Só o pobre se faz pão
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Ponto prévio, eu gosto muito de vocês, em relação pessoal, aqueles que
temos a sorte de ter uma relação pessoal, e claro que tenho muito
carinho, muita simpatia pelas pessoas que aqui vêm pelas pessoas que
fatalmente habitam esta casa, pelas pessoas que com muita ternura nos
acompanham à distância e faço este ponto prévio para que ninguém se chateie
comigo, porque o texto de hoje não pode ser adoçado, não confundam o que se
passa nesta página do Evangelho com os meus estados de alma, nem com a minha má
disposição, nem com o meu stress de última hora.
Nós conhecemos a frase de Newton que lembra que viu mais longe porque
caminhava aos ombros de gigante porventura se há mês onde nos lembramos mais
frase é talvez este mês de novembro onde lembramos com especial ternura
lembramos aqueles que já morreram, os nossos amores, aqueles de quem somos
feitos, os ombros sobre os quais nós caminhamos, aqueles que são e que por isso
nós somos, aqueles que foram e por isso nos somos, seja aqueles que
amamos seja queles que nos ensinarem as artes de nos perdoarmos. Aqueles
que nos causam muita saudade e que nos causam muitos remorsos, aqueles que nos
causaram muitos sofrimentos, todos eles são responsáveis pelo diamante lapidado
que tu és.
E se é verdade que nós podemos lembrar essa frase de Newton, segundo a qual
nós vemos mais longe porque caminhamos aos ombros de gigante, faz sentido
pensando em pessoas, também faz sentido pensando em escolhas, em património da
nossa tradição, e nós hoje, também somos este cristianismo porque caminhamos
aos ombros de outros que deram forma ao cristianismo do hoje da história, do
hoje daquele tempo.
E para quê tudo isto? Nós fomos desenhados, nós fomos construídos, o Sonho
de Jesus foi ganhando forma, século após século, com uma opção de Jesus muito
clara pelos pobres. E se a igreja não fosse perita em mais nada, devia ser
perita na escolha principal dos gestos de Jesus, na escolha principal das
Palavras de Jesus, devia ser obcecada com a pobreza, devia ser obcecadas pela
eliminação da pobreza, devia ser obcecada pela integração dos pobres, devia ser
obcecada por tudo isto, para que ninguém se sentisse excluído, devia ser obcecada
para que ninguém reproduzisse tiques de indiferença, estruturas de indiferença,
estratégias de indiferença, a igreja devia ser perita nisto. E esses são, os
nossos ombros sobre os quais nós caminhamos.
E a partir daqui, recordo que eu gosto muito de vocês, e este texto
aborrece-nos porque abre a ferida que estava quase cicatrizada, porque nos
recorda que nós borrifamo-nos para o Sonho de Jesus, porque nos recorda que nós
fomos esquecendo, século após século, os pobres.
Muito se tem feito, pela eliminação da pobreza, e eu diria que século algum
conheceu o que faz hoje, e que bom, e que bom.
Há gente nesta capela que tem idade para se lembrar, que por exemplo em
Lisboa, se ampliou um palácio para tirar das ruas indigentes para os fazer
viver pior. E concentravam-se como um pavilhão de Auschwitz, concentravam-se
pessoas sem qualquer respeito e sem qualquer condição para morrerem longe da
vista de quem estava maia limpinho e engomadinho, há gente nesta capela que se
lembra disso. E nós já não temos isso, é um grande ganho, é um grande ganho!
E nunca talvez o estado, os nossos dinheiros públicos, o dinheiro dos nossos impostos nunca foi tão gasto com gente que não tem. Não houve outro século, entre o século vinte e o século vinte e um, que gastasse tanto para tirar pessoas da pobreza e ainda hoje o estado está a gastar muito dinheiro sobretudo depois da pandemia, a alugar casas, a alugar quartos, a montar centros de acolhimento que todos os dias recebem mais gente, todas as semanas recebem mais gente, a abrir centros de acolhimento após centros de acolhimento, nunca se gastou tanto, nunca se fez tanto.
Ainda assim nas nossas conversas de café, nas nossas conversas de igreja ou
não vemos ou não queremos ver, nunca sublinhamos isto, e às vezes até dizemos o
contrário.
