Que nome daremos à vida sem surpresas? Batizado da Rita II
Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Permite que hoje saboreemos
o mergulho da Rita, o mergulho na Vida de Jesus que nós queremos arranjar um
símbolo para isso e materializamos o mergulho na Vida de Jesus, com água porque
como metáfora é muito sugestiva, alem de nos refrescar nestes dias tórridos,
quem mergulha não fica na mesma, não fica seco. E queremos saborear este
detalhe: mergulhando na Vida de Jesus, que simbolicamente queremos representar
com esta água, não queremos ficar na mesma, e é isto que nós temos para
dizer-te Rita como comunidade. Os que mergulham na Vida de Jesus não sabem bem
onde é que a vida vai parar.
Possam estes textos que a
liturgia nos apresentam no dia de hoje, possam estes textos Rita, serem para ti
inspiração e nós contigo neste dia queremos também inspirar-nos nestes textos.
Jesus tinha acabado de
dizer aos discípulos para irem e sem mapa, e sem bússola, pediu-lhes para irem
e eles acabaram por imitar aquilo que Jesus fazia, foram erguendo caídos, foram
trazendo para o centro gente que estava na periferia gente que estava fora,
gente que não podia entrar no Templo, aos olhos dos judeus eram impuros.
E os discípulos de Jesus sem saber muito bem o que fazer foram imitando Jesus.
E, entretanto, o capítulo
VI que nós lemos hoje uma parte, Marcos perde-se a falar de João Batista e
depois serve-nos este parágrafo que já tem a ver com o regresso dos discípulos
e dizia o narrador que os discípulos voltaram, nós imaginamos que eles estavam
entre cansaço e contentamento, chegaram junto de Jesus e Jesus pediu-lhes para
descansar, não é muito habitual.
Eu gostava que saboreássemos
com estes textos Rita, duas coisas que se calhar são contrárias, mas
vamos, a nossa vida também tem disto, não é feita só com aquilo que nós
queremos, com aquilo que nós programamos, é feita de muita surpresa, se
calhar a grande aprendizagem da nossa vida inteira consiste em aceitarmos
aquilo que nos vem, aquilo que a vida nos trás como surpresa, a isso nós vamos
chamando maturidade, sabedoria... que é uma coisa que já tens na tua idade e
que vais ter em cada idade do teu crescimento.
Por um lado, nós vemos
neste texto um Jesus incansável e discípulos também incansáveis e em certa
medida nós vemos nesta vontade de Jesus de ceder àquilo que tinha preparado,
Jesus tinha preparado descanso para os discípulos e desiste da ideia, neste
detalhe nós queremos saborear esta desmesura que é o cuidado. Estou certo que
os teus pais muitas vezes programaram dias de descanso que não saíram bem como
tinham preparado, talvez por necessidade de te cuidar a ti Rita, porventura
acontece na tua família, na minha, na nossa, o amor e o cuidada vestem-se com
este registo do excesso da desmesura e nós aprendemos e nós aprendemos a amar
também nesse excesso, na desmesura, quando abdicamos dos nossos confortos
porventura das nossas intenções e daquilo que tínhamos programado para caber
mais um, foi o fez Jesus para que não ficassem de fora, Jesus decidiu
inclui-los no grupo, acolheu-os. Diz-nos o narrador pôs-se a falar com eles,
pôs-se a ensiná-los
Nós queremos aceitar o que
nos é dito neste texto, que a vida se reveste de surpresa e porventura os
discípulos de Jesus estão habituados a esta medida, ao exagero, à desmesura. Por
outro lado, queremos saborear a intenção de Jesus, pelos vistos não aconteceu,
se calhar não aconteceu nesta hora, aconteceu duas ou três horas depois, nós
não sabemos. Queremos descansar, todos nós ansiamos descanso uma espécie de
equilíbrio, tá bem que depois, eu se tivesse outra vez a tua idade, não sabia o
que fazer com três meses de férias, nós os adultos já não sabíamos o que fazer
com três meses sem ter nada para fazer. Nós precisamos é de equilibrar de facto
o tempo, porque nós também somos tensão entre aquilo que programamos e as
surpresas que nis acontecem, entre aquilo que nós queremos fazer e aquilo que
nós temos de deixar de fazer e fazer amanhã e descansar.
