Se a palavra se fez carne, podemos escrever com o corpo

 
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 
 
Acolhamos estes textos como nosso alimento, como alimento da nossa fome, e hoje quase em sentido literal. Hoje que na tradição romana, na tradição católica do cristianismo, forçamos uns aos outros a chamarmos a este dia o domingo da Palavra, o domingo da Palavra. 

Queremos reconhecer que queremos comer esta Palavra, queremos que esta Palavra seja o nosso alimento. Queremos escrever com palavras a nossa vida e a vida da nossa igreja e a vida da nossa comunidade.
E escrevemos com palavras e escrevemos com Palavras feitas carne, escrevemos com gestos, escrevem com a nossa vida doada, partilhada, em gestos discretos, em presenças, em silêncios, em escolhas, vendemos ao domingo da Palavra. E a verdade é que na primeira leitura e no evangelho, quem escolheu os textos s decidiu-se pela literalidade, embora por aqui textos e palavras e rolos.

Escutávamos na primeira leitura, no livro de Neemias, escutávamos o povo  em processo de reconstrução, estamos nas ruinas de Israel regressado de Babilónia, e percebíamos a vontade daquele povo de repetir, mais com esse cântico de fundo, a vontade do povo de repetir aquilo que se fazia no Templo, repetir aquilo que se fazia na Sinagoga, ainda que o Templo esteja em ruínas, ainda que das Sinagogas só haja o lugar delas. Com esforço de construir um estrado, com esforço de colocar o leitor em lugar audível, com de escutarmos todos a Palavra víamos este relato emocionado de gente mendiga, de gente a reconstruir-se do nada a alimentar-se da Palavra. 
E diz-nos o texto deste livro de Neemias que a Palavra era entendida por todos. Que sonho, que sonho! A Palavra era entendida, era compreendida por todos.
Queremos levar esta frase no alforje, queremos que esta frase nos acompanhe, a Palavra é para ser compreendida por todos.

E nós que seguimos Jesus lembramos que Ele se fez entender muito bem, particularmente por aqueles mais despidos, por aqueles mais despidos de ferramentas, 
por aqueles menos eruditos.
Não foram os escribas que melhor o compreenderam, não foram os fariseus, não foram os doutores da lei, quem melhor compreendeu as palavras e os gestos de Jesus foi quem se reconhecia mais carente, mais sedento, mais faminto, mais indigno, mais impuro e foram multidões... que percebiam a Palavra de Jesus perfeitamente. 
Entre nós, mais ou menos como lugar comum, dizemos que há linguagens universais, que a linguagem do amor é universal. E se isto cheira a clichê demasiado cor de rosa, traduzamos amor por cuidado, a linguagem do cuidado é verdadeiramente universal.
Há quadros explícitos de tudo isto, quando vemos voluntários de países diferentes a irem para a frente da batalha, a irem para campos de refugiadas, não falam nada de línguas orientais, não falam uma palavra que se pesque, mas percebemos que se entendem muito bem porque a linguagem do cuidado, a linguagem do dom, do interesse por ti, nem precisa tanto de palavras, as palavras veem depois.

E sim, queremos comprometer-nos com isto, duma palavra que se percebe por todos, uma palavra que é compreendida por todos, porventura a Palavra que faz carne nos teus gestos, nas tuas escolhas e essa acredita que é universal e perceptível por todos.
 
Talvez seja essa atitude que Paulo pede aos seus interlocutores, aos seus Irmãos de Corinto, ela sabe que tem uma embirração de estimação com a comunidade de Corinto, talvez porque a comunidade de Corinto eram todos muito boas pessoas e muito talentosos, talvez com razões para se envaidecerem e percebemos pelas respostas de Paulo àquela comunidade que as perguntas seriam à volta disso, quem é que vale mais, o que é que é mais importante, dado que há tanta riqueza naquela comunidade.  Paulo insiste, insiste, insiste em falar de complementaridade, em falar de fraternidade, de laços, de dependência uns dos outros, de lembrar que somos todos famintos e o outro é para nós razão de nos sabermos saciados por Deus, o outro é sempre um dom, é sempre aquele que vai alimentar a tua busca. E escutávamos hoje a metáfora que não é nova, do corpo e dos seus órgãos... e queremos também segredar ao coração uns dos outros, e precisamos disso, um corpo feito de órgãos iguais, membros iguais, que frix, que frix. 

