O que faz mudar a tua agenda?
Queridas
irmãs, queridos irmãos, queridos amigos
Descansemos
nesta hora ao colo de um Deus que se importa com a nossa fome, ao colo de um
Deus que se preocupa com as nossas inquietações, com os nossos desconfortos.
Ficou claro na I leitura que escutávamos do II livro dos Reis que através
de tantos ao longo da história, através de gente como nós, profetas, Deus
sacia o seu povo, Deus alimenta o seu povo no seu caminho, Deus preocupa-se com
o caminho de cada um e sobre isso cada um poderá falar, cada um tem uma
história a narrar, a história do amor de Deus consigo e que passa por
tanta gente e por tantas circunstâncias e até por tantos momentos que naquela
hora nem víamos a presença Dele.
Sintamo-nos
nesta hora ao colo de um Deus que se importa contigo, ao colo de um Deus que se
importa contigo.
Nós temos
lido o Evangelho de Marcos de modo mais ou menos seguido e de repente hoje
ia-nos ser servido o seu apontamento sobre este sinal de um Jesus que alimenta
gente inexplicável hoje é-nos substituído por João. Talvez porque
queiramos saborear esta relação que João estabelece entre este sinal e a
eucaristia, ele que no seu escrito não fala daquela Ceia de Jesus com os seus
discípulos repartindo o pão, fala de um serviço, fala de Jesus no trabalho do
servo, do escravo, fala de um lava-pés e por isso queremos saborear este texto
em relação também com a eucaristia, com aquilo que fazemos em cada domingo, nós
antecipadamente em cada sábado.
É curioso
um detalhe que João nos serve, absolutamente prescindível diríamos nós, Jesus
andava por ali no lago, subiu à montanha (começa a adensar-se) seguia-o muita
gente, estava próxima a Páscoa e Jesus perguntou então como é que vamos
fazer agora com a comida? Estava a adensar-se, estava próxima a Páscoa...
Este pormenor de repente o texto muda, falamos de fome, falamos de como é
que vamos jantar, para que é que era precisa esta frase?
Bastava
dizer Jesus estava no lago, havia muita gente atrás dele e por acaso subiu a um
monte porque ficava na rota e olhou para a multidão e... Isto já são horas
vamos tratar do jantar...
Jesus
andava pelo lago, seguia-o uma grande estava próxima a Páscoa e se calhar o que
nós queremos saborear neste detalhe de João é precisamente esta interrupção tão
bizarra...
Estava
próxima a Páscoa e uma grande multidão seguia Jesus, será que ia falar-nos da
Páscoa? Será que ia falar-nos dele próprio? Será que ia falar... E mudou
a agenda e mudou a agenda... Ao ver aquela multidão, ao ver aquele desconforto
e sua fome mudou a agenda, Ele e os seus discípulos mudaram a agenda.
A fome
daquela gente mudou a agenda de Jesus e da Igreja, o desconforto daquela mudou
a doutrina que Jesus ia dizer ou o que quer que Ele fosse dizer.
E querido
leitor, andava muita gente com Ele, subiu a uma montanha e sabes o que é que
isto quer dizer e estava próxima a Páscoa e olha esquece Ele já não vai dizer
nada do que tinha previsto, olhou para aquela gente, ouviu escutou e
compadeceu-se daquela multidão, mudou a agenda...
E nós que
recebemos este texto como alimento, deixemos que ela faça caminho connosco,
deixemos que seja este texto a ampliar-nos, deixemos que nos amplie a
cada um de nós e à nossa comunidade, às nossas comunidades.
Eu não
quero provocar-vos, mas este texto provoca-nos. Quando é que foi a última vez
que tu mudaste a tua agenda por causa da fome de alguém ou do desconforto de
alguém?
E este
texto vai andando connosco, ora mordendo-nos por dentro, ora dando conta
dele... Que este texto continue o caminho connosco.
Já que
estávamos a falar de milagres, é certo que este texto não é para ser acolhido
de modo literal.
Talvez ao
falarmos de sinais de facto estamos a apontar para coisas que não vemos, e vez
de olhar a lua, não queremos olhar o dedo de quem a aponta, queremos tentar
olhar a lua e saborear a beleza que nos vem da lua, queremos também não
ficarmos pelos sinas, queremos ver com dificuldade o que estará por detrás
desses sinais mas aqui para nós, já que é para ser espetacular e
extraordinário, cinco mil homens, mais de cinco mil pessoas, naquela altura não
era tão importante contar todos os géneros presentes e as mini-pessoinhas seria
mais de cinco mil, então porque não fazer cinco mil pães em vez de fazer quatro
mil novecentos e noventa e cinco, qual era a diferença?
