Ampliados no silêncio, na ausência e na demora
Deixemos que este parágrafo de Lucas se dirija também a nós, ele que foi
escrito para uma comunidade de gente que começava a desanimar, de gente que com
a demora de Deus começava a desanimar.
Lucas inscreve este parágrafo que é a abertura do capítulo XVIII, inscreve
esta história num bloco se três temas, de três vontades de Jesus aos seus
discípulos a caminho de Jerusalém, a preparar-se para Jerusalém.
Escutávamos há dias a história dos dez leprosos e do único que vem
agradecer sendo ele o mais desclassificado, e com isso Lucas quer estimular a
comunidade dos leitores a quem se dirige à gratidão. Nesta história à
fidelidade à permanência e mais à frente estimulará à confiança em Deus e à
dependência uns dos outros, mais do que à confiança em si e a depender apenas
de si. E queremos acolher este texto também com o seu carácter pedagógico.
Lucas quer ensinar, quer educar a sua comunidade, Lucas quer também
estimular ao caminho de seguimento de Jesus. Isto porque de verdade o tempo
presente e a complexidade do tempo presente, desanima-nos ou pode
desanimar-nos. E em rigor para as primeiras comunidades cristãs que esperavam a
segunda vinda de Jesus já daqui a uma semana, ao verem o tempo a passar
interrogavam-se, será que estávamos certos? Será que seguimos o Deus certo?
Será que estávamos equivocados? Será que tudo isto foi um falhanço?
Porque no tempo presente acontece aquilo que nos custa a aceitar, é no
tempo presente que acontece a injustiça, é no tempo presente que acontece a
corrupção, é no tempo presente que vemos o justo sofrer injustamente, é no
tempo presente que vemos a dificuldade das respostas de bondade ganharem forma
para resolverem os problemas, é no tempo presente que vemos o grande poder da
inércia, é no tempo presente que nos vamos desentendendo, que nos vamos
desencontrando, que nos vamos desanimando, é no tempo presente que Lucas acha
que deve insistir aos seus leitores a saborearem o verbo permanecer, o verbo
dos amantes, o verbo de quem quer viver fiel. Permanecer, permanecer,
persistir.
Nós pela complexidade do tempo presente costumamos fantasiar, e o discurso
religioso também costuma fantasiar sobre o tempo anterior e sobre o tempo
futuro e como o tempo presente é muito complexo, nós descansamos numa espécie
de fantasia sobre a simplicidade do tempo antigo e a simplicidade do tempo que
há-de vir.
Mas convém lembrarmos uns aos outros de vez em quando que isso é uma grande
fantasia, antes do nosso tempo, nao houve nenhum tempo simples nenhum...
Se recuarmos décadas e séculos vamos encontrar tempos que eu estou certo que
nenhum de nós queria viver lá, nenhum de nós queria esse tempo para si.
Entre guerras de definição entre fronteiras e povos, entre morte por
doenças que nós sabemos responder, entre desigualdades profundas, entre realeza
e nobreza e povo, não queríamos nada disso para nós e não eram mais simples os tempos
passados. Eram mais simples quando nós éramos crianças e a nossa
responsabilidade era brincar, ser feliz e estar nos braços de alguém que
cuidava de nós. Quem é que não tem saudades?
Mas vamos, o tempo presente é complexo e exigente e por isso Jesus pede aos
seus discípulos permanência, persistência, e Lucas pede aos seus leitores o
mesmo.
E curioso, ao convocar para o tempo presente todas as ajudas, nós
precisamos de tudo para compreender o tempo presente, da sociologia, da
filosofia, da história, das ciencias exatas, de todas as ciências humanas, das
ciências médicas, nós precisamos de tudo e tudo não chega para compreendermos o
tempo presente que Jesus pede aos seus discípulos para no meio disto tudo
acrescentar oração, oração. E nós diríamos, caramba o tempo já e tão voraz, já
é tão acelerado, vamos nós agora ainda ter que encontrar tempo para a oração.
Sim, e tu és capaz!
Em todo o caso, lembremos a frase tão feliz de Simone Vaille que nos recorda
que a oração é a atenção.
E talvez o que seja preciso num tempo tão complexo que é o tempo presente, seja a tua atenção, seja a tua atenção.
Mais fácil no meio desânimo é respondermos à existência do outro uma certa indiferença.
A oração é a atenção e se quiséssemos traduzir a frase de Jesus, "orai em
todo o tempo", permanecei atentos consequentemente atentos em todo o
tempo.
Em que é que vais converter a tua persistência, em que é que vais converter
a tua insistência nesta grande demora de Deus? Não sejas como este juiz, não
sejas como este juiz!
E por falar em demora de Deus, queremos agradecer a demora de Deus, nós que
no tempo presente experimentamos o silêncio de Deus, a ausência de Deus e a
demora de Deus.
Queremos viver atentos e agradecidos por isto, agradecidos pelo silêncio de
Deus, pela ausência de Deus e pela demora de Deus.
Só o silêncio pode ampliar o nosso esforço, só o silêncio pode ampliar a
nossa palavra, só o silêncio pode ampliar as categorias com que nos arrumamos e
com que nos dividimos e queremos agradecer o silêncio de Deus no tempo
presente. Só a demora de Deus amplia a nossa pressa, só a demora de Deus amplia
os meus desejos apressados sobre a minha vida e sobre a vida dos outros, sobre
o que eu devo ser e sobre o que os outros devem ser.
Só a demora de Deus amplia a nossa pressa e só a ausência, permite
que sejas como tu és. Só um Deus ausente não te esmaga com a sua vontade
explícita, com a dua presença pesada. Só a sua ausência permite que tu cries
permite que tu compreendas o que é complexo e te importes com o que é complexo
e procures soluções naquilo que é complexo.
Queremos no dia de hoje agradecer o silêncio de Deus, a demora de Deus, a
ausência de Deus, queremos reconhecer que só com essas condições é possível
amarmos de formas originais é possível permanecermos com aquilo que somos e com
aquilo que temos.
Só com a ausência, o silêncio e a demora de Deus é que podemos pensar em
depender uns dos outros construir comunidade, dar forma ao Sonho de Jesus.
Queremos sentir-nos como aquele cúmulo de fragilidade que é aquela viúva, o
cúmulo da desproteção social, queremos sentir-nos como ela, implicados com a
justiça e a injustiça e mesmo achando que somos poucos, somos muitos. E mesmo
achando que somos poucos, somos muitos a querer o mesmo, somos muitos a sonhar
com o mesmo. Somos muitos na ausência, no silêncio e na demora de Deus, a DAR
FORMA AO SEU SONHO.
(ampliados no silêncio, na ausência e na demora – breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | semana XXXII – Sábado | Lisboa, 13 de Novembro de 2021. Sabedoria 18,14-16 – 19,6-9 e Lucas 18,1-8.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/11/13/ampliados-no-silencio-na-ausencia-e-na-demora/

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