O desejo de construir uma casa com pedras inteiras
Queridas irmãs, queridas amigas
Neste texto iniciámos o capítulo XII do evangelho de Lucas, sendo que o
capítulo anterior termina duma forma muito seca. Jesus foi convidado para uma
refeição em casa de um fariseu, andámos com esse texto nos últimos dias, Jesus
foi convidado para uma refeição em casa de um fariseu e não houve refeição
nenhuma, Jesus chegou e sentou -se sem se lavar, o fariseu ficou chocado com
isso e terá manifestado um olhar de censura a ponto de Jesus partir a loiça
toda, a ponto de Jesus mandar vir com fariseus e com doutores da lei ali
presentes, e de tão mal disposto aquele ambiente ficou que não há relato de
nenhuma refeição e Jesus saiu dali, quem é que comia com aquele ambiente?
E nesta mudança de capítulo vemos também uma grande mudança de
interlocutores. Se Jesus não tem espaço naquela mesa, se aquela casa ficou
vazia da presença de Jesus, o narrador Lucas faz questão de
começar este capítulo XII lembrando que se há uns que rejeitam Jesus, há outros
que vêm nele o Messias, há outros que vêm nele sentido. Eu acredito que tu também
estás nesta multidão, pensaria Lucas a respeito de nós, e queremos nós sim,
acotovelar-nos para cabermos nesta multidão, não queremos ser o da casa daquele
fariseu que olhava por cima do ombro para Jesus, afinal, mas quem é este? Quem
é que ele pensa que é? Nós não queremos perguntar isso a Jesus, nós queremos
segui-Lo, nós queremos pôr-nos atrás Dele, e Jesus dirige-se aos mais íntimos,
àqueles que ineditamente ouvem esta expressão, meus amigos, meus amigos.
Nós somos aqueles a quem
Jesus pede inteireza. O problema dos fariseus é cortarem as palavras dos
gestos, as palavras das ações, falam muito bem, encantam muito bem, são muito
eruditos, conseguem entreter uma viúva uma manhã inteira para depois também
poderem almoçar por lá, pelo menos Jesus lembra o abuso dos fariseus de casa em
casa, a venderem a sua eloquência e a ganhar com isso. Eram capazes de seduzir
e Jesus dá conta da destruição que isso provoca, até nós não saberemos se isto
é só Jesus a falar dos fariseus, senão será também Lucas a falar à sua
Comunidade, a quem se dirige, sobre os mais eloquentes a falar da Palavra e que
verdadeiramente não cumprem, e que verdadeiramente não se vê essa eloquência
nos gestos, nas escolhas.
Lucas dá conta de que o problema dos fariseus o fermento dos fariseus, aquilo que define a ação dos fariseus, a vida dos fariseus é à hipocrisia. A hipocrisia é da ordem da separação, da separação entre o que digo e o que faço. E Jesus pede aos seus amigos inteireza, inteireza.
As imagens, que a seguir Lucas compõe, as imagens que eventualmente Jesus
terá dito, dão conta dessa necessidade, desse contraste entre a destruição e a
inteireza. A geena era uma espécie de incineradora, era uma fogueira permanente
numa das encostas da muralha de Jerusalém, para onde se atirava o lixo e era um fogo
perpétuo porque todos os dias se atirava lixo para ser destruído, e esta imagem
da geena está presente em muitas imagens de muitos pregadores, muitos Rabis,
Jesus também recorre a ela para falar de destruição, sendo algo clássico que
toda a gente sabe o que é, toda a gente vê.
Jesus diz-nos que a destruição, e Lucas porventura também à sua comunidade,
a destruição de uma comunidade pode começar por isto, pela distância entre o
que se vive e o que se faz, pelo divórcio entre o que se diz e o que se faz.
Nós professámos coisas tão belas, tão construtoras, nós somos capazes de
fazer grandes propósitos e também eles eloquentes evangélicos e construtores, e
no dia-a-dia é onde podemos medir a verdade das nossas palavras, é no dia-a-dia
que jogamos o tudo da nossa consagração, da nossa dedicação, queremos que este
texto também nos evangelize, nós que não somos fariseus, queremos acolher o
pedido de Jesus à sermos inteiros, a sermos inteiros, até os vossos cabelos
estão contados, vales inteiro! E este convite à inteireza é um
convite a amarmo-nos como somos, mesmo com a nossa incapacidade de sermos
aquilo que gostávamos de ser, RECORDA-TE QUE DEUS TE CRIOU ASSIM E TE AMA
ASSIM, quem és tu para não gostares?
Possa este texto devolver-nos o amor pela nossa condição de frágeis,
inacabados, incompletos.
Possa este texto devolver-nos a certeza de que não temos que ser perfeitos
a nossos olhos e com os nossos critérios para sermos amados por Deus.
Que bom seria que este texto colocasse na balança o esforço da nossa
perfeição, nós que nesse esforço de perfeição partimos tantos, partimos tantos,
causamos tantas feridas,
Possa este texto devolver-nos a certeza de que o valor está na inteireza.
Que coincidência hoje lembrarmos Teresa Grande, Teresa de Jesus, Teresa do
bigode? que coincidência feliz lembramos essa mulher que reformou uma Ordem com
esta inquietação no coração, a coerência.
Ela que olhou para uma Instituição e viu o divórcio entre as palavras e os
gestos, entre a riqueza e a pobreza, a pobreza proclamada e a riqueza de cada
dia, ela que descobriu o poder da inteireza e da coerência a começar no próprio
coração.
Possa servir também para nós de inspiração, nós que nos dispomos a um
caminho Sinodal nos próximos anos
Possa esta certeza habitar o nosso coração
A Igreja muda se mudares, a Igreja torna-se evangélica, se tu te tornares
evangélico.
A Igreja torna-se inteira, se tu te tornares inteiro.
A Igreja acolhe, se tu fores capaz de acolher.
(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | semana XXVIII – Sexta | Lisboa, 15 de Outubro de 2021. - Romanos 4,1-8 e Lucas 12,1-7)

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