Imaginas um mundo sem profetas?

 

Queridas irmãs, queridos irmãos, queridos amigos

Que estes textos sirvam para celebrarmos a Páscoa, é isso que vimos aqui fazer.

Situemo-nos no evangelho: Jesus parece que anda a atrair muita gente, não tanto pela eloquência das palavras, mas porque anda a tocar em gente que não se pode tocar, anda a erguer gente que não se pode tocar nem erguer, anda a dar palco e voz a impuros e no capitulo anterior, capítulo V do evangelho de Marcos, Jesus vem duma terra suja e mesmo lá libertou gente e entalou os dedos numa porta e decidiu voltar à sua terra, à terra onde terá passado a infância e grande parte da sua vida, voltou a Nazaré. 

E nós queremos situar-nos naquela sinagoga, naquele sábado. Marcos faz questão de dizer que Jesus chegado o sábado foi à sinagoga falar e faz questão de dizer que no fim daquilo tudo andou pelas aldeias a ensinar. Nós fartamo-nos de sermos nazarenos, fartamo-nos de ser conterrâneos de Jesus e dizemos que Ele apanhava pedaços de madeira durante a infância e dizemos que Ele é um carpinteiro. Carpinteiro naquela altura era construção civil, as casas eram feitas de madeira, o carpinteiro erguia casas, não fazia móveis. Insistiam em colocar Jesus como o carpinteiro e Marcos insiste em dizer que Ele ensina.

Querido leitor, que tens tu a dizer sobre isto? Jesus era mais professor que carpinteiro, Jesus é mais Rabi do que carpinteiro e a Lei não se aprende por osmose, a Lei não se aprende comendo, 

a Lei aprende-se repetindo-a enésima vez e repetindo, e repetindo e repetindo,  estamos a falar de cinco livros e estamos a falar de sabê-los de cor, estamos a falar de livro dos profetas e estamos a falar de 150 salmos e comentários à Lei e a versão da Lei até chegar ao código moral das 613 prescrições a cumprir diariamente e este conhecimento de Jesus não cai do céu aos trambolhões, Jesus teve que o aprender e se é certo que Ele não parece inscrever-se na lógica do Templo, Ele não é conhecido no Templo, Ele não é conhecido nas estruturas religiosas importantes, Jesus terá aprendido a Lei marginalmente, terá apreendido a Lei, até talvez mais provável, numa comunidade de Essénios.

Aprendeu a Lei, e aprendeu a Lei para a ensinar. Não é um carpinteiro querido leitor, não é (não faças figura de totó como os conterrâneos de Jesus) não é carpinteiro, aprendeu e agora ensina. 

Só que ensina coisas estranhas, não tem os poderes mágicos como os sacerdotes do Templo, não tem o rigor da análise e do controle do cumprimento da Lei como os fariseus, não tem os escrúpulos dos escribas que dizem que a Lei se interpreta desta maneira e não de outra.

Jesus fala da vida, fala de sementes, Jesus fala de caminhos, Jesus fala de árvores, Jesus fala da vida e é isso que o torna sedutor e é por isso que o seguem multidões, porque olha a vida de modo diferente, porque olha a vida doutra perspetiva, porque abre a própria vida, porque deixa a vida em aberto, porque garante que mais forte que a morte é o amor, o amor que ergue, tantas vidas mortas que Ele ressuscitou, que Ele ergueu dum lado e de outro do lago, desde a Galileia a Jerusalém. Quanta gente Ele ergueu! Ergueu, ergueu e em certa medida deixou a certeza de que se a Lei serve para alguma coisa, só pode servir para deixar a vida em aberto, só pode servir para te deixar recomeçar, só pode servir para que TU deixes outros recomeçar.

Com a página que nos é servida neste capítulo VI, nós inauguramos o capítulo VI do evangelho de Marcos, gostava que saboreássemos dois detalhes: um que se liga com a primeira leitura que escutamos do profeta Ezequiel, entre nós há profetas, e isto é nos dito hoje com muita certeza, é para nos lembrarmos, entre nós há profetas!

