressurreição dos vivos, falemos da ressurreição dos vivos! Porque estamos aqui, porque somos um elo numa grande cadeia, que é uma grande genealogia de erguedores, de erguidos e de erguedores. Fomos aqueles que ressuscitaram e estamos aqui para que outros ressuscitem.

E nós sabemos o que é experimentar a morte em vida.
Quem carrega o peso da pobreza sabe o que é a morte em vida!
Quem carrega o fardo da impureza para que nós nos sintamos mais puros, sabe o que é viver a morte em vida!

Quem não tem lugar nesta mesa, quem nós dizemos que não tem lugar nesta mesa, sabe o que é viver a morte em vida!
Quem foge de um país porque está em guerra e não é querido em lado nenhum, sabe o que é vida!

E nós estamos aqui e o nosso único compromisso e ressuscitar vidas!
É disso que nós sabemos falar, é disso que o cristianismo é especialista. Foi isso que Jesus fundou, uma possibilidade de ressuscitarmos em vida. Por caminhos de reconciliação, pelo perdão uns dos outros, pela compreensão da diferença, pela integração da diferença, cada um saberá a trabalheira que isso dá, o que está ao seubalcance fazer e porque é que não faz.

Possa a consciência de cada um e a inteligência de cada um animar-nos na tarefa de ressuscitarmos vivos. 

(VI dom T comum C - creio na ressurreição dos vivos | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | hospital de santa marta, lisboa, 12 de fevereiro de 2022. Jeremias 17,5-8; 1 Coríntios 15,12-20 e Lucas 6,17-26.)

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