Chamamos oração a todo o Tempo que nos faz aberto
Este evangelho
na continuidade do capítulo do evangelho de Lucas que temos seguido, fala-nos
de oração e a memória de hoje também nos fala do que fazemos com a nossa
oração.
Não é fácil
encaixarmos a Memória do dia de hoje. Hoje lembramos a batalha do Lepanto que
também é do século dezasseis, e impedimos surpreendentemente, a expansão
do Império Otomano, a expansão do Islão e colocamos Deus ao barulho e
dizemos que foi a Mãe de Jesus que matou os nossos inimigos, que nos ajudou a
matar os inimigos, isto é difícil de encaixarmos. Não há Deus algum que queira
a paz com vencedores e vencidos. Não!
Somos nós,
sempre que acharmos que Deus nos mata os inimigos, somos nós. E estamos nós a
criar imagens de Deus à nossa imagem e semelhança é à imagem dos nossos
caprichos.
É difícil
encaixarmos tudo isto, porém compreendemos o desespero dos nossos irmãos no
século dezasseis e compreendemos que tenham atribuído a vitória a gente maior
do que eles.
E,
precisamente por esse exercício de pedido, de oração, de atribuição de intercessão,
talvez seja bom voltarmos a esta página do evangelho de Lucas do capítulo
11, precisamente para nos questionarmos sobre o que fazemos com a nossa
oração e possa este dia em que lembramos Maria a Senhora do Rosário e possa
este dia voltar à questionamos sobre o que fazemos com a nossa oração. Na
tradição judaica, e eu admito que isto é redutor, mas ainda assim não deixa de
ser verdade, sendo que o povo judeu é um povo escolhido, logo todos os outros
povos são de segunda, de terceira, quarta... a oração do povo judeu, grosso
modo, é uma oração de agradecimento pela eleição, e isso faz da oração judaica
mais exclusiva.
Lembramos
aquela oração espontânea que sai do fariseu e que Jesus escuta "obrigado
Senhor porque eu não sou sujo como aqueles, obrigado meu Deus porque me fizeste
melhor do que aqueles, aquele publicano", muitos judeus agradecem todos os
dias não serem mulheres, sendo que a mulher ciclicamente, mensalmente é banhada
de impureza e precisa de se purificar. Mil vezes, em orações dos judeus, aparece
"eu te bendigo por não me teres criado pagão, por não ser como um
cão", e vamos são orações de exclusividade, "obrigado por te dares
comigo meu Deus, e por não te dares com os outros" e em certa medida
quando metemos Deus ao barulho, nas nossas guerras, imitamos esta oração,
imagino que em Lepanto era isso que passava pela cabeça daqueles desesperados
em combate, põe-te do meu lado meu Deus, é a mim que tu amas.
A oração de
Jesus talvez seja para nós preciosa por nos abrir, a oração de Jesus não é da
ordem da exclusividade nem da pureza, não é da ordem da separação de um povo
puro, a oração de Jesus é sempre para nos misturar, a oração de Jesus é sempre
para nos misturarmos com outros, é sempre para melhorar as nossas relações.
"Pai que o teu nome seja santificado" significa que se eu não tratar
o outro como irmão nem vale a pena começar a orar, não é Pai. Se é pai, é
porque estamos disponíveis a olharmo-nos como irmãos. "Venha o Teu
Reino", sim, eu quero que tu sejas como Tu és, livra-me de te querer como
eu quero, livra-me de implementar o meu reino e não o Teu, dá-nos o pão para
hoje é o que Jesus lembra aos seus discípulos, "venho para que tenham vida
e a tenham em abundância", eu quero-vos vivos, perdoai-nos e que nós
perdoamos como Tu nos perdoas, e não nos deixem cair em tentação, não nos
deixem cair, Tu que és um Erguedor, ergue-nos. E possa a nossa ser o exercício
de nos erguermos uns aos outros.
Não queremos
bendizer a Deus por sermos os primeiros, nem por sermos os mais puros, porque
não somos.
Queremos agradecer a Deus por Ele ver em nós o que nós não conseguimos ver, por nos chamar filhos e filhas e por nos querer aliados com Ele na construção do Reino onde cabem todos, amigos e inimigos, e onde é possível uma paz sem vencedores nem vencidos.
(chamamos oração a todo
o Tempo que nos faz aberto - semana XXVII - B – quarta| breve comentário aos textos bíblicos lidos em
comunidade (N.S. Rosário) | Lisboa, 7 de Outubro de 2020. Actos 1,12-14 e Lucas
11,1-4.)

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