A cultura do dom dá forma à paz sem vencedores nem vencidos
Queridas irmãs, querido irmão queridos amigos
A nora contra a sogra ainda é um clássico, agora o resto, é difícil dizermos que é uma Palavra de Salvação ficarmos satisfeitos com tudo isto.
Vamos, queremos fazer desta Palavra uma Palavra de Salvação e acreditamos
que esta Palavra tem um poder Pascal, tem o poder de não nos deixar na mesma,
tem o poder de lembrarmos a presença viva de Jesus que passa e que nos convida
também a um passo.
Em primeiro lugar há muita ironia neste texto, muita ironia. E a
ironia que Lucas coloca na boca de Jesus, tem duas finalidades, há uma
finalidade narrativa, Lucas está a colocar na boca de Jesus uma definição do
que é que é Messias, do ponto de vista de Jesus, que é diferente dos outros
discípulos e de todos os judeus que esperavam um Messias que fosse um líder do exército,
para destruir o poder opressor romano e fosse restabelecer a superioridade do
povo eleito. E Jesus sempre que fala de Messias, fala de outra coisa. Nunca diz
de si próprio ser o Messias, fala do Filho do Homem que é um título mais
ínfimo, mais pequenino, colocado nesse que vinha dar outro sentido à história.
Fala do Filho do Homem e por várias vezes fala desta desgraça, Ele vai padecer,
Ele vai ser entregue aos donos disto tudo e vai ser esmagado. E, os discípulos
não vão compreendendo, não vão percebendo e alguns ainda vão abanando com a
cabeça.
Pedroainda chega a dizer que Ele é o Messias, mas sim, percebemos é que são
entendimentos diferentes. Pedro dava-lhe um jeitaço que Jesus fosse o Messias,
de acordo com a fantasia dele, de acordo com a projeção de fantasias do povo,
dava um jeitaço que Jesus se convertesse
num líder fortíssimo e de mão pesadíssima, para dar os doze melhores
ministérios aos doze apóstolos, dava-lhes um jeitaço. E parece que não é assim,
Jesus insiste em começar com os últimos, e ficar com os últimos, insiste
em ser último, insiste no serviço, insiste, insiste, insiste. E essa
insistência consegue permanecer dois mil anos e quantos mais viram.
Há uma primeira ironia colocada na boca de Jesus para cumprir uma
finalidade narrativa, Jesus está a explicar o que é que vai acontecer e ao
mesmo tempo há uma intenção de Lucas à sua comunidade, aos seus leitores que já
experimentam divisões, que já experimentam perseguições, que já experimentam
serem ridicularizados por serem uma seita desse nazareno, desse judeu marginal
do Norte da Galileia, esses já experimentam divisão. E em certa medida esta
ironia do, pensais que eu vim trazer a paz. É claro que vens trazer a Paz
Jesus, tu és o Deus da paz, tu és o rosto do Deus da paz. É claro que vai
trazer paz!
Porque é que tu dizes que não? Talvez porque este texto precise de mim e de
ti. Precisa dos filhos e dos pais, das noras e das sogras, das filhas e das
mães, precisa de todos, porque em rigor a paz constrói-se com todos.
Jesus começou com os últimos para que ficasse claro que isto é para todos.
Se começasse pelos maus fortes, se Ele começasse pelos mais ágeis, se começasse
pelos mais puros, se começasse pelos mais importantes, se começasse pelos mais
ricos ía demorar muito a chegar a minha vez. Ia demorar muito até cabermos
todos. Começa pelos últimos para que fique claro que cabem todos.
E sim, a paz não se constrói com o Messias, a paz constrói-se com as
decisões de cada um, com as palavras de cada um, com os gestos de cada
um.
Versículos antes das palavras que nós escutávamos, começávamos a ver a
oposição a Jesus, e gente que na hora de escolher entre seguir Jesus e
safar-se, até Pedro ao dizer: Tu és o Messias, estava numa lógica de se safar a
ele próprio e até à hora da cruz, nós leitores vamos sendo sempre presenteados
com decisões entre aceitar SER ÚLTIMO, aceitar SERVIR, ou preferir SAFAR-SE!
Pensais que eu vim trazer a paz? Eu venho, mas tu queres o quê? Se
for cada um safar-se, se for cada um pensar nas suas necessidades, nos seus
confortos, nas suas medidas, quantas vidas precisas tu? De quantos vais
precisar de consumir?
Sim, eu venho trazer a paz, e a paz que eu te ofereço é a possibilidade de
SERES DOM, a possibilidade de tu SERES PÃO, a possibilidade de SERES ALIMENTO,
de PARTILHARES o TEU ORÇAMENTO, o TEU TEMPO, os TEUS AFETOS, a TUA AGENDA, os
TEUS CONTACTOS, saberás tu melhor do que eu.
Venho trazer a paz e conto contigo, venho trazer a paz, uma paz que vem do facto de nos olharmos como semelhantes, s de nos cuidarmos como irmãos e não uma paz com vencedores e vencidos.
(breve comentário
aos textos bíblicos lidos em comunidade | semana XXIX – Quinta | Maternidade
Dr. Alfredo da Costa, Lisboa, 21 de Outubro de 2021.
Romanos 6,19-23 e Lucas 12,49-53.)

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