Se estás comigo não morro

 "Mas agora eu sei que tudo o que a Deus pedirdes Deus to dará "

Queridos irmãos, queridos amigos, queridas amigas

Acolhamos com especial ternura este parágrafo do capítulo XI do evangelho de João, neste dia tão amoroso em que lembramos Marta, ainda mais do que Marta, queremos lembrar aqueles irmãos tão singulares, Marta, Maria e Lázaro são para nós mais do que estímulo, são para nós um símbolo da finalidade da vida cristã.

capítulo XI do evangelho de João, fala-nos de Lázaro, fala--nos de Maria e fala-nos de Marta e João não se inibe de colocar quer no narrador quer na voz dele, quer também noutros personagens que vão passeando na narrativa, não se inibe de falar do amor, não se inibe de falar na amizade que envolvia Jesus, Lázaro, Maria e Marta.

"Vede como era seu amigo" hão-de dizer ao ver Jesus chorar, e sim o narrador põe Jesus a chorar.

É um quadro perturbador este que nos é servido no capítulo XI, é dos quadros do evangelho, que vou ouvindo aqui e ali, pessoas com muita dificuldade em lê-lo,  em aceitá-lo, o que é que é isto da ressurreição de Lázaro? E de facto é decisivo na narrativa de João, a partir dali há uma vontade de eliminar Jesus, mas aí mesmo tempo é ditos, vamos com calma porque Ele ressuscitou Lázaro, o povo acredita nele e vão-se dividindo os adversários de Jesus a ponto de se chegar a dizer: então se é para eliminar Jesus, eliminamos também Lázaro. Talvez se formos pelo sentido literal, nós que experimentamos as leis da natureza, nós que não sabemos dizer uma palavra sobre o sentido literal deste texto, nós que gostávamos tanto de erguer, de fazer ressurgir aqueles que amamos e perdemos, não conseguimos lidar com o sentido literal deste texto...

Deixemos esse sentido em aberto e saboreemos os sentidos simbólicos deste texto que já fazem tanto connosco, que são capazes de mudar a nossa vida, que são capazes de ser verdadeira Páscoa, de ser motivo de nos erguermos e de fazermos erguer.

Seria ótimo que a casa de Marta, Maria e de Lázaro ficasse como uma inquietação para todos os discípulos de Jesus. À época as casas eram dos pais e é curioso que nós não sabemos nada dos pais de Marta, de Maria e de Lázaro e aquela casa é de três irmãos e aquela casa de três irmãos é a preferida de Jesus, e pronto isso bastaria. A casa preferida de Jesus é uma casa de irmãos e se quiséssemos, estes personagens se João não se demorasse mais com eles, se não houvesse mais história a contar, já isto nos chegava como programa, os discípulos de Jesus são chamados a replicar a casa preferida, a Sua casa preferida, os discípulos de Jesus são chamados a replicar esta casa dos irmãos onde Jesus adorava estar e queremos que a Igreja seja isto, uma casa de irmãos.

E sim, nós sabemos o que é irmãos, nós sabemos o que é família. Não se pense que a família, não se pense que as relações de irmãos não têm problemas, não têm desencontros pelo contrário,  pela intimidade que temos, pela confiança que temos chega-nos a passar pela cabeça que sabemos tudo uns dos outros, chega-nos a passar pela cabeça que perdendo esses filtros que a confiança e a transferência acrescenta, chegamos a pensar que conhecemos tudo do outro e isso é uma mentira, isso é uma mentira...

Todas as relações são seres vivos sejam aquelas de casa sejam as de fora de casa e todas precisam de ser alimentadas, todos precisam de ser cuidadas, todas precisam de ser regadas e se experimentamos desencontros nas nossas relações de irmãos e de família temos a certeza de que apesar de desencontros, a reação de irmãos, a franqueza de irmãos, a transparência de irmãos, a confiança de irmãos é o desejável, é o desejável a construir e a reparar em cada dia.

