Os que escolhem ser dom em tempos de fome
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Ao longo deste ano B do ciclo da liturgia acompanha-nos o evangelista Marcos, porém, nesta altura do ano, entre os domingos XVII e XXI é-nos servido o capítulo VI do evangelho de João assim recortado. Ao longo destes cinco domingos é-nos servido onde se insere um grande discurso de Jesus, o discurso do Pão da Vida, está na altura de acolhermos este capítulo VI e estes cinco domingos, estamos mais ou menos a meio, e em certa medida este capítulo VI é uma pedagogia, é um programa, é um percurso, é um caminho e nós lembramos como ele começa, um Jesus que parece tem um propósito, sobe a uma montanha, estava próxima a Páscoa, olha para a multidão e decide mudar de agenda porque vê a multidão faminta e compadece-se da multidão e sacia a fome daquela gente.
Aquela gente fica inebriada com aquele gesto, sente
que Jesus é a resposta para a sua fome, Ele será o nosso Rei e Jesus foge, foge,
sabendo que queriam fazer dele rei, foge.
Foge para o cimo da montanha, os discípulos vão
andando para o lago, Jesus há-de ir ter com eles vencendo todos os medos,
diz-nos o texto, caminhando sobre as águas, hão-de ir todos atrás de Jesus,
como dizíamos a semana passada, ainda a fazer a digestão do pão e a pedir mais
sinais, a pedir mais pão, a limpar as migalhas da barba e a pedir ainda mais
sinais, ainda não sabem bem como acreditar, vemos muita gente a resistir a
Jesus e hoje é-nos servido este pedaço do capítulo VI de João, onde percebemos
onde é que Jesus quer chegar, onde é que João quer chegar connosco, parece que
nos deu a mão e está a percorrer um caminho. Talvez, as generalizações valem o
que valem, talvez todas as religiões peçam a intervenção de Deus. Nós
pedimos a intervenção de Deus, particularmente quando o desespero nos tolda o olhar
quando não vemos saída, quando o chão me foge dos pés, talvez isso faça parte
do nosso ADN, talvez do património da humanidade. O caminho que o capítulo VI
de João quer fazer connosco é difícil porque quer que descolemos disso, quer
que descolemos de uma religião que se alimenta com sinais, de uma vida que se
alimenta vincadamente em sinais, como aquela multidão que seguia Jesus, nós
próprios leitores somos levados a concluir: não, assim não!
Então aquele sinal não me chegou? Então se aquele não
me chegou e quereis outro também não vos vai chegar, e hão-de querer outro, e
hão-de querer outro... É um vício e percebemos que é insaciável essa vontade de
pedir a intervenção de Deus com sinais que esmaguem a nossa liberdade, que digam
de uma vez por todas, quem és tu e o que queres que façamos.
Não peças mais pão, não peças mais pão é talvez a frase que está escondida neste capítulo que anda à volta do pão e da fome e começa com uma dádiva de pão inexplicável e que continua com: EU SOU O PÃO, se quiseres TU ÉS PÃO!
O caminho que este capítulo VI faz connosco é talvez este de, deixarmos de pedir pão, deixarmos de pedir sinais, assumimos a economia do dom, apresentarmo-nos nós próprios como pão e vermos no outro o pão que pode saciar a minha fome, o pão para a minha fome, não numa lógica de predadores e devoradores uns dos outros, mas nesta lógica de semelhantes, carentes e que se alimentam uns aos outros, com o pouco que têm e são. Talvez isto baste para a refeição de hoje, talvez isto baste para que cada um se sinta estimulado a percorrer um caminho.
O caminho que queremos percorrer é o da liberdade, não queremos viver viciados em sinais extraordinários, não queremos viver viciados com sinais que contrariam a natureza das coisas, não queremos viver viciados com a intervenção de Deus na nossa vida, nos nossos problemas, Ele que pediu aos seus discípulos dai-lhes vós de comer, queremos aprender a habitar o sonho de Jesus olhando de forma diferente para aquilo que Ele nos deixou nas mãos.