Porém, temos de reconhecer que essa Palavra de Jesus, que envergonhou os mais ricos que a ouviram, junto da Arca do Templo, inquietou os discípulos, deve continuar a inquietar-nos a nós que não temos este problema resolvido e pelo contrário esquecemo-nos da prioridade, esquecemo-nos da única prioridade.
Deus queira que eu esteja a ser um abuso ao dizer isto, porque eu tenho que
dizer coisas como se fosse em nome de todos, e é óbvio que não consigo dizer o
que vai no coração de cada um e é possível que o que eu esteja a dizer ofenda
quem se debate com estas questões e volto à primeira frase, eu gosto muito de
vocês.
Que isto não se confunda com os meus estados de alma, mas que sirva de
estímulo a fazer o que ainda falta.
Há uma autora espanhola Adela Cortina, que nos anos 90 do século
passado lembrou o conceito da aparofobia, que é o que está em cima da mesa, é o
que é nosso, é o que foi talvez em todos os tempos, mas é algo que explica
aquilo que nós tentamos explicar por outras vias. A aparofobia é a fobia dos
pobres. Nós às vezes falamos de xenofobia e de medo dos estrangeiros, nós não
temos medo de estrangeiros nenhuns, os estrangeiros fizeram Lisboa ser fértil,
fizeram Lisboa ser rica, fizeram o país enriquecer alguma coisa com o
turismo, os estrangeiros são ótimos e nós amamos os estrangeiros, o problema
são os pobres e é verdade que não os queremos, os pobres dos outros no nosso
país representa uma ameaça, achamos que desequilibra o sistema, achamos
que querem o que é nosso, achamos que vão tirar o trabalho que é nosso,
com
o se nós fossemos capazes de trabalhar um dia sob as condições que eles
trabalham ou com o trabalho que eles trabalham e que nós não queremos. Não, nós
temos medo é de pobres, nós temos fobia a pobres, nós não os queremos ver e
porquê? Porque questionam o nosso estilo de vida, porque questionam as nossas
escolhas, porque questionam os nossos sucessos, porque questionam tanta coisa.
E normalmente esta conversa acaba com um grande argumento, estás a falar, mas
depois não atuas e já está.
Que a minha hipocrisia não justifique a vossa hipocrisia, que os meus erros não justifiquem os teus erros, que não desculpemos no primeiro argumento a nossa inércia.
Possa este texto continuar a sangrar na nossa comunidade e na bida de cada um.
Possa este texto ir para o travesseiro connosco, nós que admitimos cada um com as suas histórias, eu por exemplo pertenço a um Instituto, a uma Congregação, a que eu costumo chamar uma seita, só para nos lembrarmos do ridículo que é chamarmos seita a quem quer que seja.
Eu pertenço a uma Congregação que foi montada em Portugal com esmolas, pessoas pobres e ainda hoje temos milhares de pessoas que nos dão cinco euros por mês, e isto para dizer que nós conhecemos e sabemos que quem tem menos é quem dá mais, e quem tem menos é que consegue colocar-se no lugar do outro e perceber as dificuldades dos outros.
Possa este texto devolver-nos o verdadeiro sentido cristão, de que não nos podemos dizer cristão, não podemos colocar o pin da cruzinha na lapela se não fizermos nada pela pobreza, se não fizermos nada por quem é pobre e se não podemos dar dinheiro, porque eu sei que nesta capela e também há gente que nos acompanha à distância que chega ao fim do mês com a sua conta a zero, ainda assim não justifica que eu não cumprimente, ainda assim não justifica que eu não fale, e nestes Centros de Acolhimento que têm aberto o trabalho principal que cada vez mais se vai desenvolvendo é a escuta, e há tanta gente que fala só quando é visitada.
Possa este texto ficar a moer-nos por dentro.
Possa este texto ser levado para o travesseiro e nos diálogos de
consciência.
Possa este texto fazer Páscoa connosco.
(só o pobre se faz pão - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XXXII do Tempo Comum B | transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 6 de Novembro de 2021. - 1 Reis 17,10-16; Hebreus 9,24-28 e Marcos 12,38-44.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/11/07/so-o-pobre-se-faz-pao/

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