Não há um corpo de órgãos iguais, não há um corpo feito só de braços,  não há um corpo feito só de mãos, não há um corpo feito só de olhos... é incompatível com a vida, é uma abstração, cabe num quadro de Dali, não cabe entre nós e que bom se fizéssemos esse exercício pessoal, em frente ao espelho de desejarmos a diferença, de desejar que não haja gente a pensar como eu, querer como eu, a vestir como eu, a pentear-se como eu. Diz isso ao espelho, há tantos que pensam diferente de ti, que bom, que bom. 
Possa esta diversidade ser buscada e uma maneira de buscamos a diversidade e acolhendo-a, acolhendo-a na comunidade, acolhendo-a... e porventura nesse gesto de acolhimento habita essa linguagem universal do cuidado e do amor. Nos gestos de acolhimento habita a palavra universal retirada do livro de Neemias, a Palavra é compreendida por todos. 

Acolhamos a forma como Lucas nos apresenta Jesus, Ele que é a Palavra, a Palavra desejada, a Palavra feita carne e a Palavra que só tem uma forma de se fazer presente no nosso tempo que é presente no corpo, que é humanidade, que é a carne que habita o mundo. E por isso queremos que esse corpo seja um corpo vivo e não incompatível com a vida. Queremos que um corpo diverso, porque é na diversidade dos membros e dos órgãos que o corpo funciona, que a vida funciona. Jesus diz-nos Lucas hoje, nesta inauguração do seu livro, (que depois passa logo para o capítulo IV desculpem lá a viagem, não tomaram comprimidos para o enjoo e passam do I capítulo para o IV, mas não fui eu que decidi, assim escolheram os senhores que montam estas coisas).

No capítulo IV é quando Jesus volta do deserto, volta de muitas cousas, volta de um caminho longo e porventura um caminho de deserto, talvez seja isso que Lucas nos quer dizer, e todos os sinóticos. Volta ao lugar onde cresceu e assume a leitura que lhe foi dada, assume aquele grito de Isaías, que nós já o sabemos de cor, Jesus sabe-se amado e por isso sente-se enviado. E porventura cada um de nós tem razões para repetirmos este texto, e gostava só de saborear a forma imediata como Jesus se reconhece naquele texto. 

HÁ gente que não vê, eu venho para que vejam!
HÁ presos, venho libertar!
HÁ excluídos, venho incluir!
E que bom seria se na Igreja este texto também fosse assumido com este caráter tão imediato. Nós que se calhar nos habituamos a colocar burocracia à frente dos desejos.
Há pobre então vá, vamos estudar as causas da pobreza, vamos agora reunir e fazer pequenos comités, para depois percebermos se há financiamento, para depois se... 
Pois, certo tudo isso, há pobres, há famintos... Jesus apoderou-se daquele texto poderoso de Isaías com uma linguagem muito imediata, há problemas para resolver, resolvem-se! 
Há gente que se sente excluída, pois consegues num gesto fazer com que se sinta incluído, consegues com uma escolha fazer com que se sinta incluída.
Possa este texto continuar vivo como missão na nossa comunidade, na nossa igreja, nós que nos comprometemos a assemelhar-nos a Jesus, a fazer da nossa carne também o que Ele fez com Palavras feitas carne. Jesus veio cuidar de corpos, a Palavra fez-se Corpo, veio cuidar de corpos com a linguagem do corpo. 

E qual é a linguagem do corpo? A fome pertence à linguagem do corpo, a sede pertence à linguagem do corpo, o desejo, a dor, o conforto, o carinho, o afeto, a cicatrização, isto é linguagem do corpo. Não sabe o padre mais que os outros sobre a linguagem do corpo, não sabe o papa mais que os outros sobre a linguagem do corpo.
Reconciliemo-nos com a linguagem do corpo e assumamos que esse é o caminho que esse é o caminho que Jesus nos propõe, essa é a missão da igreja. 

Possa ser também esta a causa da nossa da nossa alegria.

(III dom tempo comum C - se a palavra se fez carne, podemos escrever com o corpo | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 22 de Janeiro de 2022. Neemias 8,2-10; 1 Coríntios 12,12-30 e Lucas 1,1-4; 4,14-21.)

 

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