Sabes dizer quantos anos demoraste para te amares?

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos 

Também nós como aquele Escriba, ao longo do tempo fomos achando que Jesus tem piada, que Jesus consegue deixar em aberto tantas coisas, consegue despertar caminhos em cada um de nós, a ponto de vencermos a chuva e virmos aqui por exemplo, lembrar um gesto dele, lembrar que quando nos reunimos em seu nome, Ele está entre nós, Ele está dentro de nós, Ele está no meio de nós. 

Também nós como aquele Escriba somos seduzidos por Jesus, sentimo-nos seduzidos, fomos seduzidos, vivemos ainda da sedução que Ele nos provocou e do desejo que habita o nosso coração de conhecê-Lo, de conhecê-Lo mais, de conhecê-Lo melhor, de vê-Lo face a face. Porventura é isso que nos anima, porventura é isso que dá paz, quando sentimos que nos vamos perdendo uns aos outros, quando perdemos quem amamos. Sintonizemos com aquilo que acontece neste parágrafo que escutávamos mesmo agora do Evangelho de Marcos, Jesus já anda por Jerusalém, já não vai sair de lá e uns minutos antes, grande discussão com os Saduceus. Nós que demoramos com Jesus na Galileia, demoramos com Jesus antes de chegarmos a Jerusalém ouvimos falar pouco dos Saduceus.

Os Saduceus têm origem no grande sacerdote Zadoque e são a classe que ordena a vida no Templo, organiza a vida no Templo e nós já sabíamos que apesar de Jesus ser muito semelhante aos fariseus no conhecimento da Lei e na sedução da Lei, no ensino da Lei, percebemos muito que se distingue dos fariseus na hora de escrutinar a vida  dos outros, se cumprem ou se não cumprem, e medir a legislação e safar-se sempre, usar a Lei em proveito próprio. Nós percebemos que Jesus apesar de muitas semelhanças com os fariseus, nós sabemos que houve irritações uns com os outros e os fariseus estão em rota de colisão com Jesus,  também sabemos que  os doutores da Lei têm o mesmo problema,  também sabemos que  os escribas têm o mesmo problema e vamos perceber, se nos apetecer ler os parágrafos anteriores aos que acabámos de escutar hoje, também os Saduceus se perfilam nas fileiras dos inimigos de Jesus, dos que vão fazer a folha a Jesus, dos que não vão tolerar que o Messias seja assim, tão frágil, tão desarmado, tão desarmante,  tão cheio de últimos como seus primeiros destinatários não vão perdoar e vão ser implacáveis como foram com todos os profetas. 

Porém acontece neste diálogo algumas coisas, e isto cada um teria tanto a partilhar nesta hora, e se vos parecer bem de seguida também dá para dar eco disso, eu gostava de pontuar três aspetos deste diálogo que servem muito para a vida comunitária, para a vida da Igreja e para o nosso percurso pessoal, para o nosso percurso também ele solitário de descoberta e de seguimento de Jesus.

Qual é o maior mandamento da Lei?  Nós sabemos que, do património judaico e nós herdamos isto, herdamos um ordenamento social, aqueles dez mandamentos, mesmo para não crentes, possivelmente faz com que consigamos montar esquemas e sociabilidades que funcionam, onde queremos a justiça, onde não queremos abusar de ninguém e sim, esses são os dez mandamentos da tradição judaica e desses dez mandamentos e dos cinco livros onde se consagram esses dez mandamentos, da Torá, conseguiram-se, com comentários e comentários aos comentários e comentários aos comentários dos comentários,  conseguiu-se chegar a 613 prescrições que todo o bom judeu deve observar, 375 são proibições e as 100 e demais são obrigações. E todo o bom judeu sabe os dez mandamentos e porventura a Torá de cor, pelo menos ao tempo de Jesus, os 613 preceitos que deve observar diariamente, desde que se levanta até que adormece, e porventura os 150 salmos, e porventura os mais aficionados os Livros dos Profetas, Isaías incontornável, Jeremias, e demais comentários à Lei, Misha, Talmude...

