como duas grávidas são a imagem dos nossos encontros
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Estamos a aproximar-nos do Natal, e com mais insistência os textos que vamos insistindo em lermos em comum, nos recorda mais do que a repetição dos mesmos gestos, das mesmas palavras, dos mesmos rituais, o Natal é uma questão de relação é uma questão de Encontro e isso é repetido vezes sem conta.
E sim, se entendermos que a nossa vida inteira é um grande Advento, preparando esse grande Encontro talvez, antecipando esse grande Encontro de vermos Deus face a face. Este Advento simbólico de preparação do Natal recorda-nos que o nosso tempo, é um tempo de revelarmos Jesus presente e oculto, Jesus presente em pessoas e circunstâncias.
E para nos
encontrarmos com Ele, caberá aos nossos sentidos treinarem-se e abrirem-se à
surpresa, ao inesperado, ao impreparado, e é aí que se dá o Encontro, é aí que
alimentamos o grande Encontro, é aí que vamos encontrando meio velado, Aquele
que buscamos a vida inteira.
Henri Nowmen,
era um importante anglicano que numa dada altura da
vida, pediu para pertencer à tradição católica romana. Foi feito cardeal já no
entardecer da sua vida.
Ele dizia que, entre muitas outras coisas muito inspiradas, "A fé passiva, herdada e não repensada acabaria por entre pessoas educadas, acabaria em indiferença e entre pessoas simples acabaria em superstição".
E pegando nisto, José António Pagola, esse teólogo Basco, recorda-nos esta necessidade de olharmos a fé como uma experiência pessoal e não como uma herança de que ouvi dizer. Não é uma herança de outros, não é só um ouvir dizer de outros, que vamos encaixando com as ferramentas que nos são possíveis, porventura na infância e na adolescência somos obrigados a aceitá-la, e porventura ninguém fez connosco um caminho de razão, porventura houve quem dissesse que não era para questionar.
E sim, quantos
nossos contemporâneos se envergonham daquilo em que acreditam, porque foi um
prato servido na infância, o padre Janela tem uma expressão muito engraçada, há
muitos adultos que se envergonham de andar na rua com o fatinho da Primeira
Comunhão, aprenderam umas coisas na altura da Primeira Comunhão foi o fatinho
que lhe fizeram e nunca mais foi revisto, nunca mais foi adaptado.
José António Pagola insiste nisto, a fé como algo vivo, a fé é uma questão de relação, é uma questão de encontro, é algo de original e surpreendente e por isso não é a posse de um depósito, não é a posse de uma garantia, é dinâmico, é surpreendente e sendo um encontro carece que tu o busques, carece das tuas buscas.
E vamos, se falamos de encontro, e se falamos de busca, se falamos de surpresa, ponham-se lá por uns segundos no lugar de Maria naquela composição literária que Lucas elabora, com elementos da literatura, da religião judaica... Ele o que quer dizer é que aquela miúda simples, aquela miúda sem ferramentas, sem preparação nenhuma aceitou uma coisa, que eu não sei quem era capaz de aceitar, uma coisa tão nova, tão disruptiva, um Deus amante de frágeis, um Deus cujos destinatários não são os mais prováveis, ponham-se lá no lugar dela, se ela ficasse presa ao que ouviu dizer de Deus, ao património que lhe tinha sido dito, ela imaginaria que o Messias havia de nascer entre o povo com grande esplendor. Iria tomar posse do seu trono com todo o poder e esplendor. Nada do que aconteceu batia com o que tinham dito, nada...
Porque não queremos que nos passe ao lado Jesus, já que há dois mil anos passou ao lado a quem estava à espera de grandezas, os textos do Advento vão-nos pedindo para apurarmos os sentidos, para abrirmos os sentidos, para porventura questionarmos aquilo que já damos como certo, para questionarmos lugares, nós que nos habituamos a domesticar Deus e a dizermos onde é que Ele está, em que ideologias é que Ele anda e em que ideologias é que não anda, em que lugares é que Ele está e em que lugares é que Ele não está, em que pessoas ele habita e em que pessoas Ele não habita.
Possa o tempo de Advento ser um grande ponto de interrogação nestas certezas, nós que O buscamos. Nós que, como todos os viventes O buscamos, cada um com as suas feridas, com as suas histórias, cada um com as suas experiências buscamo-Lo.