Não queremos viver dependentes dos sinais
extraordinários dele, queremos sim, aprender a ser pão, queremos sim aprender a
reconhecer que o pouco que temos e somos partilhado alimenta a fome de alguém.
E sintonizamos nisto de: A carência faz de nós semelhantes e a semelhança faz
de nós cuidadores.
Desculpem se esta página do evangelho não diz o que é que vais fazer a partir de agora, não diz o que é que vais fazer em cada dia mas ao mesmo tempo que bom que assim é, que bom que fica tanto em aberto ponto de tu completares o Evangelho, a ponto de tu com a tua história, as tuas escolhas, as tuas decisões, as tuas palavras, as tuas presenças as tuas ausências e os teus silêncios vais dar carne ao sonho de Jesus, vais dar forma ao sonho de Jesus.
Não queremos viver dependentes dos sinais extraordinários Dele, queremos sim, aprender a ser pão, queremos sim aprender a reconhecer que o pouco que temos e somos partilhado alimenta a fome de alguém. E sintonizamos nisto de a carência faz de nós semelhantes e a semelhança faz de nós cuidadores.
Desculpem se esta página do evangelho não diz o que é que vais fazer a partir de agora, não diz o que é que vais fazer em cada dia, mas ao mesmo tempo que bom que assim é, que bom que fica tanto em aberto a ponto de tu completares o Evangelho, a ponto de tu com a tua história, as tuas escolhas, as tuas decisões, as tuas palavras, as tuas presenças as tuas ausências e os teus silêncios, que bom que vais dar carne ao sonho de Jesus, vais dar forma ao sonho de Jesus.
Nós escutávamos a forma como João falava dos adversários de Jesus, chama-lhes os judeus e digamos todos ali eram judeus, a forma como João particulariza aquele grupo que em certa medida são os donos do judaísmo, os donos da religião, as autoridades e os que estão com as autoridades, a reação deles é: mas quem é que tu pensas que és? Quem é que tu pensas que és? Vens do céu como? Bem sei quem tu a tua mãe, és um Galileu, quem é que tu julgas que és?
E nós ficamos incomodados com esta reação.
João talvez nos sirva este diálogo precisamente para nós reagirmos a este texto, não Senhor eu nunca te faria uma pergunta carregada de tanta ironia, eu nunca me dirigirei a ti nesses termos.
Bravo, bravo diria João, mas preciso que dês ainda mais um passo, nós que caminhamos em conversão permanente, de vermos no outro o pão para a minha fome, de vermos no outro o sinal e o milagre que Deus coloca na minha vida, e continuamos num processo de conversão para, vendo no outro o meu pão não o devorar.
Aprende querido leitor a olhar o próximo sem essa pergunta: quem é que pensas que és?
Aprende querido leitor com o erro destes judeus,
aprende a não fazer essa pergunta a quem te é oferecido, a quem te é colocado
no caminho como alimento para a tua fome, como caminho para a tua busca,
aprende a acolher, aprende a acolher e a aceitar, aprende a escutar, aprende a
saborear a riqueza que é o outro, cada um escreverá um nome em cima desse
outro.
A regra de S. Bento deixou eternizada uma frase que os
monges beneditinos levam muito a sério, "o hóspede é Cristo" e
queremos nós também aceitar esta regra de S. Bento que em certa medida é uma
tradução do capítulo VI do evangelho de João.
Queremos converter o olhar, queremos converter esta dúvida, mas quem pensas que és, queremos convertê-la no reconhecimento desarmado, de que a forma que Deus se serve para saciar a nossa fome, para intervir na nossa história, para vir até nós, não é outra senão a Encarnação, esse milagre de um Deus que habita carne para se fazer presente na tua fome.
(os que escolhem ser dom em tempos de fome - Domingo XIX Tempo Comum B - Breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 7 de Agosto de 2021. | 1 Reis 19,4-8; Efésios 4,30 – 5,2 e João 6,41-51.9)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/08/08/os-que-escolhem-ser-dom-em-tempos-de-fome

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