A escuta ainda pode salvar o nosso jantar

Queridas irmãs queridas amigas

Que o parágrafo maldisposto este, servido antes do almoço, que não perturba o vosso apetite, que não perturbe a vossa fome e a vossa sede, de nos assemelharmos a Jesus apesar destas palavras tão duras, e nós nos próximos dias vamos continuar o que foi iniciado neste discurso de Jesus. Conclusão, ninguém comeu nada, ninguém comeu nadinha, termina o texto Jesus saiu dali e quem é que tem apetite para comer depois disto? 

Nós nem sabemos com quem nos devemos indignar, de repente estamos indignados com aquele fariseu porque parece dar mais importância àquilo que a nossos olhos são coisas pequenas, quando tem em sua casa um Rabi cuja sabedoria é maior que a de Salomão. 

Sim, fariseu anónimo, insensato és tu, escuta-O, escuta-O, não resistas.  

Por outro lado, também ficamos meio aborrecidos com Jesus porque desperdiçou uma oportunidade, podia cativar este fariseu por outro via, podia arrecadar esse fariseu para a multidão de pessoas que já o seguem, podia ter feito doutra maneira. Foi convidado e espeta-lhe com um quase insulto na cara dele, na casa dele. Ficamos sem saber o que fazer com isto e logo numa refeição, que é sempre sinal do Reino, que é sempre cheia de medidas para lá do razoável, é sempre cheia de exagero. É sim, Jesus exagerou, nada neste banquete superou, nada neste banquete acolheu Jesus devidamente. Há outros relatos dum Jesus à mesa em casa de fariseus em casa de judeus e há uma mulher anónima que faz as abluções de acolhimento que o dono da casa não foi capaz de fazer, e em certa medida aquela mulher anónima salva a cena, salva a cena, salva o dono da casa, salva o jantar, salva Jesus... neste não há nada, e precisamos de digerir este texto com este vazio. 

Facilmente nós pomos de lado Jesus e somos capazes até de chegar a lenha a Jesus para aumentar a fogueira contra aquele fariseu, mas talvez este texto seja escorregadio, talvez seja difícil dizer quem é quem neste texto. Aquele fariseu anónimo está mais preocupado com a forma do que com o conteúdo, pelo menos Lucas quer-nos sublinhar isso, antes sequer de Jesus abrir a boca ficou admirado porque Jesus não cumpre, Jesus é um mau praticante e neste texto Lucas monta este cenário para começar a descolar a figura de Jesus de outros rabis, para descolar o cumprimento da lei de Jesus de outros cumpridores escrupulosos da lei. É sim, nesta cena Lucas quer falar de descontinuidade, quer apresentar um Jesus original disruptivo. Jesus segue por outra rota e em certa medida é um convite aos leitores a decidirem-se, o que é vão escolher e o que é que vão seguir.

Jesus diz uma frase absolutamente revolucionária e quem lê este texto pela primeira vez também teve que digeri-lo com dificuldade. Dá esmola que tens dentro e tudo ficará puro e tudo ficará limpo, como assim? 

Há livros inteiros sobre a pureza e sobre as lavagens e sobre as abluções, há livros inteiros sobre os rituais e as práticas de ablução para as mulheres e para os homens, para se purificarem se tocarem nisto ou naquilo, ou se as mulheres passarem por estes ou por aqueles dias, há livros inteiros, há catálogos de ritos de purificação e vens tu dizer, dá esmola ao que tens dentro e tudo ficará purificado? 

Sim querido leitor, Jesus passa a ser outra coisa, passa a ser outra coisa.  É esta frase é para nós digerirmos, nos que somos leitores desta frase, dá de esmola o que tens dentro...

Dar de esmola é dar, dá o que tens, dá o que tens dentro, é o convite de Jesus à vida inteira aos seus discípulos, ao dom, à graça, "dai de graça o que de graça recebestes", e sim, esta frase é para nos acompanhar, é para nos acompanhar! E sendo a mesma e sendo a refeição uma metáfora do Reino, uma metáfora da Igreja, quem é quem? Quem é quem? Aquele judeu do norte da Galileia, bizarro, que junta à volta dele gente desclassificada, chega a casa é senta-se à mesa com muita simplicidade com demasiada simplicidade com demasiada simplificação e o dono da casa achou aquilo muito estranho, Ele não cumpriu coisas prévias, Ele não sabia coisas prévias, parece não saber, ou se sabe ainda pior, omitiu-as descaradamente.

Sendo a mesa a imagem da Igreja, que este texto também nos desassossegue, nós que somos capazes de olhar para uns e outros,  para os que chegam de repente e se sentam à mesa, e não cumpriram tanta coisa, não cumpriram e não passaram tanta coisa como eu, como nós,  possa este texto também inquietar-nos, talvez aquele fariseu anónimo seja o rosto de tantos, hoje na mesa da Igreja, que olham para quem chega e não conseguem ver em quem chega de Jesus que nos visita, a riqueza de Jesus Pascal, por outro lado veem ausência de semelhanças, veem gente diminuída, gente que não pratica como eu não merece estar sentar à mesa e nem sequer nos dispomos a ouvira sua sabedoria. Possa este texto em contexto de arranque do grande Sínodo 2021-2023, possa este texto devolver-nos a paixão pela escuta, possa este texto fazer com que a escuta valha mais que tudo, antes da forma, tal como este fariseu foi capaz de pôr a forma à frente da escuta, queremos nós contrariar.

Que Lucas tenha razão no que escreveu, que Jesus tenha razão neste jantar que Jesus foi capaz de estragar, vale mais a escuta do que o exterior, do que a forma.

(a escuta ainda pode salvar o nosso jantar - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | semana XXVIII – Terça Lisboa, 12 de Outubro de 2021. | Romanos 3,21-30 e Lucas 11,47-54.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/10/14/a-escuta-ainda-pode-salvar-o-nosso-jantar/

 

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