Isto para dizer, verdadeiramente esta pergunta emerge quando nos perdemos nas miríades de mandamentos, nas miríades de preceitos e ao tempo de Jesus outros Rabis como Ele, procuravam uma síntese. E o que este um dos Escribas vem pedir a Jesus, ainda que ele não pertença ao grupo dos discípulos, parece que simplesmente vai consumir uma resposta de Jesus, mas ainda assim traz ao evangelho de Marcos uma questão que para nós, ainda  hoje é de muita importância, queremos ouvir de Jesus uma síntese nós que não cumprimos os 613 preceitos, nós que comemos marisco, os que não são alérgicos, nós que comemos peixe sem escamas, estão nas 365 proibições, nós que comemos e bebemos tudo (olhando para mim percebem que há poucas restrições na minha dieta), e Jesus sim, talvez o que terá inaugurado foi esta religião única no mundo e na história até então,  e mesmo depois que não tem alimentos proibidos e apesar de nós não ligarmos muito a  isso é decisivo. 

Aproveitemos esta síntese de Jesus, que bom que foi preciso um que não foi discípulo de Jesus fazer-lhe esta pergunta e desta síntese queremos lembrar cada um de nós, que precisamos também nós fazer sínteses, seja a nível pessoal seja a nível comunitário, o mesmo é dizer, precisamos de lembrar prioridades, precisamos de lembrar o que é que é importante e o que é que é acessório, que é que é essencial e o que é que é acessório.

Por exemplo neste tempo em que, não há como sair, é como se apanhássemos uma grande chuvada, já não ficamos secos. Neste tempo que se iniciou de Sínodo Para os próximos três anos, em rigor estamos no caminho da síntese, qual será a prioridade agora? As necessidades agora? Quais são as possíveis soluções para atendermos as necessidades de agora? 

Em todos os tempos da história há este esforço de pontuarmos o que é prioritário, que é que é essencial e o que é que é acessório, e temos de reconhecer que temos perdido muito tempo na vida da igreja, muito afeto e muitas pessoas por acharmos que o acessório é essencial, por acharmos que o acessório é essencial. E precisamos da luz do Espírito para o discernimento pessoal e comunitário, para sabermos dizer uns aos outros o que é que é essencial e o que é acessório. 

Jesus responde àquela pergunta, como se costume, com uma resposta difícil de caber na forma da pergunta e isso é típico em Jesus, ele pediu-lhe qual é o maior mandamento e Jesus apresenta-lhe dois, e não está disponível para separar um do outro.  E Jesus cita Deuteronómio, aliás líamos na primeira leitura, e é o que todo o judeu sabe de cor e tem até pregado à porta, é a oração de todo o judeu, todos os dias, não existe judeu que faça as orações que não saiba esta de cor. ESCUTA! E decisivo é este verbo logo à entrada. Escuta Israel o Senhor teu Deus é o único Deus, vais amá-lo com todo o teu coração, com todo o teu entendimento, com todas as tuas forças, e Jesus escolhe colocar uma vírgula nessa oração que todos conhecem do Deuteronómio, para ir ao Levítico resgatar um versículo do capítulo 18 versículo 19, e amarás o próximo como a ti mesmo.  Não há maior que isto, não há maior mandamento do que este. E são dois, não te sei responder a um, são dois e não consigo separa-los.

E para nós importa-nos muito porque recebemos de Jesus este tesouro, que é, não podemos ouvir ou querer ouvir a voz de Deus calando outros, calando a voz de outros. A partir da frase de Jesus, o caminho inaugurado neste diálogo que se apresenta a cada um de nós, querido discípulo, querida discípula, queres ouvir a voz de Jesus? Não te passe pela cabeça mandar calar alguém para ouvires a voz de Deus.