E nós habituamo-nos, a nossa tradição é responsável por isso, a tradição cristã ligada a Roma, habituamo-nos a achar que santos são só alguns, aqueles que ficam a apanhar correntes de ar no altar-mor desde o tempo dos barrocos, achamos que os Santos são só os tipos que se encadernam numa caderneta especial, numa capa especial na melhor estante.

Que pena que ainda precisamos de nos evangelizar uns aos outros, desde Jesus que os Santos são os que seguem Jesus, os Santos são essa comunidade incontável e sem fronteiras, é porventura esses cujas fronteiras são as mesmas que a humanidade, esses são os Santos! E por isso vemos nos tempos da primeira igreja, dos primeiros tempos, os Santos da igreja de Odivelas a saudarem os Santos da igreja de Coimbra, os santos desta igreja a saudar os santos da outra igreja, isto para dizer que, se somos santos com Jesus pelo batismo não andamos a brincar e nos tornamos sacerdotes  profetas e reis, entre nós há profetas e ao dizermos entre nós, não é para voltarmos com aquela mania que só alguns é que são, Tu és profeta e somos um povo de profetas, e cada um saberá o que fazer com esta frase, cada um saberá como arrumar esta verdade que nos é dita e insistida hoje, com as leituras que escutámos "Deus visita o Seu povo". Podem não perceber nada, mas saberão uma coisa, há profetas! 

E vamos fazer como os que estavam na sinagoga de Nazaré? 

Quem este? Este eu conheço-o bem! Eu bem sei quem ele é! 

O segundo detalhe que eu gostava que saboreássemos é o poder destrutivo que tem a nossa pseudo certeza de que conhecemos as pessoas, nós que não nos conhecemos sequer a nós próprios. Se tivéssemos de responder à pergunta quem sou, íamos refugiar-nos na profissão que temos, no melhor conhecimento que temos, na melhor formação que tivemos, nos graus de parentesco que nos situam socialmente, íamos refugiar-nos em tantas respostas e a pergunta continuava solitária, quem sou? 

Cada um também saberá como arrumar esta pergunta. Certo é que hoje, na página do evangelho que nos foi servida, percebemos o poder nefasto desta pseudo certeza de achar que conhecemos as pessoas. Eu bem te conheço, eu bem sei quem tu és e, portanto, nunca poderás sair da prateleira onde eu te arrumei. Isto disse um grupo de gente dentro da sinagoga de Nazaré a Jesus e Jesus passou-lhes ao lado! E um profeta passou-lhes ao lado! 

E Marcos com este texto que felizmente passou séculos e chegou ate nós, quer perguntar-nos, querido leitor, entre vós há profetas não vais querer que passem ao lado, pois não? E cada um reagirá a este texto, não queremos que os profetas nos passem ao lado e não queremos nós, profetas passarmos ao lado. 

Deixemos que esta página do evangelho alimente uma certeza, as nossas relações não se conquistaram, não se conseguiram e ficaram arrumadas para sempre. Com este texto vem-nos a certeza de que as nossas relações são seres vivos, e que precisam de alimento e precisam de descanso, e precisam de investimento, e precisam... Os nossos laços são seres vivos. 

Jesus, regista Marcos, ficou espantado com a falta de fé e nós andamos aqui sempre a repetir fé, antes de ser acreditar em não sei quê que nos vem da tradução grega e latina, na palavra hebraica amàn, que significa amarrar, enlaçar. Era o que descrevia amarrar a planta à estaca. 

Aquela gente tinha Jesus arrumado e não sairia da prateleira, Jesus estava espantado com a falta de investimento em laços, estava espantado com a falta de fé. Que Ele não se espante connosco. 

(breve comentário aos textos bíblicos lidos em comunidade | Domingo XIV do Tempo Comum B | transmissão online, Hospital de Santa Marta, Lisboa, 3 de Julho de 2021. Ezequiel 2,2-5; 2 Coríntios 12,7-10 e Marcos 6,1-6)

https://aquelequehabitaosceussorri.blog/2021/07/04/imaginas-um-mundo-sem-profetas/

 

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