Porque nos falta a alegria?


Queridos irmãos, queridos amigos, 

todos os que se juntam de coração amoroso a este encontro de famintos e de sedentos como dizíamos no início. 

E hoje a nossa sede é sublinhada no parágrafo que escutamos do capítulo II do evangelho de João onde, o que é que aconteceu ali? O que é aquilo? 
O que quer que seja,  a vida cristã é uma espécie de casamento, a vida cristã é uma espécie de festa, a vida cristã é o lugar onde não falta a alegria, e cada um saberá dizer isto com a sua vida, cada um saberá dizer isto com o seu percurso, com as suas feridas, com as suas cicatrizes... a mesma festa e a mesma alegria que conhece dias de dor, dias de sofrimento, conhece lágrimas e que conhece superação e que conhece erguer-nos uns aos outros e que conhece dias de sol e dias de chuva, não sabemos bem o que é que João quer dizer.
Esta história que escutámos hoje é inédita nos evangelhos, mais nenhum outro tem um paralelo sobre este texto, é talvez poucochinho o sentido literal deste texto, até porque percebemos quando começamos a juntar peças a quantidade de símbolos aqui apresentados é uma alegoria, é uma grande metáfora tudo isto  e para chegarmos ao sumo deste fruto que é este texto, ou desta semente que pode gerar frutos no teu coração, precisamos de todas as interpretações, precisamos uns dos outros, precisamos deste texto a fazer-se vida em cada um dos nossos nomes.
Saboreemos a intuição de João de nos convocar para uma festa de casamento.
E vamos, é das festas entre o registo privado da família e o registo público dos vizinhos e amigos, a festa de casamento é possivelmente a FESTA, a grande festa que as famílias viviam, que as aldeias conheciam. Diferente das festas em Jerusalém, diferente das festas mais anónimas, mais massivas, esta era a festa onde todos se conheciam pelo nome, ESTA É A FESTA!
E João convoca-nos para isto, ele que dirige à Igreja, ele que se dirige a cada um de nós, somos convocados para uma festa onde nos conhecemos pelo nome, onde nos conhecemos pelo nome.
E muitos são os detalhes que aqui estão, não vamos fazer disto um laboratório para irmos à exaustão, vasculhar vírgula a vírgula, mas também gostava que isto ficasse para a nossa curiosidade, porque é que a Mãe de Jesus não tem nome? 
Porque é que a Mãe de Jesus que toda a gente sabe que se chama Maria, porque é que João insiste no seu evangelho a colocá-la sem nome? Porque é que ela aqui não tem nome? E Jesus trata-a anonimamente ao chamar à sua querida mãe, Mulher! 

O que é que isto quer dizer, o que é que isto nos tem a dizer?
Não esquecemos um critério de leitura do evangelho, sempre que um personagem aparece sem nome, querido leitor, coloca o teu nome. 
E sim, Maria é uma de nós, para muitos é a primeira das discípulas de Jesus,  a que acolheu inseguramente uma aventura de dizer Sim e de fazer da dua vida uma Páscoa pelo dom de si própria, pelo dom dos seus planos, pelo dom dos seus desejos.
Sim, esta discípula, esta primeira discípula, é uma como tu querido leitor, e esta figura feminina que aqui é representada anonimamente, a Mãe de Jesus porventura é a Igreja, porventura é a figura da Igreja. És tu querido leitor, tu estás por aqui. E vamos, a tua interpretação também serve.

Quem queres ser neste texto?
A verdade é que sendo um casamento, nem noivo, nem noiva, não sabemos quem são, não há nomes e não sabem. Quem é o noivo? Quem é a noiva? 
Olha, querido leitor, se não tem nome coloca o teu, coloca o teu.
A Igreja é espaço onde sentes que é a festa da tua vida. 
Possa isto despertar-te a construíres na Igreja esse tempo e esse lugar onde cada um sente a festa da dua vida.

Queres ser o mordomo? Excelente, o mordomo espanta-se com a surpresa de o melhor vir no fim. E em certa medida que bom seria que nos espantássemos também, com as surpresas dos dons que nos chegam a horas tardias. Nós que esgotamos tudo nas nossas planificações, nós que esgotamos nas nossas previsões, naquilo que queremos, naquilo que projetamos... Deixa-te espantar pela surpresa que chega quando ela quer! 
E sim, nesta grande festa, nestas Bodas de Caná, há de facto um grande paralelo entre a religião da antiga lei, da lei de Moisés e isso que é o Sonho de Jesus. Não sabemos o que é que Ele fundou, não sabemos bem o que é que Ele criou, Ele morre Judeu. 
Jesus morre Judeu e nunca disse, a partir de hoje isto chama-se igreja. A partir de hoje vamos fundar uma coisa.

