Servos livres não significa donos
Queridas irmãs, queridas amigas
O texto que nos é servido neste capítulo XXIII de
Mateus eu diria que não há muito a comentar por isto, possivelmente quanto maus
comentarmos, possivelmente mais amansamos a crueza deste texto, gostava apenas
de colocar em perspetiva e em relação, de facto daqui para a frente
precipita-se a perseguição de Jesus e os finalmentes da história que já
conhecemos.
Há autores que veem neste discurso dos ais de Jesus veem um contraponto com o primeiro discurso de Jesus que nos é servido no capítulo V, o discurso da montanha. E em certa medida Jesus está a falar para a nação judaica, agora está a falar para as instituições e para os donos da religião, no capítulo V Jesus falava para uma multidão de quem se compadeceu, para uma multidão que lhe apareceu. Falava para todos e em certa medida vemos um contraste entre o discurso a que costumamos chamar das bem-aventuranças e esta lita de ais onde nós não conseguimos ver pobres em espírito, onde nós não conseguimos ver misericordiosos, onde nós não conseguimos ver pacificadores, onde nos não conseguimos ver famintos de justiça e em verdade este texto chegou até nós para nós fazermos com ele alguma coisa.
Na verdade, nós aproximamo-nos de Jesus no capítulo V, na verdade nós seguimos aquela multidão que vai seguindo Jesus, que foi seguindo Jesus em dias mais luminosos e em dias mais cinzentos, na verdade nós somos esses que não pertencem à pureza judaica, nós somos gentios e fomos ficando com Jesus e fomos buscando Jesus e fomos dando forma ao seu sonho, fomos dando forma ao seu Reino.
E é possível querido leitor, diria Mateus, é possível
com o andar do caminho e com a sucessão dos capítulos da tua vida é possível
converteres-te nestes do capítulo XXIII, é possível de repente tu julgares-te
dono do sonho de Jesus e em certa medida este capítulo fala-nos do mau uso de
religião, quiséssemos do mau uso do cristianismo, um cristianismo que serve
para me justificar como estou, serve para justificar como estou e serve para
justificar a necessidade que os outros têm de fazer o pino para caberem nas
minhas categorias, para caberem no meu perdão, para caberem na minha paciência,
para caberem na minha tolerância... percebes querido leitor o ridículo que tu
és, percebes? E isto é o que chega até nós.
Possa cada uma de vós, possa cada um de nós não passar ao lado desta advertência de Mateus.
Em certa medida estamos a terminar o evangelho, depois disto seguem-se os acontecimentos finais, em certa medida queremos também nós fazer um ponto de situação e que bom seria que o fizéssemos a cada dia a cada passo. Nós não somos donos do sonho de Jesus, nós somos sim, famintos, buscadores, seguimo-Lo tentando tocar na orla do manto e talvez lembrando as nossas feridas, lembrando a nossa fragilidade, talvez nos sintamos como no primeiro amor, como quando o encontramos no capítulo V, como quando nos sentamos aos seus pés naquela montanha e ouvimos Jesus elogiar a nossa condição e sim, só feridos, só famintos, só incompletos, se reconhecem carentes uns dos outros e é essa atitude que Jesus pede aos seus discípulos. Escutávamos ontem, suportai-vos uns aos outros, submetei-vos uns aos outros, se quiséssemos traduzir, dependei uns dos outros.
Possa ser este o nosso Caminho Pascal diário possa ser esta a nossa resposta a este texto aos senhores dobrados sobre si próprios, aos senhores da religião, possa este texto fazer Páscoa connosco.
(servos livres não significa donos - semana XXI
segunda feira breve comentário aos textos
bíblicos lidos em comunidade | Lisboa, 23 de agosto de 2021. | 1 Tessalonicenses 1,1-10 e Mateus 23,13-22.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/08/23/servos-livres-nao-significa-donos/

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