E deste parágrafo que lemos hoje, retirado deste capítulo XI, vem-nos a frase que nos salva. O narrador coloca esta frase duas vezes no mesmo capítulo, uma agora na boca de Marta e daqui a uns minutos se lêssemos o resto do capítulo a mesmíssima frase na boca de Maria, é a frase que nos salva. 

"Jesus se tu estivesses estado aqui o meu irmão não tinha morrido".

O narrador apesar da confiança que estes personagens têm todos, apesar da confiança que Marta tem com Jesus, ela que não teve problema de dizer a Jesus, "não te importas que a minha irmã não me venha ajudar?" não o trata pelo nome, trata-o por Senhor. "Senhor, se tu estivesses estado aqui o meu irmão não tinha morrido". E esta frase podemos traduzi-la doutra forma, SE ESTÁS AQUI EU JÁ NÃO MORRO.

Senhor, se tu estás eu já não morro! E é a esta frase que os discípulos de Jesus são chamados a dar corpo, a dar carne ao longo da vida. Estando na vida uns dos outros não nos deixamos morrer, não nos deixamos morrer. E que bom seria que esta frase tivesse sabor de certeza. 

Talvez das poucas que a nossa vida tem, SE TU ESTÁS, SE TU ESTÁS COMIGO EU JÁ NÃO MORRO! 

Que sorte temos nós de ter um hospital com o nome de Marta e que sorte tenho eu de trabalhar num hospital com o nome de Marta. Ao trabalharmos numa casa cujo nome é dedicado a esta mulher, o que está escrito no título é: HOSPITAL DE, SE TU ESTÁS COMIGO EU JÁ NÃO MORRO.

Hospital de Santa Marta significa, hospital de se estás comigo eu não morro. 

E verdadeiramente nesta casa e noutras casas como esta o que experimentamos é isto, de gente que cuja saúde está por um fio, gente com o corpo altamente debilitado e sentindo a companhia dos seus amores e sentindo-se reconciliado com os seus amores e sentindo-se acompanhado, não tem medo de morrer.

Sentindo a vida concluída pode morrer feliz, como vemos a cada passo nesta e noutras casas.

O que é que é isso de morrer feliz, é talvez isto que Marta nos deixa neste amor pelo seu irmão, SE ESTÁS COMIGO EU JÁ NÃO MORRO. Se estás comigo eu vivo em ti se estás comigo eu vivo por ti. É talvez assim que Jesus nos quer, vivos e mortos presentes na vida uns dos outros, sabendo que é isso que ABRE OS TÚMULOS, é esse amor é essa presença gratuita na vida uns dos outros com vontade de nos erguermos com vontade de vivermos, com vontade de ninguém ficar dobrado ninguém ficar morto. É assim que Jesus nos quer, é assim que construímos uma cada de irmãos e é assim que experimentamos essa vida em abundância que Jesus dizia que vinha trazer.

Possa este capítulo amoroso onde vemos laços de amizade tão fortes de Jesus por Marta, por Lázaro e por Maria, possas tu, querido leitor, ouvir o laço amoroso de Jesus pelo teu nome, por ti.

Marta, Maria, Lázaro e só não está o teu nome porque não cabe, são muitos, mas sente o teu nome, um Jesus que te quer erguido e fora do túmulo.

Possa este texto estimular-nos a abrir túmulos, possa este texto devolver-nos a certeza de que as nossas relações não estão mortas para sempre. Nada na nossa vida está suficientemente morto que não possa ressuscitar e que não possa reerguer-se e porventura é este amor incondicional que nos ergue, que nos mantém vivos que nos abre túmulos e que faz com que experimentemos o Reino de Deus já entre nós saboreando esse Messias, Esse cuja finalidade era vir ao mundo.

(semana XVII B 5ª. feira -   se estás comigo não morro | Breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Marta, Maria e Lázaro | Maternidade Dr. Alfredo da Costa, Lisboa, 29 de Julho de 2021 | 1 João 4,7-16 e João 11,19-27.)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/07/29/se-estas-comigo-eu-nao-morro/

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