Os que seguem vestígios e são levantados por outros
Queridas irmãs, queridas amigas
Este texto é-nos servido, como todos os dias, como todos os textos do evangelho que nos são servidos, são-nos servidos para celebrarmos Páscoa, para passarmos além, para darmos um passo, para não ficarmos na mesma. Acolhamos este texto como portador de força suficiente para não nos deixar na mesma.
Nós escutámos a versão de Mateus desta história que é mais que história.
E há pouco mais de uma semana, escutávamos a versão de Marcos e talvez pudéssemos repousar o olhar nas diferenças, ou pelo menos em pormenores e em sublinhados de Mateus. Nós sobre os relatos de Marcos a respeito dos milagres de Jesus ou das curas de Jesus, já estamos habituados a dois tempos: Aquela mulher tocou-o, Jesus sentiu uma energia e depois volta para trás e depois é que acontece a cura. Estamos habituados em Marcos a Jesus fazer com saliva lodo, a tocar, não vê bem à primeira vê bem à segunda.
Percebemos que esse ritmo a dois tempos e
essa discrição tão plástica de que materiais que Jesus usa para curar,
percebemos que é para nós desconforto e foi também para os primeiros
evangelistas, para quem consultou escritos de Marcos.
Percebemos também nesta discrição de Mateus
da mesma história, ou pelo menos da mesma catequese, percebemos uma grande
simplificação, já não há cá energias a sair de Jesus, há só uma mulher que quer
tocar, já não é o chefe da sinagoga chamado Jairo, é um chefe, não interessa
querido leitor quero falar-te de outra coisa. E Jesus já não precisa pegar na
menina e dizer-lhe levanta-te, ela própria se levantou com um toque de Jesus.
Saboreemos a simplificação de Mateus e onde é
que ele quererá poder chegar.
Nos Actos de Pilatos, um escrito que nós
habitualmente não lemos esta mulher tem nome, chama-se Berenice e Berenice em
grego significa a portadora da vitória, aquela que traz a vitória e em certa
medida este nome inventado para os Actos de Pilatos e que cabe muito bem nesta
personagem dos evangelhos sinóticos, não sei se não quererá dizer, querido
leitor tu e a tua fragilidade são portadores de vitória. A vitória que sonhas é
construída com a tua fragilidade e com as tuas feridas!
O que é que Mateus nos serve neste quadro anónimo? Ninguém tem nome, o que é sempre um convite a colocarmos o nosso nome nas personagens. O que acontece é que é porventura uma metáfora do seguimento de Jesus, da descoberta de Jesus.
Seguimos Jesus na sua sombra, vamos-Lhe
tateando as vestes e precisamos de outros para chegar a tocá-Lo, para chegar a
descobri-Lo e precisarmos de outros como que cuidadores, como que aqueles que
nos apontam caminhos, aqueles que nos sugerem para sentirmos a presença de
Jesus que nos toca.
Que este texto nos ajude a reconciliar-nos
com a nossa condição, como aquela mulher sem nome que os Actos de Pilatos se
atrevem a chamar-lhe Berenice, que aquela mulher sem nome nos devolva a certeza
de que tateamos, tateamos a presença de Jesus e porventura é nessa não
desistência, nessa fidelidade a seguir sombras, a seguir vestígios e porventura
e essa fidelidade a que se pode chamar fé, a essa não desistência a esse
seguimento de vestígios.
Possa a certeza de que aquele chefe, na versão de Mateus, bem mais confiante do que na versão de Marcos. Na versão de Marcos ele vem pedir a Jesus que cure a filha que está muito doente, quase a morrer.
Mateus é capaz de nos dizer isto que nos
parece absurdo, um pai que acaba de ver a sua filha morrer e em vez de chorá-la
e em vez de começar o seu grande caminho de luto, abandona-a, abandona-a e vai
ter com Jesus. Possa este quadro inserido nesta história tão cruzada, possa
este quadro lembrar a nossa dependência uns dos outros para sentirmos a
presença de um Jesus cuja profissão é erguer pessoas.
(Os que seguem vestígios e são levantados por outros - semana XIV B – segunda | breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | semana XIV – Segunda | Lisboa, 5 de Julho de 2021. Génesis 28,10-22 e Mateus 9,18-26.)

Comentários
Enviar um comentário