chamados a crescer até sermos pequenos

Queridas irmãs, queridas amigas 

Voltemos a perguntar-nos, cada uma, cada um, voltemos a perguntar-nos a nós próprios porque é que celebramos o Advento todos os anos, porque é que preparamos o Natal todos os anos. Há solenidades que não precisam de quatro semanas para serem preparadas e são celebradas na mesma e são importantes para nós. 

Porque é que celebramos o Advento? Porque é que insistimos em celebrar o Natal? Porque é que insistimos em repetir as mesmas coisas todos os anos? Os mesmos textos, os mesmos gestos, para quê? Para que é que serve o Advento?

Deixemos que estas perguntas façam connosco alguma coisa, também para que estes dias saibam também a novidade, sendo que este Advento nunca se celebrou, é inédito, sendo que este dia que estamos a iniciar nunca foi vivido, é inédito. Possamos saborear novidade neste dia e  neste tempo.

Talvez nos ajude a alimentar a pergunta e a procurar uma resposta, nós celebramos Advento, nós celebramos o Natal para nos reconciliarmos com o que é pequeno.

Há dois mil e tal anos, o Messias veio à terra, dizemos nós e acreditamos. O Messias apareceu e ninguém deu por Ele.

Foi colocado na composição simbólica de Lucas, foi colocado num lugar desprezível, num lugar de animais, num lugar de alimento, esse é o grande piscar de olho de Lucas e só os pequenos é que deram conta dele, só pastores, só estrangeiros, só desclassificados é que derem conta dele.

Os que não estavam treinados ao que era pequeno, esperavam que Ele chegasse a cavalo, escoltado e com grande poder e brilho, escapou-lhes o que era pequeno.

Em certa medida nós celebramos o Advento todos os anos e insistimos em celebrar o Advento, sendo que o Advento é a melhor metáfora da vida cristã, porque queremos treinar o olhar ao que é pequeno. 

Deixemos ecoar as palavras que escutávamos na I leitura de um Isaías tardio, de um Isaías que anuncia a libertação da Babilónia e que coloca na boca de Deus expressões de mimo, de cuidado. Sim pequeno Israel, tu foste tratado como um bicho, mas és o meu bichinho. Foste reduzido, foste calcado, mas sou eu que cuido de ti. Eu não me esqueço de ti.

Em certa medida recorda-nos que Deus se encanta com o que é pequeno.

Aliás nós ainda estamos no rescaldo da grande solenidade se ontem, duma grande festa, de um feriado nacional por causa de um sim pequeno. Um sim tímido dito por uma adolescente insegura e que viu os seus planos meio hipotecados.

Olhemos para este enigmático parágrafo do evangelho, lembremos João, estamos a apresentá-lo durante este tempo de Advento como um dos personagens principais, João o Batista. E sim, ele foi esmagado, ele que foi reconhecido pelo povo como profeta, e já desde Malaquias que não era reconhecido ninguém, há quatro séculos o povo não reconhecia em ninguém profeta.

Quer Mateus aos seus leitores, quer Jesus aos seus discípulos, apresenta a figura de João como o Elias, o grande Elias, o novo Elias e todos sabiam o que isso significava, depois desse veio o Messias e ninguém deu por isso, ninguém deu por isso. 

Foi esmagado João, foi esmagado Jesus por serem pequenos.

E o que queremos recordar com estes textos e com este tempo é que essa é a nossa vocação.  A nossa vocação é sermos pequenos, e porque esta frase nos incomoda e nos causa desconforto não gostamos dela.

Repetimos todos os anos o Advento e repetimos todos os anos o Natal, a nossa vocação é à pequenez e porque nos damos mal com isso, insistimos todos os anos, até nos reconciliarmos com esta verdade.

O contrário da pequenez é a arrogância, o contrário da pequenez é o poder, o contrário da pequenez é a violência, o contrário da pequenez é a grandeza. E ao menos uma vez por ano habita o nosso coração a questão... talvez aquilo que tu consideras importante, talvez haja outra possibilidade, talvez haja outro caminho. 

No caminho do prestígio, no caminho da arrogância, da grandeza, da violência, cabes tu, os teus projetos e o teu erro, no Reino dos céus cabem todos, sabes porquê? Porque são pequenos. Imagina tu que até os mais pequenos são maiores que João que é tido como profeta.

Deixemos que nos despistem estas escalas, deixemos que por uns momentos que Deus possa ter razão quando se encanta pelo que é pequeno, quando chama o que é pequeno, talvez só o que é pequeno dê espaço a que outros caibam, a que outro caiba, a que outro possa falar.

Apresentemos ao Senhor a nossa disponibilidade de vivermos o Advento, apresentemos ao Senhor a nossa disponibilidade de celebrarmos o Natal, apresentemos ao Senhor a nossa disponibilidade em escutá-Lo na pequenez, em reconciliar-nos com a nossa vocação à pequenez.

Possa este tempo de Advento ser também um treino ao despojamento, ao silêncio, à escuta. Possa o tempo de Advento treinar-nos a ver o que é pequeno, a reconhecer-nos pequenos, para que não suceda o que aconteceu há dois mil anos, para que não deixemos que o Messias passe sem darmos por Ele. 

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | II Advento Quinta | Lisboa, 9 de Dezembro de 2021. Isaías 41,13-20 e Mateus 11,11-15.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/12/09/chamados-a-crescer-ate-sermos-pequenos/

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