O comum desejo de ser inteiro
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Que texto sugestivo este, que dia feliz este,
celebramos Jesus, celebramos a presença de Jesus na nossa vida, celebramos
Jesus vivo e hoje não queremos esquecer Bartolomeu um dos doze, um dos íntimos
de Jesus, e nós não sabemos quase nada dele, para não dizer não sabemos nada,
mas chega-nos o que nos une a Bartolomeu, nós que sendo discípulos de Jesus
também queremos ser dos íntimos, queremos ser íntimos de Jesus e por isso
simpatizamos com Bartolomeu mesmo sem o conhecendo. A tradição foi associando à
figura de Bartolomeu esta personagem que nos aparece nos evangelhos Natanael. A
verdade é que Bartolomeu não é bem um nome, Bar significa filho, Tolomeu podia
se filho de Talmai ou filho de Ptolomeu e bom, a tradição também tem razão na
medida em que isto bem que podia ser um apelido e podia ser Natanael filho de Talmai.
Natanael filho de Ptolomeu e a verdade é que neste dia nos é servido este
diálogo inspirado e inspirador de Jesus com Natanael e pela conclusão do diálogo
Natanael rendeu-se a Jesus Natanael seguiu Jesus e bem que podemos confundir
com Bartolomeu, um dos que derreteu com Jesus, um dos que se desarmou com
Jesus, um dos que seguiu Jesus assim.
Deixemos que este texto inspire a nossa Páscoa,
deixemos que este texto inspire o nosso dia, o nosso encontro com Jesus. E é um
texto belíssimo, está no I capítulo do evangelho de João, serve também de
pórtico aos leitores do evangelho de João e é muito importante, de facto, isto
do "vem ver, vem ver".
Filipe diz a Natanael, encontramos aquele que faz
sentido à história, que estávamos há séculos à espera, encontramos imagina tu,
é aquele Nazareno que ouvimos aqui há dias, e vemos um Natanael desconfiado....
É um parolo do Norte, a mim não me engana.
"Vem ver", e o narrador não diz, e Natanael
ao ver Jesus não, não! O narrador diz, Jesus viu Natanael e diz: "Aqui
está um inteiro, aqui está um inteiro"!
E nós, que queremos ser íntimos de Jesus, ansiamos
ouvir esta frase, eis um inteiro, eis um que não precisa de disfarce, eis um
que não tem vergonhas.
Porventura é isto que nós ansiamos na vida inteira,
sermos reconhecidos por Deus como somos e não como temos de fingir ser, ou como
temos de parecer ser e curioso que o narrador quase que brinca connosco, quem é
que acredita em quem?
Há um homem que parece que não acredita que aquele Zé
ninguém seja Deus e há um Zé ninguém que acredita naquele homem.
E esta inversão é muito saudável para questionar as nossas questões, para interrogar as nossas dúvidas. Nos que aqui ou ali nos questionamos se Deus existe mesmo, ou se Deus existe como nós o pintámos, nós que nos questionamos se o que é que virá depois da morte, o que é que será depois. Esta inversão de um Deus que acredita em ti antes que tu acredites Nele, ajuda-nos a rever as nossas perguntas. Pergunta-te lá, tu existes para quê? Tu existes para quem? Para quem é a tua vida? Para quem és tu? E que bom seria que essa pergunta ajudasse a construir a nossa inteireza, a não fugir de nós próprios e mais do que perguntar se há vida depois da morte e como é que é depois da morte, pergunta-te sobre a vida antes da morte. Há vida antes da morte? A que é que chamas vida?
Possa este texto ser um desassossego, possa este texto
fazer connosco o que fez com Natanael, desarmou-o, desarmou-o... Desculpa e eu
a pensar que tu eras um Zé ninguém, Tu és o meu Tudo!
Possamos nós fazer com Natanael esse percurso.
Natanael significa um presente que Deus, dado por Deus, Deus dá, e porventura pode ser uma oportunidade, esta dádiva, para nós nos olharmos com vontade de nos olharmos como Jesus nos olha, sem filtros, sem máscaras, sem disfarces, sem armaduras, sem vergonhas e possa essa consciência de sermos amados como somo contribuir para nos amarmos como somos, para nos aceitarmos como somos, para nos erguermos inteiros e sabendo-nos erguidos e sabendo-nos curados e sabendo-nos escolhidos e salvos, possa tudo isso traduzir-se na forma como erguemos outros, como aceitamos outros na sua verdade e na sua inteireza, possa este texto contribuir para a nossa Páscoa e para a construção da Igreja, o mesmo é dizer, para darmos forma ao sonho de Jesus.
(o comum desejo de ser inteiro | Bartolomeu – 24 de
Agosto - breve comentário aos textos
bíblicos lidos em comunidade | Bartolomeu | Lisboa, 24 de Agosto de 2021.
- Apocalipse 21,9-14 e João 1,45-51.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/08/24/o-comum-desejo-de-ser-inteiro/

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