Christian de
Chergé, era Abade no Mosteiro de Tiberíade, na Argélia, um Mosteiro Trapista,
ficaram conhecidos num filme "dos Homens e dos Deuses", tudo acontece
num grande dilema da Comunidade Monástica Tiberíade, se perante a ameaça de um
grupo radical
intitulada do Islão, se ficavam na aldeia ou se iam embora, sendo que a maior parte eram franceses e poderiam safar-se, e acompanhamos a decisão da comunidade de sair ou de ficar. (não conto o filme porque assim fica a vontade de o ver, aqueles que ainda não viram)
E este
Christian de Chergé, cultiva uma imagem, um ícone que de tempos a tempos o enriquece,
porque é verdadeiramente o ícone inspirador da sua vida e de tudo aquilo que
ele fez, e do que ele esperava que fosse o Morteiro e se quiséssemos daquilo
que ele esperava que fosse a Igreja. E sim, é este quadro da Visitação.
Nós de facto não conseguimos ficar pela leitura literal deste texto porque é bizarro que Maria vá a correr ter com Isabel, nós a pensar que ela vai ajudar a prima que já está mais velhinha e precisa de ajuda nas lides domésticas e ela vem-se embora antes do parto, para ajudar não foi nitidamente, era no parto que ela mais precisava de ajuda e no pós-parto, para ajudar é que não foi.
O que é aquilo, o que é aquilo?
O que é que Lucas nos quer dizer ao pintar aquele quadro, ele que não tem interesse nenhum em fazer uma reportagem, ele que não sabe como é que foi o nascimento de Jesus, como é que foi a gravidez de Maria, a gravidez de Isabel.
Christian de
Chergé, olha para este quadro da Visitação como inspirador ao Mosteiro de Tiberíade,
na relação com o Islão. Ele diz que, verdadeiramente nós habitados por Jesus,
cada um sabe traduzir esta frase com a sua história, com as suas feridas, com a
sua experiência, com o seu percurso, encontramos alguém grávido, habitado pelo
mesmo Deus, habitado por verdade, habitado por bondade, habitado por
beleza.
Christian olha
para a figura de Maria e para a figura de Isabel, como o encontro destas duas
religiões, ambas se louvam, ambas destilam palavras de ternura, ambas se mimam
reconhecendo-se ambas habitadas por vida, e porventura esta inspiração de
Christian para a postura dos monges Trapistas na Argélia, pode bem ser aquilo
que queremos levar deste Advento para a celebração do Natal deste ano, pode bem
ser o que é que nós queremos da Igreja? Que tipo de eclesiologia queremos nós,
que tipo de eclesiologia queremos nós? E isso começa pelas minhas decisões,
pelas minhas escolhas, pela escolha de cada um, pelo discernimento de cada um,
e porventura o convite que nos vem deste quadro de Maria e de Isabel, talvez
possa estar escondido numa segunda terceira leitura, cada um saberá quando
saborear tudo isso, poderá habitar essa certeza de que,
O OUTRO É TAMBÉM ELE PLENO DE VIDA, também ele é PLENO DO ESPÍRITO, esse com quem te encontras, esse de quem não esperas, GRÁVIDO COM TU, CHEIO DE VIDA COMO TU, e porventura se quisermos pensar melhor, foi esse o Encontro Deus connosco, Ele que reconheceu que a verdade que nos habita, a Bondade que sonhamos, a Beleza que queremos construir todos os dias, encantou-se por nós, reconheceu tudo isso em nós, reconheceu/validou a nossa experiência, a nossa história, reconheceu-nos grávidos, reconheceu-nos pares e também Ele não se poupou em gestos de Mimo, em gestos de ternura, em Palavras de ternura.
Possa o modo como fomos encontrados no nosso pouco, cada um de nós acha sempre que tem mais, pelo menos em frente ao espelho, é capaz de se achar que tem mais defeitos do que qualidades, nós que chamamos defeitos e qualidades às nossas características, cada um de nós é capaz de ter uma história de não gostar de si, de se envergonhar de si, possa este amor incondicional despistar-nos e não nos deixar na mesma, é esse o princípio Pascal de um Deus que te ama como tu és, e só isso deixa-te sem jeito e com uma grande questão, o que é que eu vou fazer já que sou assim? O que vou fazer se Deus me quer assim?
Possa tudo isto der ignição possa tudo isto ser primeiro passo, para o grande Encontro que estamos ansiosos por ter, e que no Advento aprendemos a antecipá-lo em cada dia, em cada circunstância e com cada pessoa.
(como duas grávidas são a imagem dos nossos
encontros - IV advento C |breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de
Santa Marta, Lisboa, 18 de Dezembro de 2021.| Miqueias 5,1-4; Hebreus 10,5-10 e
Lucas 1,39-45.)

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