Talvez o
que João nos queira dizer com esta catequese é um piscar de olho à celebração
dominical, um piscar de olho à celebração da ceia, um piscar de olho à
eucaristia.
Querido
leitor, Jesus não prescindiu daquela insuficiência. Havia um rapazito, diz-nos
o texto, era o mais prevenido daquela multidão, levava um lanchinho com ele, os
outros pelos vistos não se preocuparam tanto com isso, e o narrador ocupa-se
com este detalhe, o rapazito não estava contabilizado nos cinco mil homens, era
um (desculpem a expressão), era um coiso, segundo o narrador é para nós
olharmos isto como bizarro, o cúmulo da pequenez. Este cúmulo de pequenez que
tem aquela insignificância, talvez Jesus não fizesse aquele pequeno sinal que
saciou tanta gente, talvez não acontecesse sem uma insignificância e queremos
saborear nisto uma página de filosofia, a
transcendência habita a imanência.
Queremos saborear neste texto uma página de sabedoria, aquilo que nos
transcende habita aquilo que tocamos. A sede de infinito que projetamos para
Deus, a sede de plenitude que projetamos para Deus, habita aquilo que tu vês,
habita os teus laços, habita a comunidade, habita o sonho de Jesus de fazer de
todos uma só família, isso que transcende habita já, na expressão de Jesus, o
Reino de Deus está já dentro de vós.
Que este
texto nos ilumine o olhar, que este texto nos ilumine o olhar para nos
reconciliarmos com o que temos, com a insignificância dos nossos cinco pães,
com a insignificância daquilo que julgamos que é pouco, com a insignificância
daquilo que julgamos já adquirido, das nossas relações onde quase já não
esperamos nada de novo. Que este texto nos esfregue os olhos, que este texto
nos limpe o olhar, para vermos aquilo que buscamos já presente entre nós, já no
meio de nós.
E se é
verdade que este texto é um piscar de olho à eucaristia, não podemos passar ao
lado da mudança da agenda de Jesus e da relação que Jesus estabelece entre a
eucaristia e a justiça. Nós não vimos aqui para nos sentirmos bem com Deus, nós
não vimos aqui para esquecer a exigência de cada semana, nós não vimos aqui
para uma relação pessoal com Deus, para isso cada um ficaria em sua casa, cada
um ficaria no seu quarto, nós vimos aqui porque não desistimos de ver Deus na
comunidade, de ver Deus nos laços e quer seja por causa, quer seja por
consequência, a vinda de cada um a esta mesa é um treino para praticarmos a
justiça, se quiséssemos, nós vimos aqui não é para nos darmos bem com Deus,
vimos aqui para nos darmos bem uns com os outros, nós vimos aqui para nos
perdoarmos, nós vimos aqui para arranjar força para nos perdoarmos e para
perdoar, nós vimos aqui para revermos os nossos preconceitos, nós vimos aqui
para reconhecermos que ainda condenamos gente, que ainda não nos diz nada o
desconforto de outros, o mesmo desconforto que fez Jesus mudar de agenda, nós
vimos aqui porque estamos em caminho e em processo e queremos dar forma ao
sonho de Jesus.
Às vezes
sentimo-nos meio com vergonha com a igreja (igreja somos todos) mas com alguns
pronunciamentos mais jurídicos de privarmos o gesto de comunhão de gente que se
ama de maneira diferente do que está escrita e ninguém se incomoda em
continuarmos a dar o pão da comunhão a gente que não paga salários justos, a
gente que não se importa com a empregada lá de casa, não se importa se há verão
ou férias, com gente que não se importa com vidas dignas, esses podem
comungar à vontade, que pena que embirramos com moral e que pena que não
embirramos em justiça, podíamos ser profetas da justiça em vez de ser profetas
da moral.
Possa este
texto também fazer connosco alguma coisa, possa este texto pôr-nos em caminho,
aproximar-nos do sonho de Jesus, possa este texto evangelizar-nos. Queremos
fazer deste ato amoroso, deste encontro à volta da mesma mesa uma questão de
justiça, uma questão de lucidez, queremos fazer deste encontro à volta da mesma
mesa, à volta do Jesus preocupado com a nossa fome, queremos fazer deste
encontro um pretexto para mudarmos de agenda.
(o que faz mudar a tua agenda? | XVII dom tempo comum B breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XVII do Tempo Comum B | Hospital de Santa Marta, Lisboa, 24 de Julho de 2021.)
https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/07/25/o-que-faz-mudar-a-tua-agenda/

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