Eu gostava que nós pensássemos
Rita, para ti e para nós, que queremos ser família e que queremos ser
comunidade, a comunidade constrói-se também com descanso, a comunidade
constrói-se com o que não está programado, a comunidade constrói-se na
espontaneidade.
Gostava que ficássemos com estas duas coisas aparentemente tão contraditórias, mas que estou certo cada um saberá como integra-las, como equilibra-las, entre um cuidado desmedido, um cuidado sempre atento, sempre presente capaz de fazer rever as nossas certezas e aquilo que nós temos programado, com a certeza de que a comunidade se constrói também no sorriso, na espontaneidade, no descanso, no lazer, no prazer, na fruição. Talvez quando falamos daquilo que escutámos na segunda leitura, que tu leste muito bem! Falávamos de construir uma família entre judeus e gregos, isto dito aos judeus era impensável, para nós é habitual juntarmos pessoas diferentes, a partir de Jesus, não era tão normal assim no tempo de Jesus. Como é que se constrói uma família de pessoas diferentes? Como é que se integra gente diferente? Talvez não seja só com as minhas intenções e com aquilo que eu tenho programado, vai passar por encontro gratuito, partilha de vida gratuita, talvez por simplesmente estar, por muitas vezes nem ter nada para dizer, muitas vezes trocando um olhar, um sorriso, lágrimas, toque, afeto...
A este propósito, eu
gostava de ler-te um parágrafo, Rita a ti e a nós, para mim também, que
aparentemente nós não diríamos que teria sido Santo Agostinho a escrevê-lo.
Agostinho diz num dos seus
escritos isto: "Um grupo de cristãos é um grupo de pessoas que rezam
juntas, mas também conversam juntas, rieem-se em comum e trocam favores, estão
a brincar juntos e juntos estão a falar a sério, por vezes discordam, mas sem
animosidade como às vezes se está consigo mesmo, usando esse desacordo para
reforçar o acordo habitual. Aprendem algo uns dos outros ou ensinem uns aos
outros. Sentem com pena a falta dos ausentes, acolhem com alegria os que
chegam, fazem manifestação deste ou daquele tipo, faíscas do coração dos que se
amam expressas no rosto, na linguagem em mil gestos de ternura".
Possa esta forma tão
simples de Agostinho descrever o que é que é ser cristão, do que é que é
ser família... é vida que se partilha a cada passo, muitas vezes na
espontaneidade e na surpresa, possa ser inspiração para o que vai
acontecer à tua vida Rita, hoje simbolicamente vais começar a pertencer a uma
família a um grupo de discípulos, possa isto ser um programa para tu
renovares a Igreja a que pertences, para tu renovares o mundo, mesmo que te
sintas pequenina nesta hora.
Nós vamos de seguida ao mergulhar-te na Vida de Jesus, nós vamos ungir-te com óleo porque com óleo se ungiam os atletas na arena e por isso nós queremos neste gesto desejar-te força, é isso que o óleo também significa, porém era com óleo que se ungiam os reis e os profetas, és Rainha, és Profetiza, tens valor de Rei e tens valor de Profeta, o mesmo é dizer: A Igreja sem ti não é a mesma coisa, o mundo sem ti não é a mesma coisa! Queremos lembrar esta verdade, queremos lembrar que tu para nós és Rosto de Deus, queremos lembrar-te que se quiseres encontrar o Rosto de Jesus vais encontrá-lo nos laços da Comunidade, naquilo que prevês e naquilo que te vai surpreender, nas lágrimas e nos sorrisos que vamos partilhar ao longo do caminho.
(que nome daremos à vida sem surpresas? - XVI dom com B - 17de julho Batizado da II Rita | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 17 de Julho de 2021. - Jeremias 23,1-6; Efésios 2,13-18 e Marcos 6,30-34.
https:aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/07/18/que-nome-daremos-a-vida-sem-surpresas/

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