A arte de construir unidade com inteiros, não com iguais
Queridas irmãs, queridos irmãos queridos amigos
Confesso que hoje esperava
que vocês não seguissem o que está previsto e quando eu dissesse palavra de
Salvação vocês diziam, não, hoje não! Nos outros dias sim, mas hoje não.
E sim começamos com esta
palavra que levada à letra não tem graça nenhuma, mas pode fazer connosco
alguma coisa. Apesar desta página do evangelho de Marcos ser uma coleção de
ditos de Jesus, se calhar não vale a pena perdermos tempo a tentar coser este
discurso como se tivessem sido ditos de uma vez só, acolhamos esas palavras de
Jesus e acolhamos esta ironia pegada, acolhamos esta ironia e possa este
registo em aberto, Jesus diz estas coisas que em sentido literal não as suportamos,
possa entrar por outras portas.
Jesus fala da geena que era
uma espécie de incineradora que existia junto à muralha da cidade, numa das
partes. Para aí se atirava o lixo e se ia queimando e ficava um fogo perpétuo
porque todos os dias se atirava lixo para lá. É esta imagem da destruição e do
fogo servia para falar da vida. Jesus utilizou-a e não foi o único utilizá-la
para falar da vida, para falar da inutilidade, do lixo que se despeja e se
perde, e por analogia tanto da nossa vida que nos consome tanto, e que posto em
relação o seu valor, cale como aquilo, desaparece.
Não temos geenas aqui por
perto, percebemos a metáfora e não temos medo das geenas, não existe geena para
termos medo. Que bom seria que acordássemos todos os dias a dizer esta frase antes
de sairmos de casa. Acolhamos a ironia de Jesus com isto do corte de mãos e do
corte de pés e olhos, querido leitor é absurdo, não é? De facto, Marcos não sei
como é que conseguiste escrever isto é não selecionador logo, ouvias isto,
entrava-te por um lado saía-te por outro, e escrevias outras histórias é isto
tornava -se mais interessante.
Marcos deixou-nos esta, para que tu sites o absurdo desta frase, sintas que Jesus está a ter-se contigo, está a rir-se. Da nesta forma que não consegues cortar um pé, cortar uma mão, arrancar um olho, significa que dás importância à unidade. É sim, é talvez aí que Marcos queira chegar, é talvez aí que Jesus queira chegar.
Falemos de unidade, é ridículo falarmos de Igreja, falarmos de mundo, falarmos de humanidade e levando à letra o que Jesus dizia, se a humanidade é um corpo e se julgamos que aqueles são um membro de pecado, cortamo-los. Cortamos, cortamos, cortamos e o que é que resta depois? Resta um corpo morto.
Um corpo cortado é um corpo morto.
E sim, este texto tem mil sentidos,
tem um sentido pessoal para tu saberes o que vais fazer com ele e tem um
sentido comunitário. Da mesma forma que é absurdo cortar um pé, da mesma forma
é absurdo excluir membros da comunidade, membros do Corpo de Jesus. Do Corpo
Vivo e Real de Jesus.
Pensa nisto, diria Jesus, e
pensemos nós nisto. Nós que somos tentados sempre pela via mais fácil, eliminar
alguém que não é dos nossos.
E isso de ser dos nossos, o
que é que nós ganhamos e o que é que nós perdemos com o discurso sobre os nossos?
Aqui e ali, o discurso que
nos sai sem querer, o discurso que ouvimos, a Igreja, a Igreja... Em contexto
português quando se diz a Igreja, só vale a Igreja Católica, a Igreja em
comunhão com Roma, achamos que o resto é paisagem e achamos que nós é que somos
a Igreja, e repetimos esta mentira tantas vezes que nos parece verdade e
continua a ser mentira, é mentira.
A Igreja significa
assembleia e só Jesus sabe os limites, e só Jesus sabe as fronteiras.
O Reino de Deus não é a
Igreja! O Reino de Deus é o que Ele disse que era e nós nem percebemos e os
discípulos não perceberam.
Talvez as fronteiras do
Reino de Deus, talvez as fronteiras da Igreja coincidam com as fronteiras da
humanidade, dos que vivem, dos que já viveram e dos que hão-de viver.
E não te compete a ti
dizeres o que é a Igreja, separando-a e excluindo-a daqueles que não são os
teus.
Possa este texto
devolver-nos a missão de construirmos a unidade e a missão de construir unidade
é muito complexa e por isso queremos renovar a paciência para a construção da
unidade.
Construir a unidade não é
construir a homogeneidade, construir a unidade implica sermos sensíveis ao heterogéneo,
ao que é diferente. (Não sei se é possível comer uma sopa com um ingrediente
só, talvez água, mas para isso não chamemos sopa, chamemos água quente).
Da mesma forma que a sopa
precisa de ingredientes diametralmente opostos, uns líquidos e outros sólidos,
da mesma forma a nossa comunidade, da mesma forma a nossa rua, da mesma forma a
nossa cidade, o nosso país, a nossa casa comum.
Que bom seria que nos
treinássemos a este exercício de dizermos ao espelho, não! Nós não somos a
verdade. Não, a verdade precisa de todos.
Não, nós não somos a última
palavra. A palavra precisa de todos!
Não, nós não somos a
verdade!
E precisamos de dizer isto
várias vezes para que, como chuva sobre a relva, vá regando o nosso coração e
nos vá despertando à verdade que desponta semeada em tudo é em todos.
Possa o sentido pessoal
desses cortes de mãos, cortes de pés e arrancar de olhos, possa este sentido
pessoal devolver-nos o gosto de nos reconciliarmos o gosto de nos
reconciliarmos com as nossas feridas, com as nossas cicatrizes, com a nossa
história.
Eu creio que não há outro
caminho para melhor compreendermos o outro, que não seja reconhecermos as
nossas feridas e olharmos as nossas cicatrizes.
Meu querido Jesus não, não
vou cortar o pé, não vou cortar a mão, meu querido Jesus não vou arrancar o
olho, quero ver-te INTEIRO! E diria Jesus, bravo querido discípulo, era isso
que eu queria dizer, que bom que concluíste, isto só faz sentido inteiro.
E sim, a construção da
nossa inteireza da nossa vida passa por isso, por beijarmos as nossas feridas,
as nossas cicatrizes. Passa por escrevermos a nossa biografia sem arrancarmos
páginas, sem escondermos cicatrizes, sem escondermos a nossa história, passa
por nos apresentarmos como somos.
E este exercício permite
que acolhas o outro como ele se apresenta, permite que construas a verdade com
a verdade que o outro te apresenta.
Possa esta palavra do
evangelho possa o estímulo que Jesus nos deixa nos seus ditos, possa o esforço
que Marcos fez, para fazer chegar até ti esta palavra Pascal, esta palavra que
não te deixa na mesma, possa este texto colar-nos, colar a nossa fragilidade,
possa este texto ajudar a tornar-te inteiro e inspirar-te a tornares inteiros
outros, e a erguer outros, a colar outros e possa este texto devolver-nos a
certeza do muito que falta construir até podermos olhar para estes que se nos
apresentam cada dia como Corpo de Cristo na Sua plenitude.
(a arte de construir unidade com inteiros, não com iguais - breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XXVI do Tempo Comum B - 25 de Setembro de 2021. | Números 11,25-29; Tiago 5,1-6 3 Marcos 9,38-48.)

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