Ele viveu e fez umas coisas e muitos interpretaram os seus gestos e as suas palavras e Paulo deu forma de uma maneira e em cada século se foi reconfigurando o Sonho de Jesus. Talvez nuns tempos os nossos antepassados se apoderaram mais desse Sonho, noutros sentiram-se mais frágeis e abertos à construção de todos. A verdade é que desde os gestos de Jesus, desde a ausência de Jesus dos seus discípulos andamos todos a interpretar o Seu Sonho e a tentar dar forma. E neste parágrafo, nesta história, vemos bem que Jesus quer ser outra coisa, quer apresentar-se de outra forma. A lei está simbolizada naquelas talhas de pedra, que são seis diz-nos João. O número da perfeição é o número sete, e porque ao número seis falta uma unidade, o número seis é o número da imperfeição. São seis querido leitor, as talhas são seis, são seis e são de pedra, pesadas e secas, e em certa medida aqui está o diagnóstico sobre a prática da lei de Moisés que se tornou um peso, que se tornou oca, vazia, incapaz de saciar a tua sede. E está escondida talvez esta sede naquele pequeno detalhe, quando Jesus pede para encher as talhas, eles encheram-nas até cima, diz-nos João. 

E Jesus, vemos nós, a comunidade dos intérpretes deste texto, apresenta-se como o vinho, não há festa sem vinho, não há festa sem alegria, e sim não é património bíblico, é património da humanidade, vinho, festa e alegria são mais ou menos sinónimos. Há autores, que querem ver também neste detalhe da falta do vinho, querem colocar um pormenor, um detalhe, não há vinho porque Jesus bebeu para lá do que estava racionado, Jesus e os seus discípulos beberam para lá da conta, e sim não é à toa que outros evangelistas hão-de dizer que Ele tinha fama de glutão e de ébrio.
E vamos, fica com o que tu quiseres, querido leitor, e isto será sempre pouco para aquilo que tu ainda tens no coração a acrescentar a tudo isto.

Interpretemos o texto, brindemos a este texto, bebamos este texto, comamos este texto e possa este texto tornar-se carne da Igreja que sonhamos, da qual somos protagonistas para construí-la.
E sim, queremos gritar como Isaías, não desistimos enquanto esta Igreja não coincidir com o Sonho de Jesus, não desistimos! 

E qual é a tarefa de cada um? Inspiremo-nos pela intervenção da Mãe de Jesus. O que é que a Mãe de Jesus faz, ela que aqui aparece como anonima? Porventura a Igreja toda, porventura a nossa missão, ela faz um diagnóstico. Ó Jesus, não há vinho, olha lá acabou-se a alegria, não há alegria!

Enzo Bianchi chega a dizer que, se a Igreja fosse capaz de identificar, no mundo, onde não há alegria, já cumpria uma grande missão. Todos reconhecemos que, assim se identifique, também era opimo que fosse consequente.

Sintamos que esta também é a nossa missão. Identificar onde falta a alegria, porque é que falta a alegria, e porventura inspirando-nos nos gestos e nas palavras de Jesus a construirmos, a escrevermos juntos a alegria. 
Estamos em tempo, em processo Sinodal, talvez seja um refrescar deste eterno convite e desta eterna missão, onde é que falta a alegria? 

Talvez este processo Sinodal e este Sínodo, talvez seja uma questão não só do Papa, não só de quem manda nisto, mas em cada um de nós. Como é possível que entre nós que bebemos do vinho da alegria, do Vinho Novo que é Jesus, como é possível entre nós haver gente infeliz? Como é possível viver uma vida inteira carregada de feridas, geradas na comunidade? Como é possível não experimentar a alegria na igreja? Como é possível?
Eu contra mim falo, as nossas celebrações parecem fúnebres, de facto não conseguimos bem exteriorizar a nossa alegria. Se calhar é por questões culturais,  se calhar é por uma espécie de comodidade, se calhar é também por uma questão de integridade, cada um terá mil  razões, a verdade é que não e claro, que se viesse aqui um Marciano identificasse cada um de nós, especialistas em alegria.
A alegria não é stand upe e a alegria não é só comédia, a alegria não é paródia, a alegria confunde-se com felicidade. 
E felicidade o que é isso? Consiste em aproximarmos definições. Não sabemos bem! Felicidade coincide com não ter vergonha de mim, felicidade coincide em eu vestir a minha vida inteira, felicidade coincide em não precisar de esconder as minhas cicatrizes e as minhas feridas, felicidade é isso e mais, felicidade é uma vida vestida de pele e não haver vergonha nisso.

Possa o nosso trabalho neste tempo Sinodal e em todos os tempos, ser como Paulo lembrava aos Coríntios nesta primeira carta, possa o nosso trabalho ser esse de deixar-nos surpreender, porque debaixo da tua pele há um profeta, porque debaixo da tua pele há um erguedor, debaixo da pele "daquele" há um conhecimento para lá do óbvio, deixa-te surpreender porque para lá da pele "daquela" há uma capacidade de erguer, há uma capacidade de dar sentido.

Possa o trabalho da Igreja ser este de reconhecer carismas, reconhecer dons, reconhecer que no outro habita promessa, habita Espírito, habita Deus vivo. Possa isso ser ignição da nossa alegria, possa tudo isto concorrer para a nossa eterna missão, para a missão do dia de hoje. 

Reconhecer onde falta alegria, não desistir enquanto houver gente infeliz entre nós, sobretudo por feridas geradas em comunidade. E possamos nós que experimentamos o sabor do vinho novo, sermos geradores de alegria pelo dom e pelo cuidado uns pelos outros.

 (porque nos falta a alegria? - II dom tempo comum C | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 15 de Janeiro de 2022. Isaías 62,1-5; 1 Coríntios 12,4-11 e João 2,1-11.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/01/16/porque-nos-falta-a-alegria/

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