ninguém aprende a confiança sozinho
Queridas irmãs,
queridas amigas
Acolhamos estes textos de coração aberto como se fosse a primeira vez que nos fossem servidos, que possam germinar no coração as sementes que estas palavras nos trazem.
Escutámos na primeira leitura uma das páginas mais nojentas que a Escritura consegue conservar, uma história nojenta, não suportamos ter de ouvir isto, ter de gramar isto.
Pode David ter feito uma coisa destas? Usado uma mulher, destruído uma família, participando da morte de um homem inocente, tudo tão nojento... E aqui para nós, quer o cronista do reino, quer o autor que escreveu este texto, podiam falar da história de Israel a partir de acontecimentos vitoriosos, a partir de acontecimentos nobres e não faltam dados, aliás todas as histórias, todas as crónicas, tendem a ter alguma parcialidade, sobretudo estas em que contavam as façanhas dos reis, dos líderes do povo, do próprio povo. Mas que bom que os autores, ao falarem de Israel e ao falarem da história de Israel, ao falarem da história do povo que fez uma aliança com Deus, não omitiram omitiram aquilo que é património da humanidade, não omitiram a fragilidade.
Querido leitor é possível que tenhas nojo desta página, mas recorda-te que somos capazes de tudo, somos capazes de tudo!
Porém, que bom que tu não queres, não queres que aconteça o que aconteceu nesta história, que bom que tu sendo capaz não queres, que bom! Fico feliz com a tua escolha. E em certa medida as histórias compiladas nessa biblioteca a que chamamos Bíblia, falam-nos da humanidade, falam-nos fo que somos, do que somos capazes e do que somos capazes de escolher.
E se é certo que David não tem par nos reis de Israel, foi o único que uniu o seu povo, que uniu as doze tribus, foi ao tempo de David que as doze tribus experimentaram prosperidade e vamos nunca mais isto aconteceu. Nunca mais até ao dia de hoje, até à hora de agora, nunca mais.
Querido leitor esse Rei ímpar é este de que te falo, é este capaz desta página que acabaste de escutar. E eu tenho a certeza querido leitor, que tu farias muito melhor que David.
O que é que tens feito tu, pela unidade do teu povo? O que tens feito tu?
David é pequeno, é miserável. Com esta página pequeníssimo, e foi capaz de uma coisa inédita e tu, querido leitor, quenão és miserável de que és capaz?
Levamos estas interrogações para a página do capítulo IV que escutávamos do Evangelho de Marcos, onde Jesus exalta o que é pequeno. Escolhe parábolas para falar à multidão e vamos, percebemos e não percebemos, percebemos tudo e não percebemos tudo, percebemos umas coisas e não percebemos outras.
Há autores que dizem que os próprios evangelistas não perceberam bem as parábolas que estavam a escrever, o modo como as organizaram, o modo como as escreveram, dá conta de que parece que não perceberam bem, transmitem na esperança de que tu, querido leitor, possas perceber melhor do que eles. E sim, quer percebamos tudo, quer fiquem pontas soltas e portas em aberto, que felicidade haver portas em aberto, percebemos que Jesus exalta o que é pequeno e percebemos também uma nota que queremos saborear desde já, em particular explicava tudo aos discípulos, na intimidade com os seus discípulos, não ficavam questões por esclarecer.
E vamos, é no conhecimento e na intimidade que verdadeiramente se dissipam questões, se dissipam dúvidas e isso serve-nos sobretudo ao pensarmos na conclusão deste capítulo IV que temos lido de modo continuado com a tempestade no barco, com aquela história bizarra de Jesus parecer que põe os discípulos à prova, termina o capítulo com: "homens de pouca fé".
A verdade é que é a esses pequenos que é pedida a confiança, é a cada um de nós na nossa pequenez que é pedida a confiança.
Aliás a confiança não é coisa dos grandes, a confiança é coisa de pequenos porque os grandes podem ter acesso aos dados todos, e a confiança não é da ordem de ter os dados todos. Os grandes são capazes de comprar segurança e a confiança não é da ordem da segurança...
A confiança escreve-se com dúvidas, com hesitações, com inseguranças e assim é, e assim é!
Queremos seguir o caminho de Jesus, queremos alegrar-nos e dar graças, no dia de hoje, por sermos pequenos e por não compreendermos tudo e por ser assim que Jesus nos escolhe, se encanta connosco e por ser neste registo que nos pede o treino da confiança.
Olhemos as nossas relações, o modo como nos olhamos, o modo como nos medimos,
o modo como esperamos uns dos outros e recordemos que tal como escutávamos na primeira leitura, é no olhar uns pelos outros escolhendo cuidar e não abusar, que treinamos verdadeiramente a confiança.
(6a feira semana III - ninguém aprende a confiança sozinho - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Lisboa, 28 de Janeiro de 2022. 2 Samuel 11,1-17 e Marcos 4,26-34.)

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