Queres ouvir Deus? Que não te passe pela cabeça mandares calar alguém para ouvir a voz de Deus. O caminho inaugurado por Jesus é este, se queres ouvir a voz de Deus escuta, escuta, escuta, escuta... e não mandes calar outros, porque Deus é OUTROS.  E no meio deste diálogo e desta resposta de Jesus, este versículo resgatado do Livro do Levítico, amar o próximo, não nos custa saber de cor e saber que faz parte dos mandamentos de Jesus, nós que somos devedores de tanta moralidade e pior de tanto moralismo, nós que somos herdeiros de não ao egoísmo, não à vida presa às nossas medidas idas, aos nossos cálculos, ao nosso conforto e à verdade que é sábio pedir que a tua vida não se esgote só em ti e no teu     

orçamento e no teu tempo, mas habitualmente achamos que esse amor de si próprio é a mesmíssima coisa que egoísmo, e que vida pequenina, e que vidinha. 

Lembremos que Jesus foi resgatar esta frase ao Levítico completa, amar o próximo como a si mesmo, está lá dito, amar-se a si mesmo. 

E há-de ser a escala para amarmos outros, amar-se a si próprio.

E com isto termino, gostava que levássemos isto connosco como inquietação. Nós que fomos educados a não gostar de nós, nós que fomos educados a gostar de uma pessoa que não existe, que é o meu eu ideal, o meu eu com bom feitio, o meu eu paciente, o meu eu com tempo.

O meu eu que perdoa, o meu eu que tem paciência não existe.

Não existe, é um produto da minha fantasia, da minha criação, logo não é líquido que Deus o ame. Deus ama tudo o que criou, vamos admitir, e o que eu crio vamos, é uma criação minha, não obrigues Deus a amar isso.

AMAR-SE A SI MESMO, nós não amamos o que não conhecemos, supõe verdadeiramente um conhecimento de si, e o conhecimento de si dura a vida inteira. De facto, a nossa vida é complexa e o conhecimento de nós próprios não é uma coisa que se arrume, na infância ou na adolescência ou no início da vida adulta, o conhecimento de si acompanha-nos a vida inteira, e vamos reconhecer aqui para nós que se não nos conhecemos não nos amamos, e se não nos amamos, vivemos uma revolta permanente, vivemos uma inquietação ao lado e desperdiçamos energia ao lado. E como olhar o outro na sua verdade se eu não me olho na minha? E como aceitar o outro inteiro se eu não me aceito a mim? 

Possa o caminho de Jesus ser um convite a cada um de nós a não desistirmos da vida inteirinha, ao conhecimento de nós próprios, seja porque caminho for, não há caminhos inválidos de autoconhecimento, não há espelhos inválidos. Os espelhos refletem e tu precisas de te ver, precisas de ver-te, precisas de dizer-te, precisas de conhecer-te, e vendo aquilo que Deus vê, a tua verdade, amas-te como Deus te ama. E talvez esse é o gatilho por onde começamos a olhar as nossas características já não como defeitos ou qualidades, mas como características e o que é que eu posso fazer com elas? Já não vou esgotar a minha vida a criar uma pessoa que não sou, vou perguntar-me como é que faço com isto e como é que eu faço caber mais gente com isto? Como é que eu ergo gente com aquilo que sou? 

Possa este diálogo de Jesus estimular-nos à novidade que Ele vem trazer, ao discernimento entre o importante e o acessório, à impossibilidade de associação de descoberta de Deus sem outros, e este fantástico detalhe de não avançarmos se não nos conhecermos. Dificilmente amamos generosamente, em verdade e inteiros outros, se não olhamos em verdade e se não nos amamos inteiros.

(sabes dizer quantos anos demoraste para te amares? - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XXXI do Tempo Comum B | transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 30 de Outubro de 2021. Deuteronómio 6,2-6; Hebreus 7,23-28 e Marcos 12,28-34.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/10/31/sabes-dizer-quantos-anos-demoraste-para-te-amares/

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