como narrar o que é novo sem palavras novas?
Mesmo a meio do caminho
Advento, ainda ontem os textos que nos servia a liturgia convidavam-nos ao
registo da pequenez, à conversão do olhar, à conversão do olhar ao que é
pequeno, para que não nos escape a passagem de Jesus, já que Ele desde o
primeiro dia de vida, desde o primeiro momento em que se cruzou com a história
humana escolheu este registo para habitar, escolheu a pequenez.
A meio do nosso caminho de
Advento perguntemo-nos para que serve tudo isto.
Preparamo-nos para a
epifania, preparamo-nos para a manifestação de Jesus, e vamos, não acontece no
dia 25 de dezembro nem nos primeiros dias de janeiro, acontece hoje! E o
Advento como a vida inteira, é uma preparação para lermos a presença de Jesus
agora, hoje, com quem nos vamos cruzar. Talvez para isso sirva o advento, o
advento de cada dia e o advento deste tempo que nos propomos uma vez por ano,
como uma espécie de treino, como uma espécie de avivar a memória sobre o que
importa.
Queremos treinar o nosso
olhar.
Continuamos com este
registo do pequeno, do detalhe, do pormenor. No comentário à lei de Talmude os
judeus consagram esta frase que nos inspira também a nós, DEUS HABITA O
DETALHE.
E para reconhecermos a presença de Jesus, para nos prepararmos para a Sua epifania serve-nos porventura o parágrafo do capítulo XI que escutámos agora do Evangelho de Mateus.
Autores dizem que estas crianças que entoam melodias de flauta, a flauta era usada quer nas bodas por exemplo nos casamentos, quer nos funerais e se recordarem até acontece essa discrição nos evangelhos, há autores que vêm nestas crianças Jesus e João Batista e a seu modo de facto eles apresentam uma melodia. Uma melodia talvez nova e a verdade é que não têm auditório.
João Batista não foi aceite
na sua austeridade por muitos e associaríamos às melodias mais fúnebres e
também os mesmos não aceitaram as melodias de festa, as melodias nupciais que
Jesus à sua maneira também foi entoando.
E isto serve-nos a nós que não queremos que a história se repita, não queremos que João Batista nos passe ao lado e não queremos que Jesus nos passe ao lado. O mesmo é dizer que não queremos que Deus nos visite, de formas originais, e não o acolhamos porque não sabemos lê-Lo.
Em certa medida os
interlocutores de Jesus e também de João não souberam lê-los.
E porque é que não souberam lê-los? Porque tinham poucas palavras e Jesus não encaixava nas poucas palavras que eles tinham disponíveis, nem João encaixava nas poucas palavras que tinham disponíveis. E nós, a meio do nosso Advento, queremos lembrar-nos de que precisamos de palavras, precisamos renovar o nosso vocabulário, precisamos de refrescar o nosso léxico, precisam de palavras para lermos Jesus, para lermos a epifania de Jesus, para não se dar que não saibamos ouvir a sua melodia, não saibamos ler as suas palavras, não saibamos ler a sua manifestação, não saibamos gozar da sua presença.
E como é que nós renovamos
palavras, e como é que aprendemos palavras novas, como é que havemos de nos
enriquecer de palavras para que Jesus não tenha que se encaixar apenas naquilo
que eu prevejo,
apenas naquilo que eu sei.
Talvez este tempo de
Advento nos convide ao silêncio, ao silêncio capaz de deixar que outros se
narrem.
Quando permitimos que o
outro se conte, que o outro se diga, aprendemos verdadeiramente palavras novas
porque a maneira como narramos e como nos dizemos é verdadeiramente original.
Queremos neste tempo de
Advento dispor-nos a deixar que, Esse outro que nos visita no dia de hoje se
diga como ele é. Queremos que o tempo de hoje, o real de hoje se diga como ele
é. E nós havemos no tempo de Advento a deixarmos que o real se diga como ele é
e que o outro se diga como ele é.
Esse é verdadeiramente um
caminho de aprendizagem, esse caminho enriquece-nos. Deixemos que a realidade
acrescente Palavras Novas, deixemos que o outro acrescente Palavras Novas às
nossas palavras e esse será o contributo para lermos Deus no real e nos outros,
lermos a epifania de Deus no real e nos outros.
Possa este tempo de Advento ser o tempo verdadeiramente pedagógico, um tempo que nos enriquece na forma como despertamos os sentidos, na forma como enriquecemos o vocabulário, para lermos Deus já presente no meio de nós, para que não aconteça como há dois mil anos que nos passe ao lado.
(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Advento II – Sexta | Lisboa, 10 de Dezembro de 2021. Isaías 48,17-19 e Mateus 11,16-19.)
http://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/12/10/como-narrar-o-que-e-novo-sem-palavras-novas/

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