Levo a sério um Deus que se põe na fila
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Que
bom que não precisamos de motivos para nos juntarmos, que bom que aquilo que
temos e bastante, o que temos o que trazemos, o que desejamos é bastante, é
bastante para renovarmos o tempo.
Porque é que nós celebramos este dia? Recordamos o Batismo de Jesus e o fim do Tempo do Natal, o fim do Tempo da Epifania, nós que agora vamos começar um Novo Tempo na liturgia a que nós chamamos um Tempo Comum, onde queremos tornar comum a Páscoa de Jesus. Porque é que celebramos o Batismo no final deste tempo? Talvez, estamos no domínio do simbólico, talvez porque este acontecimento na vida de Jesus, ainda que não tenha uma data no calendário, ainda que seja um momento interior, os gregos têm duas palavras pra dizer tempo, o crono que é o tempo do relógio e o kairós que é o tempo que acontece, é um tempo de outra ordem, quando tem que acontecer. E este pequeno insight na vida de Jesus, que celebramos no dia de hoje muda tudo...
LEVO
A SÉRIO UM DEUS QUE SE PÕE NA FILA
Celebramos
o Batismo de Jesus neste tempo a seguir ao Natal, porque queremos
simbolicamente dizer que o que vem a seguir é diferente.
E
queremos recordar esta verdade na vida de cada um de nós e na vida da nossa
comunidade. Depois do Batismo é diferente...
Amares
e seres amado!
É
impossível ficares na mesma, é impossível ser igual.
Percebemos
que a consciência de se saber amado e a consciência de se saber amante muda
tudo, é outra coisa.
Se
quiséssemos, este acontecimento na vida de Jesus que celebramos hoje, a
consciência de se saber amado e a consciência de se saber amante, que também
acontece na nossa vida.
Somos
capazes de amar, sendo que o amor também implica irracionalidade, desproporção,
desmesura, é o que acontece na vida de Jesus e o que acontece na vida de cada
um de nós.
E
o que queremos celebrar brindando, erguendo a taça nesta viragem de tempo,
nesta vontade de renovação do tempo.
Escutávamos
uma palavra do profeta Isaías que nos recorda um Deus que não desiste da 'cana
que ainda fumega', não desiste daquilo que parece inútil, e se Isaías estava a
falar a um povo reduzido de Israel,
Vemos
na imagem de Deus este encanto pelo que é pequeno e surpreendente.
E
vamos, na vida de cada um de nós foi ignição, quando na nossa pequenez, nas
nossas feridas, na nossa história, nas nossas cicatrizes, questionamos: Porque
me amas meu Deus, porque me amas assim?
Essa
consciência de um amor incondicional, de um amor abrangente, de um amor integral,
leva-nos a querer responder a este amor, e em certa medida o livro das Actos dá
conta de que os nossos primeiros irmãos quiseram responder a esta consciência
de um amor incondicional, exercitando um amor onde nós não distinguimos o
próximo, onde como dizia Pedro a verdade é que Deus não faz aceção
de pessoas.
E
a tarefa da Igreja será esta, em todos os tempos, não fazer aceção de
pessoas.
Amar
não distinguindo, e isto soa a cor de rosa, se não começarmos a trabalhar, se
acharmos que isto é uma abstração.
E
Não é! Quando te colocas no lugar do outro, e para isso é preciso vê-lo, e para
isso é preciso tocá-lo, é preciso a proximidade e a empatia e é preciso tudo
para desconstruir distâncias, para desconstruir rótulos, para desconstruir
preconceitos.
Vemos
Jesus consciente de ser amado, empoderado para amar, e Nele vemos a nossa vida
e a nossa missão.
Lucas
neste relato simbólico, neste quadro, coloca uma pomba a esvoaçar sobre Jesus,
a poisar sobre Jesus.
Vemos
Jesus vestido de pomba, vemos Jesus vestido de Torá, vemos Jesus vestido da
aliança, vestido da história do povo, vemos Jesus vestido de desejo, de espera
e de esperança.
Aquele
era o momento aguardado por todo o povo, aquele era o momento e para o qual
toda a Torá apontava,
Vemos Jesus vestido de Aliança, empapado do Espírito e vemo-lo, segundo Lucas, no FIM DA FILA. Jesus apresenta-se no fim da fila.
Põe-se
na fila do povo, diz-nos Lucas, depois do povo já ter sido batizado, Jesus foi
também batizado.
Queremos
saborear este Deus que se coloca na nossa fila, que respeita o nosso ritmo, que
respeita a nossa história, que anseia como nós ansiamos, deseja como nós
desejamos. E vemos neste abraço de Deus a Jesus um detalhe, a vida de Jesus foi
abraçada inteiramente e foi-lhe dito: "Este é o Meu Filho, o que eu amo,
tenho Nele todo o meu prazer".
Neste
gesto da vida inteira abraçada por Deus, lembremos uns aos outros que foi
abraçada uma Vida que nós desconhecemos.
Jesus
daqui para a frente é que vai começar a sério, conhecemos os episódios, até então
Jesus era desconhecido e importa para nós que, Jesus seja abraçado por Deus
numa história desconhecida.
E
foi-nos recordado um abraço de Deus à Vida de Jesus mesmo que a nossos olhos
seja desconhecida.
E
porquê tudo isto e porque é celebramos tudo isto? Porque se é verdade que este
é um momento gerador de Vida, gerador de energia, gerador de conversão gerador
de laços, gerador de proximidade, gerador de serviço e nós conhecemos da vida
de Jesus, a verdade é que este momento que celebramos da Vida de Jesus, será
também ele ignição na Vida da Igreja.
E
a verdade é que queremos olhar a Igreja como, capaz de se pôr na fila como
Jesus se colocou na fila.
Capaz de se entender a ela própria como par, capaz de ela própria, respeitar ritmos, respeitar esperas, respeitar capacidades, e ao dizermos Igreja, podermos podem colocar uma vírgula, isto é, EU, isto é o TEU NOME.
Possamos nós colocar-nos na fila
Possamos cada um de nós entendermo-nos como pares,
Possamos cada um de nós, que fomos abraçados, inteiramente, mesmo com aquilo de que nos envergonhamos, nós que nos sentimos eleitos por Deus, nós que sabemos que somos enviados por Ele, fomos eleitos por Ele sem mérito algum, e com uma espécie de sensação de “Meu Deus, se tu soubesses tudo não me escolhias!”.
Quem
és tu para questionar o amor de Deus pelo teu próximo?
Possa
essa consciência de um amor inteiro gerar amor inteiro.
Possa
este dia, em que celebramos o Batismo de Jesus,
possa
lembrar a Igreja como Mãe, e
também ela baptizadora, se quiséssemos,
capaz
de fazer emergir vidas novas,
na
radicalidade amorosa dos seus gestos, da sua postura, da sua forma de ser e da
sua forma de estar,
que
ganha forma nas tuas escolhas, na tua postura, nas tuas palavras, nos teus
gestos…
Possa
o dia de hoje, ser inspirador
Possa
a consciência de nos sabermos amados e de nos sabermos amantes, ser princípio
de um novo tempo
Ser
princípio de renovação!
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2022/01/09/levo-a-serio-um-deus-que-se-poe-na-fila/

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